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Vereadores a sair, acordos e nomeações polémicas. Chega com vida difícil nos primeiros meses pós-autárquicas

Chega festejou 137 vereadores e sete já deixaram o partido, dois deles promovendo maiorias absolutas. Há acordos em alguns locais do país, independentes a fazerem a diferença e contratações polémicas.

Inês André Figueiredo
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Quatro meses depois das eleições autárquicas, o Chega continua a colecionar problemas por todo o país. De saídas de vereadores e deputados municipais (alguns que até deram maiorias absolutas) a acusações de nepotismo, André Ventura tem em mãos um conjunto de situações desfavoráveis ao partido. Já tinha acontecido nas últimas autárquicas, mas o Chega cresceu, o número de eleitos é substancialmente maior e nem sequer o apertar dos critérios ajudou a evitar os erros de casting.

Dos 137 vereadores, sete viraram as costas ao partido e tornaram-se independentes — e dois desses permitiram maiorias absolutas em Lisboa e Gaia. Mas há também um deputado municipal no Porto que saiu do Chega e permitiu a Pedro Duarte aprovar o orçamento para 2026.

André Ventura assume que o número de autarcas eleito pelo país é um “desafio”, mas compara-se aos outros partidos para assegurar que este tipo de casos acontece um pouco por todo o país e que o poder autárquico do Chega permanece “absolutamente intocável”.

Sete vereadores já deixaram partido

Até ao momento são sete os vereadores eleitos pelo Chega que despiram a camisola do partido e decidiram começar a atuar por conta própria, como independentes. O caso mais flagrante foi em Lisboa, com a vereadora Ana Simões Silva, que o Chega conquistou por uma unha negra à CDU. Carlos Moedas aproveitou a rutura e entregou-lhe os pelouros nas áreas da Saúde e do Desperdício Alimentar — selando uma maioria absoluta que tinha ficado aquém.

O presidente da Câmara Municipal de Lisboa apressou-se a celebrar a vitória que muda praticamente tudo nos quatro anos de mandato: “É uma boa notícia para a cidade de Lisboa e para os lisboetas. Esta maioria garante estabilidade e coesão à governação e oferece garantias de que o programa que foi sufragado pelos lisboetas, o projeto transformador que temos vindo a pôr em marcha, será executado com sucesso.”

Em Vila Nova de Gaia o cenário foi desenhado a papel químico. Luís Filipe Menezes, eleito por uma coligação que contou com PSD, CDS e IL, tinha ficado a um vereador da maioria absoluta e aproveitou a desfiliação de António Barbosa. O presidente da autarquia ficou com os pelouros das Feiras, Mercados, Ambiente e Bem-Estar Animal e será também adjunto de Menezes para o Urbanismo, Planeamento Urbanístico e Fiscalização Urbanística — Procedimentos Administrativos, vereador adjunto para a Segurança e vereador adjunto para o Relacionamento com as Juntas de Freguesia.

Em Coimbra, o Chega também perdeu um vereador. Maria Lencastre Portugal anunciou que se ia desfiliar do partido liderado por André Ventura Maria Lencastre Portugal devido a uma “incompatibilidade objetiva” entre orientações internas recentemente aprovadas pelo Chega. Considera que o mandato deve ser exercido “assente na autonomia dos eleitos e na representação direta dos cidadãos” e, na sua visão, as orientações não permitem o “modelo de mandato livre”. Apesar de se ter desfiliado do Chega, mantém o lugar na Câmara Municipal de Coimbra onde vai cumprir o mandato de forma independente.

E as mais recentes desfiliações surgiram mesmo no Funchal. A duplicar. Após várias semanas de tensão entre a direção regional do partido e os eleitos, Luís Filipe Santos e Jorge Afonso Freitas decidiram mesmo abandonar — a gota de água, segundo o Expresso, foi a imposição de uma assessora a ambos por parte de Miguel Castro. Com esta decisão o Chega, que tinha conseguido dois eleitos, fica sem nenhum vereador na Câmara Municipal do Funchal. Em termos práticos, para a governação em si, não muda muito, já que Jorge Carvalho, do PSD, já tinha maioria absoluta.

