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(A) :: Mesmo que demore não dura

Mesmo que demore não dura

Quem porá fim a esta operacionalidade politica inviável com três grandes blocos partidários de peso quase igual que animam o parlamento e desanimam a política? Não se sabe, sabe-se que não pode durar.

Maria João Avillez
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1 A ilusão com que “se” espera por António José Seguro é eloquente e perigosa. Mas é sobretudo inversamente proporcional ao que o espera a ele: um país fragmentadíssimo, instituições fragilizadas como nunca desde 1974; a perda da autoridade do Estado; um sistema de partidos cuja natureza dita a sua própria improdutividade; um governo praticamente bloqueado no seu funcionamento; uma operacionalidade política inviável por se fazer com – e através – de três grandes blocos partidários de peso quase igual que animam o parlamento e desanimam a política; o ar mediático contaminado pela prática do desrespeito e um universo político que desistiu das boas maneiras.

Os recentes desastres naturais de rara dimensão e prejuízo, ensombraram ainda mais um estado de coisas onde elas em vez de se concertarem, se dissolvem na acusação política e no desacerto.

Não se sabe o que vai na cabeça de uns e outros. Parece o fim de alguma coisa como aqueles restos deixados pela fúria das águas quando elas se foram embora.

2 Como se fosse pouco (mas talvez não pudesse ser de outra maneiras) há uma concorrência malsã nas fileiras das duas oposições: de um lado um PS agora agarrado a António José Seguro, o inesperado “benfeitor” que pode salvar a família de um naufrágio político. Ou melhor, que os socialistas não escondem esperar que ele salve. Não nos revelou José Luís Carneiro que está a contar com o contributo” (contributo?) do Presidente da República eleito para que “o Governo possa responder às propostas que o PS tem vindo a fazer ao longo destes meses”? Ou que “o PS agora tem uma voz em Belém” (uma voz?). Não me impressiono porque não acredito, mas fica– se esclarecido.

Já se notara que o líder do PS está sempre disponível a colaborar com o governo em nome da saúde da pátria desde que… o Executivo cumpra o guião socialista, as suas propostas, as suas medidas, o seu entendimento do que deveria ser o modus operandi governativo.

3 André Ventura qualquer dia mete medo. O seu regresso ao palco parlamentar foi quase selvático; nos decibéis; no histrionismo; na exaltada retórica sempre desorganizada, sempre desproporcionada, onde se misturam alhos com bugalhos, se desconhece o uso do critério e se agride, acusa e ficciona. Diante do país, André Ventura praticamente acusou o chefe do governo – é só um exemplo – de ter atirado dos telhados abaixo os portugueses que tentavam heroicamente reparar as suas casas e tiveram a infelicidade de cair. Uma vergonha sem medida. Não é novo? Não, é apenas humilhante e extenuante, (em partes iguais). Novo é que o massacre do Chega ao PSD se agigantará, galgando sofregamente o irracional (até à destruição de um deles?)

 Mas que importa – e a quem importa na verdade? – esta galopante desqualificação da prática da política? No dealbar de um novo ciclo político num país ancorado em nada, talvez haja porém alguém que se importe.

4 Que se passará na cabeça do secretário geral da UGT? Já foi assimilada, capturada, auto-desqualificada também ela? Nesse caso de que nova UGT estamos a falar?

Deixou de ser suficiente continuar a – “culpar” exclusivamente o governo de se ter “preparado mal” para lançamento de uma reforma com alcance da reforma laboral. Ou dizer – o que era verdade mas era apenas uma das faces da verdade – que ninguém tinha preparado a Sra. ministra para uma negociação de natureza política: empreitada por definição incomparável com qualquer outro tipo de negociação. Ainda em campanha, António José Seguro que tinha de falar para a esquerda, não só se mostrou muito crítico da reforma como quase transferiu para a UGT o poder da decisão final. A desenvoltura assertiva com que o fez pode ter amparado o seu debilitado partido e a própria UGT neste combate contra o governo. Admito. O desfecho será a descaracterização total da reforma (já esteve mais longe) ou a sua ingloriamente prematura morte. O país ficou ainda mais pequenino.

De novo não se alcança o que querem uns e outros quando todos os dias acusam o actual executivo de não reformar Portugal mas de caminho vetando tudo ou quase tudo de parecido -só parecido – com uma reforma. (e que faria se fosse mesmo uma reforma!).

Olhando de fora para tudo isto não parece politicamente verosímil acreditar que a barca governativa chegue a bom porto. Mas o que começa a ficar claro é que os responsáveis pela intercepção da viagem estão em maior número fora da barca do que lá dentro.

De tal modo quase tudo disfuncional e as vezes até disruptivo.

5 E o Presidente eleito?

 António José Seguro convenceu os portugueses porque lhes surgiu antes do mais como “uma pessoa normal”. Alguém normal, com uma família normal, uma carreira política normal, uma vida normal, um republicano normal.

O Presidente eleito sabe que terá de fazer o seu lugar. Falou mais de uma vez “estabilidade” porque vai ter de lidar com o maior produtor de instabilidade que é o actual sistema de partidos; e assim sendo também sabe da imperiosa necessidade de criar condições políticas para a evolução do nosso tóxico enredo partidário: em direcção a uma maioria estável e coerente, naturalmente.

Como ? Ver-se-á.

Como me parece que se verá a também imperiosa necessidade do regresso da autoridade do Estado; ou – outro exemplo do que intuo que Seguro sabe – a procura da reconstrução de consensos em política externa: face a um outro mundo, diante de novas concepções geoestratégicas e numa Europa a tentar reconstruir-se e reprogramar-se.

Agenda pesada. Desejo felicidades.