A EDP já fez as contas aos prejuízos que as tempestade do início do ano provocaram no grupo. São 80 milhões de euros que incluem o “impacto devastador nas redes”, mais associado à tempestade Kristin, mas também a custos com geradores e combustível, ou danos em ativo de produção.
Em declarações ao Observador, o presidente executivo da EDP indica que “80 milhões é o custo total (para o grupo EDP), incluindo custos de investimento nas redes, custos de operação com geradores, e custos associados ao lado comercial.” A somar aos prejuízos da EDP, haverá que contar os danos sofridos na rede de muito alta tensão gerida pela REN, que também foi fortemente impactada, embora nunca tenha deixado de estar operacional.
Em declarações feitas no contexto dos resultados de 2025 do grupo EDP, Miguel Stilwell de Andrade avisa que a reposição definitiva da rede vai demorar meses e não descarta que essa reconstrução possa já incluir alguns troços de linha enterrada. É preciso analisar, caso a caso, o custo-benefício, diz.
Nos prejuízos contabilizados, destaca-se o impacto na rede de distribuição — gerida pela empresa participada E-Redes — mas que se estende a ativos de produção de energia. Mais de 6.000 quilómetros de rede foram afetados e 200 MW de produção. Além disso, o risco de inundação “obrigou-nos a uma gestão muito cuidadosa e prudente das barragens”. A EDP explora as barragens da Aguieira e Fronhas na bacia do Mondego, que foram cruciais no controlo das inundações na região centro, um trabalho que implicou uma forte articulação com autoridades locais e nacionais.
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Miguel Stilwell de Andrade reconhece que a “reposição definitiva vai demorar meses” até porque a construção de uma das linhas de alta tensão que já foi reposta demoraria, em “condições normais três meses ou mais. E no entanto conseguiu fazer-se no espaço de dias porque foi feito de forma provisória, pondo o cabo diretamente no chão e sem estar ligado aos postes”. E destaca que foi possível passar de um milhão de clientes sem serviço (no dia 29 de janeiro) para menos de mil, deixando uma nota de reconhecimento às equipas que trabalharam em condições super-adversas no terreno.
Sublinhando a “enorme complexidade e dificuldade” de reconstruir de forma super-rápida uma infraestrutura que é complexa e que atravessa rios, pinhais e estradas, o presidente executivo da EDP reafirma que a fase definitiva da reconstrução demorará meses, sem precisar quantos. Sobre os custos, o gestor admite apenas que os seguros podem cobrir uma parte material dos danos, sem indicar valores.
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As linhas elétricas são um ativo regulado e os custos da reconstrução deverão ter algum impacto nas tarifas pagas por todos os consumidores, mas não será para já.
Enterrar linhas? “É preciso ver caso a caso”
O enterramento tem sido apontado como uma das soluções mais óbvias para aumentar a resiliência da rede, designadamente no contexto de ventos muito fortes, mas o seu custo é muito mais elevado. Para já, o presidente da EDP não afasta que essa solução seja já adotada na reconstrução da infraestrutura da região centro.
“Em alguns casos podemos considerar isso, mas acho que o mais importante é fazer o estudo” já anunciado pelo Governo para a adaptação do sistema elétrico às alterações climáticas, para atuar tendo por base uma análise custo-benefício. Stilwell de Andrade lembra que há outras soluções que aumentam a resiliência da rede, mas reconhece que os impactos da depressão Kristin na destruição da rede “obrigam-nos todos a rever e a pensar na resiliência e avaliar se há coisas que se possam fazer e que tenham um custo-benefício razoável”.
As linhas aéreas são mais utilizadas em Portugal (em 80% da rede) por uma razão simples: “É o mais eficaz e o que funciona melhor em termos de custo benefício porque as linhas enterradas não são solução para tudo, nem funcionam em muitos casos. Acho que é preciso ver, caso a caso, e fazer uma avaliação custo-beneficio para cada decisão de investimento que se toma”. E conclui que “nenhuma solução evita todos os problemas”.