Em Mirandela, o vereador eleito pelo Chega nem aqueceu o lugar e no dia 23 de outubro anunciou a desfiliação. O processo acelerou-se de tal forma que já tomou posse como vereador independente. Luís Saraiva justificou a decisão com “divergências intransponíveis com a direção distrital do partido, bem como uma falta de apoio gritante durante toda a campanha, tanto a nível local como nacional”. Orgulhoso de não ser um “político de carreira”, o vereador prometeu ajudar Mirandela com “políticas de bom senso, realistas e exequíveis, dando prioridade às necessidades básicas da população”. Era o único vereador do Chega nesta câmara, pelo que, mais uma vez, o partido ficou sem representação.

Mais recentemente, Emanuel Vindeirinho, vereador eleito pelo Chega na Marinha Grande, seguiu os mesmos passos. O fim da ligação ao partido não mudou a presença na câmara, optando por se manter como vereador independente, mantendo o “compromisso” com a cidade. Assegurou, ao Jornal de Leiria, que se tratou de uma “decisão pessoal” e que não está “focado em divergências partidárias”.

“Não queremos ter os problemas que tivemos no passado, mas não estávamos preparados como estamos agora”, esclarece Carlos Magno Magalhães, consciente de que é importante não haver mais erros de casting e falhas como as que levaram vereadores do Chega a alinharem ao lado de outros partidos ou até a abandonarem cargos ou a desfiliarem-se, deixando o partido sem representação

Os acordos que foram selados (e a ajuda no Porto)

No dia seguinte às eleições fizeram-se contas aos sítios em que o Chega poderia ter influência por ter nas mãos a chave para completar maiorias absolutas. Marco Almeida foi um dos presidentes de câmara que nunca afastou a possibilidade e aproveitou os vereadores do Chega, o que fez estalar o verniz dentro da coligação com que foi a votos. O autarca decidiu integrar o Chega no executivo, ofereceu pelouros a dois eleitos (ao segundo e terceiro lugares da lista encabeçada por Rita Matias) e o Chega aceitou.

Porém, a decisão levou a IL a romper a corda (porque já tinha avisado que não entraria em executivos municipais com o Chega) e, por sua vez, a vereadora liberal virou as costas ao partido. Eunice Baeta, que fazia parte da Comissão Executiva da IL nessa altura, não seguiu as ordens internas e os liberais retiraram-lhe a confiança política. No final das contas, Marco Almeida conseguiu conforto para governar Sintra.

Em Tomar, um acordo de governação entre PSD e Chega também teve luz verde. O vereador Samuel Fontes não precisou de se desfiliar, já que foi possível negociar com tudo em cima da mesa e Tiago Carrão, presidente da câmara de Tomar, conseguiu mesmo ficar com maioria absoluta.

Além de vereações, o Chega também vai favorecendo o PSD com autarcas eleitos, desfiliem-se ou não. Apesar de Pedro Duarte (que chegou a dizer que “em termos autárquicos não faz sentido linhas vermelhas” e que recuou) não chegou a nenhum acordo com o Chega, resolveu o problema da maioria absoluta ao recrutar Jorge Sobrado à equipa do derrotado Manuel Pizarro, mas o Chega já lhe deu jeito.

Na Assembleia Municipal do Porto, no momento de aprovar o orçamento para a autarquia, convenceu dois elementos do movimento do independente Filipe Araújo e contou com a aprovação de um deputado ex-Chega, Fernando Cardoso. O presidente da câmara do Porto chegou a assumir que poderia ter de lidar com um chumbo, mas acabou por se ver livre desse cenário. Fernando Cardoso era líder da concelhia do Chega no Porto e quando saiu houve quatro eleitos do partido, em diferentes funções, que se desfiliaram em solidariedade.

Ainda que a distrital tenha exonerado Fernando Cardoso, o deputado municipal apressou-se a passar a independente e de nada valeu a retirada de confiança política.

