Teria sido um momento especialmente impactante, mas a agenda não o permitiu. Luís Montenegro era esperado numa conferência organizada pela SEDES, que tinha e teve Pedro Passos Coelho como convidado de honra. No entanto, o atual primeiro-ministro, que nunca chegou a confirmar a sua presença, acabou por não se deslocar a Leça da Palmeira, reservando a tarde para um encontro com o Presidente da República eleito, António José Seguro.
Mas foi ele — Luís Montenegro — o alvo de todos os recados de Pedro Passos Coelho. Numa intervenção dedicada à questão da reforma do Estado, em linha com outras que tem feito recentemente, o antigo primeiro-ministro lamentou o atual estado da Saúde, as falhas na Educação e o regresso a práticas pouco recomendáveis na Administração Pública — altura do discurso em que aproveitou para criticar a escolha de Luís Neves para ministro da Administração Interna.
Num remoque mais indireto, Pedro Passos Coelho não parece ter sugerido também que as escolhas de Luís Montenegro para compor o atual Governo ficou aquém do que seria de esperar, ao alegar que, quando ele era primeiro-ministro, convidou para governantes “pessoas que quase não conhecia do ponto de vista pessoal”. “Não eram meus amigos. Não andaram nas reuniões comigo lá no PSD.”
Ainda assim, o fio condutor da intervenção de Pedro Passos Coelho foi a crónica falta de coragem para tomar medidas estruturais e verdadeiramente reformistas. Sem se esforçar por esconder que o destinatário era mesmo Luís Montenegro, o antigo primeiro-ministro sugeriu que o tempo deste Governo se está a esgotar.
“A mudança depende sempre da liderança. Se o líder quiser mudar, muda. Pode acertar mais ou acertar menos. Mas muda. Nesta altura há boas razões para acharmos que há boas condições para se mudar. Então vamos embora. Vamos trabalhar. Vamos fazer o nosso trabalho, planeado, de mudar o nosso futuro”, começou por desafiar Passos.
Logo a seguir, chegou o aviso em jeito de ameaça. “O Governo está há dois anos e parece que está lá há quatro anos. Na política, só está quem quer. Só vai para política quem quer. Para fazer alguma coisa. Já houve muito tempo para pensar, imaginar e trabalhar os cenários. Esse tempo acabou. É preciso começar a trabalhar e a fazer qualquer coisa.”
Numa intervenção que demorou sensivelmente uma hora, Pedro Passos Coelho disse, repetiu e voltou a esta ideia uma terceira vez: um governo e um primeiro-ministro que se dedicam à gestão corrente e à administração do dia a dia, acabarão engolidos.
“Os portugueses têm de ver ação. Alguma coisa tem que mudar. Nunca perdoarão que não se tente. Ninguém poderá dizer que eu não tentei. [Temos de aproveitar] a oportunidade política imensa que hoje existe para se fazer diferente. As pessoas estão exaustas dos políticos que não querem fazer nada, que só querem fazer gestão do eleitor-contribuinte.”
De resto, o antigo primeiro-ministro não deixou de ir ao passado para fazer uma comparação com o presente. Recordando que António Costa tinha “gáudio” em dizer ter “alergia” à palavra “reformas”, Pedro Passos Coelho concedeu que “durante oito anos talvez as pessoas tenham apreciado a paz” de que “não se fizesse nada”.
“Toda essa gestão foi muito bem sucedida. Mas teve uma contrapartida: o investimento no futuro não foi feito”, continuou Passos. “Mas, caramba, foram oito anos. Havia a noção de que o governo que lhe sucedeu não podia passar oito anos assim”, apontou o antigo primeiro-ministro.
Passos levou, aliás, exemplos concretos para apresentar. Na Saúde, não só criticou a insistência um modelo que considera ineficiente — o da direção executiva do SNS —, como questionou a demora no relançamento das PPP, uma promessa eleitoral de Luís Montenegro. Na Educação, Passos questionou a quebra de resultados dos alunos portugueses em comparação com os seus pares europeus e pediu mudanças de fundo.
Mas foi na questão da reforma laboral que Passos se permitiu ir mais longe. Elogiando genericamente a intenção do Governo, o antigo primeiro-ministro questionou as hesitações do Executivo liderado por Luís Montenegro, chegando a lembrar as declarações de Manuel Castro Almeida sobre a hipótese de a reforma laboral “não ter pernas para a andar” sem acordo na concertação social — palavras que o ministro da Economia corrigiria depois.
Ora, para Passos, o Governo está a gerir duplamente mal a questão. Por um lado, deveria sentar-se à mesa com mais do que uma reforma em jogo, permitindo outro tipo de margem negocial; por outro lado, o Executivo, mesmo goradas as negociações, deveria levar até ao fim a sua intenção e obrigar os outros a definirem-se.
“Os partidos no parlamento que decidam. Se querem apoiar ou se não querem apoiar. E se não quiserem apoiar e chumbarem as propostas de reforma, o Governo tem aqui um ponto importante para se dirigir ao eleitorado e para pedir mais força para as concretizar, a menos que o Governo ache que não tem apoio na sociedade portuguesa para estas reformas.”
Como pano de fundo de toda a intervenção, Passos deixou uma ideia: o Governo de Luís Montenegro pode não ter as melhores condições políticas e parlamentares para impor reformas; mas nunca como antes houve tanta vontade popular de mudar. Para Passos, portanto, é uma questão de mostrar verdadeira iniciativa. Caso contrário, essa maioria nunca chegará. “Não tem esse apoio hoje. Mas, [se nada fizer], porque é que há-de pensar que um dia vai ter esse apoio?”, provocou Pedro Passos Coelho.
Perante a indisponibilidade de Luís Montenegro, o Governo far-se-ia representar por Fernando Alexandre neste encontro organizado pela SEDES. O ministro da Educação fez uma intervenção à distância e essencialmente focada na reforma que está a ser conduzida pelo Ministério que tutela. Por dificuldades técnicas e quebra de ligação, Fernando Alexandre ficou uns cinco minutos sem se conseguir fazer ouvir. Na plateia, Passos assistiu a tudo impávido. Foi um fim de conferência poético: nunca o antigo primeiro-ministro esteve tão distante e desligado do atual Governo.
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