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(A) :: "Quer aparecer na televisão primeiro?" Ana Abrunhosa descompõe ministro, que responde: "Perdoo como bom cristão"

"Quer aparecer na televisão primeiro?" Ana Abrunhosa descompõe ministro, que responde: "Perdoo como bom cristão"

Autarca protagonizou momento de tensão com ministro da Agricultura, acusando-o de desrespeitar Coimbra. "Posso ter cometido o erro de chegar a horas", ao contrário de Abrunhosa, ironiza governante.

Mariana Lima Cunha
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“Em Coimbra não volta a fazer isto!”. A frase foi gritada pela presidente da Câmara de Coimbra, Ana Abrunhosa, dirigindo-se ao ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, mas o embate não ficou por ali. Num momento que é raro acontecer em direto e com jornalistas à volta, os dois desentenderam-se e a autarca acabou por pregar uma dura descompostura ao governante, acusando este de falta de “urbanidade” e perguntando-lhe se “queria aparecer na televisão primeiro”. Em declarações ao Observador, o ministro nota que não teve a “mínima culpa” na situação, durante a qual manteve a calma e garante que, como “bom cristão”, perdoa a irritação a Abrunhosa.

O problema começou quando o ministro chegou esta terça-feira a Coimbra para uma visita e começou a responder a perguntas dos jornalistas que o interpelavam, enquanto vários autarcas, incluindo Ana Abrunhosa, esperavam para falar com ele. A autarca de Coimbra não hesitou mesmo em interromper o início das declarações, notando que o ministro ainda não tinha “ouvido os autarcas” e disparando: “Se veio para cá fazer conferências de imprensa acho que tem de nos ouvir”.

Ouça aqui as declarações do ministro da Agricultura ao Observador

https://observador.pt/programas/resposta-pronta/ministro-so-dou-razao-a-autarca-ana-abrunhosa-numa-parte/

Depois, em reação ao Observador, o ministro explicou que tinha a visita ao dique do Mondego que está a ser reparado, ao lado de associações cooperativas, regantes e agricultores, marcada para as 14h30 e que chegou a horas — ao contrário da autarca, nota. Terá sido por isso que começou a falar mais cedo com os jornalistas, enquanto Abrunhosa ainda não tinha chegado. “Não ia deixar os agricultores à espera”, até porque a visita tinha por objetivo acompanhá-los e a estes trabalhos no terreno.

Seguiram-se três minutos de grande tensão, captados aqui pelo Notícias de Coimbra, com o ministro sempre a justificar que não queria “fazer uma conferência” e a autarca a acusá-lo de desrespeitar o território. “Há um dever institucional, tem de falar com os autarcas. Se veio fazer uma conferência de imprensa vamo-nos embora”, atira Ana Abrunhosa a certa altura.

Mas os dois continuam a andar, por entre um cenário de construção e máquinas a trabalhar (e com todos os jornalistas de microfone esticado), e a discussão prossegue. “Sou a autarca eleita pela gente de Coimbra!”, responde quando o governante se engana e a trata por “senhora ministra”. “Veio ouvir-nos ou veio fazer uma conferência de imprensa?”, prossegue Abrunhosa, enquanto o ministro assegura “perceber” o seu argumento.

Mas a autarca carrega nas tintas. “Até hoje não veio ao terreno”. “Vim mais do que uma vez…”. “Não falou com o autarca”. “Falei com vários”. “Não falou com Coimbra”. “Mas percebo a senhora presidente, estava a responder educadamente às vossas perguntas mas ela tem razão”, diz o governante aos jornalistas, enquanto Abrunhosa frisa que enquanto ministra nunca esteve num território em calamidade sem ouvir o autarca. “A calamidade já acabou”, nota o governante. “Olhe, olhe à sua volta”, lamenta Abrunhosa.

Os minutos seguintes são ainda de prolongamento da discussão. “Em Coimbra não volta a fazer isto”, atira Abrunhosa. “O território é de todos”, justifica o ministro. “Eu já fui ministra e era incapaz de fazer o que fez”, atira-lhe de volta a autarca. O ministro vai explicando que os jornalistas merecem respeito, enquanto a antiga ministra frisa que não seria por esperar um pouco e falar com os autarcas que a imprensa se iria embora — esperar seria “uma questão de urbanidade”.

E explica como é que, na sua perspetiva, José Manuel Fernandes deveria ter procedido: “Devia ter esperado por mim, que eu represento Coimbra e não vou deixar um ministro desrespeitar Coimbra”, dispara. O ministro ainda pede desculpa, mas a autarca pergunta se “quer aparecer na televisão primeiro”. Noutro vídeo mais prolongado, já aparecem em clima mais pacífico, a trocar mesmo um abraço, e a recordar que se conhecem há muitos anos.

Ao Observador, o ministro garante que da sua parte “não houve tensão nenhuma”: “Pelo contrário, calma total. Eu fui falar com associações cooperativas, de regantes e agricultores, e aquele dique que ali está a ser colocado e que está a ser reparado serve 2.400 agricultores e um perímetro de cerca de 12 mil hectares, é extremamente importante”, explica. Como a autarca “não informou se chegava atrasada e a que horas chegava”, foi arrancando a visita — “mas não deixámos de avisar autarcas de que estaríamos ali, que estaríamos ali às 14h30. O normal é o ministro chegar a horas e foi isso que eu fiz”.

“O objetivo ali era falar com os agricultores que estão preocupados, temos como objetivo em maio eles já poderem ter água para a campanha, para terem água para o milho e para o arroz. Posso ter cometido o erro de ter chegado a tempo, mas isso é um bom erro“, ironiza José Manuel Fernandes. “E aí é quando chega a senhora presidente de Câmara com indignação a dizer se eu estava ali para fazer uma conferência de imprensa ou para falar com os autarcas. Não, eu fui ali para falar com os agricultores, avisando sempre os autarcas, porque sou municipalista, e naquele caso não foi a câmara que me convidou”.

“A presidente acabou depois a dizer que percebe muito bem que isto são momentos de tensão, de emotividade. Portanto eu, como bom cristão, também desculpo isso tudo”, remata o ministro, garantindo que não lhe “passa pela cabeça” acusar Abrunhosa de fazer aproveitamento político com o momento em que as câmaras estavam ligadas. ”

Costumo pôr-me sempre no sítio do outro, face a todos os momentos vividos ali e a alguma tensão e emoção. Agora, claro que aquele é o momento que se destaca, quando eu quero a necessidade de termos água para o arroz e o Mondego”, lamenta, aproveitando para destacar a “rapidez” das obras a correr no terreno, mas também os prejuízos que ainda estão debaixo de água e portanto não é possível ainda inventariar.

Quanto ao facto de no vídeo aparecer a dar razão à autarca, o governante enquadra ao Observador: “A única parte em que eu digo que pode ter razão foi em ter respondido aos jornalistas sem me assegurar que todos os autarcas convidados estivessem presentes. Eu nem considero que seja um erro, mas a situação poderia ter sido diferente se eu não tivesse falado aos jornalistas.  Mas a verdade é que também os jornalistas que ali estavam, já nos estavam a acompanhar e a ouvir as nossas conversas com os agricultores e havia outros que já tinham falado aos jornalistas antes. Portanto isso foi uma coisa normal. Mas no final também tudo ficou sanado”. Até porque “o normal é chegar a horas”, insiste: “E eu não vou deixar de chegar a horas. E também não gosto de pôr ninguém à espera”.

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