O PS na Assembleia Municipal de Lisboa acusou esta terça-feira o presidente da Câmara, Carlos Moedas (PSD), de “falha ética” ao decidir “absorver” uma vereadora eleita pelo Chega (que se desfiliou do partido de extrema-direita) para conquistar uma maioria absoluta.
“É certo que tínhamos consciência de que vossa excelência procurava apaziguar a extrema-direita a troco de uns lugarzitos […] desvalorizámos um pouco as zangas públicas entre os dois vereadores desse partido. Porém, repentinamente, vossa excelência decide absorver a senhora vereadora que aparentemente se zangou e — desculpe a expressão, mas o senhor é francófono, viveu muitos anos em França — “‘Oh là là’, eu tenho uma maioria absoluta” para arrumar com a oposição, declarou o deputado do PS Miguel Coelho, referindo-se à vereadora Ana Simões Silva, que se desfiliou do Chega e que agora integra a governação PSD/CDS-PP/IL.
Na reunião da Assembleia Municipal de Lisboa (AML), para apresentar o trabalho do município entre dezembro e janeiro, o social-democrata Carlos Moedas respondeu ao PS também com expressões francófonas: “Não diria Oh là là, eu diria ‘Vive la République, vive la démocratie‘”.
“A vereadora independente Ana Simões é uma pessoa com currículo, é uma pessoa que tem provas dadas na sociedade e sobretudo na área em que ela está a trabalhar […] e é uma vereadora independente, era bom que isso ficasse claro“, disse o presidente da Câmara, sem adiantar mais informação sobre o tema.
A partir de 13 de fevereiro, o presidente da Câmara de Lisboa passou a governar com maioria absoluta ao integrar a independente Ana Simões Silva, ex-Chega, na equipa de vereadores em regime de tempo inteiro, até então composta pelos eleitos de PSD/CDS-PP/IL.
Antes, em 19 de janeiro, Ana Simões Silva anunciou a decisão de se desfiliar do Chega, assumindo o mandato como independente, e justificou a decisão com “incompatibilidades políticas intransponíveis dentro do gabinete da vereação do partido Chega“.
Na expectativa que Carlos Moedas partilhasse o “estado da arte” da sua nova maioria absoluta, o grupo municipal do PS avisou o autarca do PSD de que, “embora vencendo as últimas eleições [autárquicas], o eleitorado não quis que governasse com maioria absoluta“.
“O seu eleitorado, como aliás podemos constatar pelas recentes eleições presidenciais, não se identifica com radicalismos populistas […]. No mínimo teve uma falha ética para com quem em si votou“, considerou o deputado do PS Miguel Coelho.
https://observador.pt/2026/02/11/moedas-entrega-vereacao-a-ex-chega-e-consegue-maioria-em-lisboa/
O socialista questionou ainda as opções da governação PSD/CDS-PP/IL nas áreas da habitação, segurança e mobilidade, criticando a falta de informação sobre a execução de compromissos eleitorais e programáticos, para evitar debater ideias e visões sobre o que é necessário desenvolver em Lisboa.
“Não se esconda atrás da propaganda, dos outdoors, do TikTok. A sua fotogenia não resolve problemas. Não viva de anúncios, mas sim de concretizações. Por exemplo, anunciou em 2022 com “pompa e circunstância” um novo Martim Moniz, que seria concluído até 2026. Porém, nada aconteceu. O outdoor está lá, mas obra nem vê-la”, afirmou o eleito do PS.
Em resposta, Carlos Moedas relembrou o número de cartazes que a cidade tinha na gestão do PS “de obras que nunca aconteceram”, inclusive para construção de centros de saúde: “Nessa guerra estamos mais ou menos falados.”
Sobre a nova maioria absoluta, a deputada Margarida Bentes Penedo, do Chega, disse que Carlos Moedas “soube construir” essa estabilidade governativa, “como o PS também construiu uma maioria em 2015 e trouxe com essa maioria o radicalismo comunista para a esfera do Governo”, considerando que “nessa altura ninguém se escandalizou com o radicalismo”.
“E convém dizer que engenheiro Moedas tem maioria na Câmara, mas não tem maioria na Assembleia Municipal, e nós temos aqui o nosso papel, os senhores não se considerem dispensáveis, os senhores não são dispensáveis”, afirmou a eleita do Chega, dirigindo-se diretamente ao PS.
Antes da apresentação do presidente da Câmara sobre o trabalho do executivo municipal, a AML chumbou um voto de saudação do PSD pelos primeiros 100 dias do mandato 2025-2029 do presidente da Câmara Municipal de Lisboa — assinalados a 18 de fevereiro –, com os votos contra de PS, Livre, BE, PAN, PCP e PEV, a abstenção do Chega e os votos a favor de PSD, CDS-PP e IL.
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