“A vala de Gomolava é única”. Não pelos 77 corpos encontrados nela há cerca de 50 anos na Sérvia. Mas pelos contornos e motivos que levaram para lá estas 77 pessoas há cerca de 2.800 anos, na Idade do Ferro. Se antes uma teoria apontava para uma epidemia a razão das mortes, agora uma análise forense divulgada pela Nature Human Behaviour revela que foram assassinados. E que são quase todos mulheres e crianças. Só três deles da mesma família. E que vieram de longe. Tudo isto muito estranho e que não se rege pelos hábitos da época.
Desde a descoberta da vala, na década de 70, a comunidade científica debateu intensamente a sua interpretação. Durante anos, as mortes justificaram-se com uma suposta epidemia, com base nos registos da escavação original e numa análise já anterior. Mas o mais recente estudo refuta totalmente essa tese. Os agentes patogénicos não descriminam em função do género — era isso que estaria a acontecer, se a alegada epidemia se confirmasse, tendo em conta a discrepância entre a quantidade de vítimas de cada sexo — , e “não há provas de agentes infecciosos”, revelam as últimas análises de ADN do estudo.
De acordo com o estudo, apenas três homens estão entre os corpos ali depositados por volta de 800 a.C. (meados do século IX a.C.), numa colina artificial formada por 6.000 anos de aldeias reconstruídas sucessivamente no mesmo local, umas em cimas das outras, junto ao rio Sava, na zona norte de um território que hoje é a Sérvia.
Nessa altura, nos primórdios da Idade do Ferro, a região era um ponto de tensão cultural: povos locais sedentários que produziam cerâmica Kalakača — um tipo de cerâmica associada ao local arqueológico de Kalakača, na margem direita do Danúbio, perto de Beška, também no norte da Sérvia, datada da mesma altura — ‘chocavam’ com povos pastoris Mezcsat, nómadas, vindos a cavalo das planícies euroasiáticas.
Não há outro sítio arqueológico com este padrão, em que os corpos são predominantemente femininos. Os autores da análise acreditam que não é coincidência. “A violência letal excessiva perpetrada principalmente contra mulheres e crianças sugere um viés demográfico seletivo”. Dos corpos cujo sexo pôde ser determinado através de análise, mais de dois terços são de mulheres e raparigas. “Dos 72 indivíduos, sexualmente e biologicamente identificados, 51 (70,8%) eram femininos, predominantemente adultos (87%)”, lê-se no relatório.
“Quando se matam raparigas e mulheres, põe-se fim a uma linhagem, eliminando a possibilidade de futuro para um grupo de indivíduos ou vários grupos”, explica Miren Iraeta Orbegozo, especialista em genética da Universidade de Copenhaga, ao El País.
“Força desmedida”
Os ossos, sem sinal de cicatrização, indicam que as vítimas morreram na sequência dos ferimentos. “Lesões perimortem [no momento da morte] afetaram 18,2% dos indivíduos”, concentradas na “parte superior e posterior do crânio”, indicando que as vítimas estavam “numa posição desvantajosa, no chão ou em fuga”. Os agressores “possivelmente mais altos que as vítimas ou a cavalo”, recorreram a “força desmedida, com o objetivo de ferir gravemente ou matar”, frisa o estudo.
Entre as diversas análises feitas no estudo, os investigadores encontraram “elevados níveis de bioerosão”, que indicam “enterro logo após a morte, sugerindo que os homicídios ocorreram perto de Gomolava”.
A vala comum de Gomolava não é invulgar apenas pela quantidade de mulheres e crianças que lá estão. As análises de ADN de 25 esqueletos revelam que não têm praticamente qualquer grau de parentesco, à exceção de uma mãe e das suas duas filhas, revela o relatório da investigação.
“Trata-se de uma amostra de uma grande população regional, ou seja, não é uma família extensa de uma pequena localidade típica da região naquele tempo”, diz o estudo. Esse dado contraria a tendência de locais como este, onde, normalmente, uma percentagem considerável das vítimas tem algum grau de parentesco, como é o caso da vala comum de Koszyce, mencionada no relatório.
Antonio Rodríguez, investigador do Instituto de Arqueologia de Mérida que não participou no trabalho, ficou impressionado com a particularidade que caracteriza a vala sérvia. “A ausência de laços familiares. Não são mulheres com os seus filhos. São meninos e meninas que chegam sozinhos. Isso é muito incomum”, afirma.
Camada por camada
Tendo em conta a violência com que terão sido mortos, seria expectável que os 77 corpos tivessem sido simplesmente atirados para dentro da vala. Mas não foi isso que aconteceu. Sob uma camada de restos mortais de gado — foram identificados vestígios de até 100 animais —, as crianças e as mulheres foram cuidadosamente colocadas, camada por camada, acompanhadas de alguns dos seus pertences.
“Não é claro se foram sepultadas pelos próprios responsáveis pelos assassinatos, como demonstração de poder ao colocar os corpos num grande e conhecido monte funerário, ou se foram enterradas e homenageadas por pessoas que as conheciam e talvez se importassem com elas. Os dados não nos permitem ir muito além disto”, revela Barry Molloy, arqueólogo da Universidade de Dublin, na Irlanda, e coautor do estudo, ao El País.
Uma possibilidade sugerida no relatório é que a forma como os corpos estão dispostos não foi aleatória e tinha uma intenção: as pessoas enterradas em Gomolava tinham um significado especial para quem os enterrou. No entanto, pode também indicar uma demonstração de poder dos autores dos homicídios.
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