Ao longo da História, muitos povos criaram os seus “reis adormecidos”: o Rei Artur que regressará de Avalon, Frederico “Barbarossa” que despertará da gruta para restaurar a grandeza alemã, ou o mito francês em torno de Napoleão Bonaparte. Em Portugal, porém, o caso de D. Sebastião ultrapassou a dimensão lendária para se tornar um traço psicológico coletivo. Enquanto noutras nações estes mitos permaneceram sobretudo no domínio da literatura ou do folclore, entre nós o Sebastianismo transformou-se numa tentação recorrente: a esperança num regresso providencial que resolva o que nos falta coragem para reformar.
Vivemos demasiadas vezes presos ao nevoeiro do passado e à nostalgia de uma grandeza perdida, como se o futuro dependesse de um salvador e não da responsabilidade presente. Essa atitude dificulta o confronto com a realidade, a assunção de escolhas exigentes e o passo em frente que requer menos saudade e mais ação.
Se analisarmos a governação de Pedro Passos Coelho à luz do liberalismo, encontramos um executivo marcado por contrastes profundos. Havia uma clara intenção reformista, mas o país enfrentava uma emergência financeira sob assistência externa. O Programa de Assistência Económica e Financeira (PAEF), negociado em 2011 com a Troika (FMI, BCE e Comissão Europeia), impôs metas rigorosas que condicionaram a ação governativa. Entre 2011 e 2014, avançaram privatizações, mas muitas consistiram na transferência de monopólios estatais para mãos privadas, numa lógica de reorganização económica distante da doutrina liberal clássica.
Algumas reformas foram efetivas, como a flexibilização laboral, mais tarde revertida por António Costa, mas a consolidação orçamental recaiu sobretudo sobre quem tinha rendimento disponível, em vez de reduzir estruturalmente o peso do Estado. Existe, aliás, uma ironia pouco explorada no debate político: durante anos, Passos Coelho foi apresentado como o rosto de um radicalismo liberal, quando várias das medidas que geraram maior contestação tiveram um vincado caráter redistributivo. Os cortes salariais na função pública foram aplicados de forma progressiva, protegendo as remunerações mais baixas; o aumento de impostos diretos incidiu prioritariamente sobre a classe média e as prestações sociais essenciais foram mantidas num contexto de fortíssima restrição.
O paradoxo é evidente: criticou-se o Governo por retirar rendimento, mas o esforço incidiu proporcionalmente mais sobre os rendimentos médios e superiores do setor público, num contexto de emergência que se seguiu a um período de grave deterioração orçamental. Importa recordar que, antes do pedido de ajuda externa, os governos de José Sócrates já tinham adotado medidas de austeridade através de sucessivos Programas de Estabilidade e Crescimento (PEC). Estes programas incluíram aumentos de impostos, congelamento de carreiras e cortes na despesa para conter um défice em escalada. O agravamento das condições de financiamento culminou no pedido de assistência em abril de 2011; ignorar esta sequência empobrece o debate e dificulta uma avaliação equilibrada das responsabilidades.
Na minha perspetiva, Pedro Passos Coelho não foi um governante virtuoso no sentido pleno, nem concretizou todas as reformas estruturais que alguns consideravam necessárias. Governou sob constrangimentos severos e com margem política limitada. Ainda assim, assumiu funções num momento em que o Estado enfrentava o risco real de incumprimento. O programa então negociado permitiu assegurar o pagamento de salários e pensões, restaurando gradualmente a credibilidade externa do país.
Faltou-lhe, talvez, uma estratégia política e comunicacional comparável à de António Costa. Enquanto os seus sucessores procuraram dissociar a consolidação orçamental do discurso da austeridade, Passos Coelho assumiu de forma direta a necessidade de cortar despesa e aumentar receita. Não se tratou de virtude ou defeito absoluto, mas de uma opção num tempo de turbulência.
Pessoalmente, não creio que Passos Coelho queira ser Presidente da República, nem o vejo num cargo onde a magistratura de influência seja a nota dominante. Tenho até as mesmas dúvidas sobre se alguma vez ambiciona voltar a ser Primeiro-Ministro. Os cargos governativos trouxeram-lhe dissabores profundos, desde a crise do “irrevogável” à intrusão na sua vida familiar e às considerações miseráveis sobre a doença da sua esposa.
Talvez o erro coletivo resida na facilidade com que transformamos debates complexos em caricaturas ideológicas. A governação raramente cabe em rótulos simples. A análise rigorosa exige reconhecer condicionamentos externos, escolhas discutíveis e resultados concretos, evitando tanto a mitificação como a demonização. A História, quando observada com distanciamento, revela-se menos linear e muito mais exigente do que os slogans que persistem na memória pública.