Mais recentemente, a surpresa de Cascais. Nuno Piteira Lopes tinha um acordo de governação com o PS e decidiu estender a coligação ao Chega — o que resultou imediatamente no romper dos socialistas. O PS nem sequer sabia do acordo de governação e apercebeu-se do anúncio em plena Assembleia Municipal. “Esta decisão resulta de um princípio político claro e publicamente assumido: o PS não integrará um executivo municipal em que o Chega tenha pelouros. Perante a opção tomada pelo PSD em Cascais, o PS não pode, por coerência e responsabilidade, contribuir para um modelo de governação que normalize a presença de uma força política cujas posições são incompatíveis com os valores democráticos e humanistas que o PS sempre defendeu”, reagiu o PS em comunicado, onde se podia ler que Cascais “não precisa de espetáculo nem de propaganda”.

Os cargos que o Chega distribuiu

Se é verdade que as saídas de vereadores causam mau-estar no Chega, há um outro tema que vai pesando dentro do partido, nomeadamente porque André Ventura foi sempre vocal na associação de PS e PSD a “tachos”. Começou com a notícia da nomeação da irmã Rui Cristina para a Câmara Municipal de Albufeira, onde foi eleito presidente.

Sara Cristina foi nomeada como adjunta no Gabinete de Apoio aos Vereadores da Câmara Municipal de Albufeira um mês depois de o irmão ter sido eleito presidente da autarquia algarvia e Rui Cristina ainda desvalorizou numa Assembleia Municipal: “Sei que todos os presidentes de Câmara gostariam de ter uma irmã qualificada como esta para trabalhar em prol dos munícipes.” É engenheira civil, chegou à câmara de Albufeira num regime de mobilidade e terá uma função de coordenação naquele gabinete.

Em Lisboa, a revista Sábado revelou que a saída de Ana Simões Silva do partido começou pela falta de liberdade para fazer escolhas para o gabinete, onde não só estão militantes das listas das autárquicas como também a filha de Carlos Magno Magalhães, secretário-geral adjunto e coordenador autárquico nacional do partido, que é recém-licenciada na Faculdade de Direito de Lisboa, foi contratada como jurista. Além disso, a namorada do próprio Bruno Mascarenhas, Mafalda Livermore, que também é militante do Chega, foi indicada por Carlos Moedas para os Serviços Sociais da CML, tendo sido vista como uma moeda de troca pelo voto favorável do Chega no orçamento municipal.

Ventura entende que projeto autárquico do Chega está “absolutamente intocável”

Ao longo dos anos, e com foco nas eleições autárquicas, André Ventura foi recusando que o Chega não daria a mão a socialistas e sociais-democratas (“O que é que vamos fazer com esse poder? Vender-nos ao PSD ou ao PS? Não podemos”), mas também foi acusando os adversários de “distribuírem lugares e tachos por toda a gente” quando se trata de poderes locais. De um momento para o outro, o líder do Chega tem sido confrontado com uma série de incongruências dentro do próprio partido.

Questionado em conferência de imprensa sobre esta circunstância, destacou que o partido é “absolutamente penetrante em todo o território nacional a nível autárquico”, que tem um “impacto muito maior” e compara-se aos outros partidos para justificar os imprevistos: “O Chega, tal como todos os outros partidos, como acontece com o PSD, como acontece com o PS… vi um deputado do Partido Socialista, penso que em Nelas, que aceitou integrar o executivo do PSD e afastar-se da orientação do partido a nível nacional. Quando o partido se torna muito grande, como é o caso do Chega a nível autárquico, surgem questões a nível local que nem sempre vão de acordo àquilo que pretendemos.”

Apesar de tudo, Ventura defendeu que o projeto autárquico do Chega mantém-se “absolutamente intocável”, mesmo que assuma que o crescimento trouxe “desafios” suplementares. E apesar de sublinhar que não está a “menorizar” os problemas, prefere realçar que o partido “nunca cede” nos seus valores e princípios, “independentemente do contexto autárquico em que isso aconteça” — “As autarquias vão e vêm. Os valores mantêm-se. E a integridade mantém-se. É isso que eu espero que aconteça.”

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