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Entidade Externa de Arbitragem, Universidade, menos custos de contexto, novos mercados : o que defende o Plano Estratégico da FPF até 2036

Pedro Proença apresentou Plano Estratégico da FPF a 12 anos até 2036, com um total de 366 medidas distribuídas por dez eixos estratégicos que visam vários planos à luz das forças de mudança do futuro.

Bruno Roseiro
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Um ano depois, uma mensagem a assinalar a dar. “Foi um ano de trabalho intenso, com grandes vitórias e muitos desafios mas também com momentos que nos fizeram crescer, como as partidas de Diogo Jota, André Silva e Jorge Costa, que jamais esqueceremos. Para a história ficarão os cinco títulos internacionais em sete finais alcançadas, sucessos das seleções nacionais no futebol, futsal, futebol de praia, masculino e feminino. Os triunfos não chegaram por acaso. São reflexo de um processo de trabalho pensado e sustentado, que aproveita da melhor forma o trabalho dos clubes, Associações Distritais e Regionais, Associações de Classe e Futebol Profissional, que, em conjunto com a Direção Técnica Nacional, resulta numa nova Cultura de Vitória. Hoje, onde quer que Portugal jogue, joga para vencer, para ser o número um, para levantar troféus”, apontou Pedro Proença, num texto que assinalou esta terça-feira um ano de mandato.

“O ano que agora se conclui não foi, contudo, apenas de sucesso dentro de campo. A FPF tem hoje um novo ecossistema empresarial, com um novo modelo de governação e de maior proximidade aos sócios ordinários. A realização do Portugal Football Summit, maior cimeira sobre futebol do mundo, reforçou o estatuto internacional do País, o Congresso do Futebol Português apontou novos caminhos para o futuro, pensados, verdadeiramente, de forma conjunta e agregadora. Foi um ano histórico! Olhamos agora para o futuro. Os desafios estão identificados, seja o novo modelo de financiamento do Futebol, uma indústria mais competitiva e sustentável ou a criação da Universidade do Futebol. E a manutenção de uma cultura de vitória. Sem arrogância, mas com enorme sentido de responsabilidade e ambição. Habituem-se, porque vamos continuar a ganhar!”, acrescentou, nesse momento de reflexão sobre o início do mandato.

No entanto, havia algo mais e maior para assinalar a data, com a Direção liderada por Pedro Proença a fazer uma apresentação pública daquele que é o Plano Estratégico a 12 anos para o futebol nacional, com centenas de medidas em diversas áreas abrangentes e objetivos concretos a atingir a breve e a médio/longo prazo tendo intervenções estratégicas a nível desportivo, empresarial e justiça capaz de abrir uma nova era que traga também uma nova cultura de vitória assente em mudanças em diferentes focos de atuação. Ou seja, fazendo uma análise ao atual contexto do futebol nacional e detetando aquilo que é também o contexto no plano externo, o trabalho teve como propósito refletir sobre a melhor estratégia para a próxima década ouvindo todos os intervenientes no fenómeno para gizar um plano de implementação e monitorização.

Alguns dos passos foram tomados no primeiro ano de mandato. Por um lado, toda a parte empresarial foi alvo de uma reorganização com a constituição da FPF Comercial para gerir a área comercial, de marketing e novos negócios, da FPF Academy com o propósito de dar continuidade ao projeto Portugal Football School e a Fundação FPF, vocacionada para um movimento que entronca na responsabilidade do órgão, a par da reformulação da FPF Eventos e das já existentes FPF Infraestruturas e Canal 11. A par disso, a Federação quis também reativar as seis Comissões Permanentes e as 13 Comissões Não Permanentes que estão previstas nos Estatutos para ajudar na consulta à gestão estratégica e operacional do futebol português e a criação de novos órgãos consultivos: Comité de Ética, Conselho Superior, Conselho Estratégico e Conselho de Presidentes.

O documento elaborado em parceria com a consultora internacional EY faz também entroncar no estudo das “forças de mudanças” grande parte daquilo que é lançado para o futuro a médio e longo prazo. Logo à cabeça, a forma como hoje é consumido o futebol e o desporto em geral. Alguns dados: 34% dos adeptos de desporto entre os 18 e os 24 anos preferem acompanhar através dos melhores momentos (highlights) do que propriamente ver os jogos, que representam 30%; 41% dos adeptos acompanham as provas desportivas através de plataformas OTT; 47% dos adeptos mais novos vão seguindo o que se passa em dois ecrãs em simultâneo; 25% dos fãs de Fórmula 1 passaram a seguir a modalidade depois de verem a série “Drive to Survive” da Netflix; e 51% dos adeptos mais jovens estão a acompanhar as estatísticas durante os encontros. O desporto mudou muito mas a forma como se “consome” desporto tem vindo a mudar cada vez mais.

Existem outros pontos importantes a ter em conta: as oportunidades que se podem abrir com a centralização dos direitos audiovisuais, algo que nesta altura só não acontece em três ligas europeias (Portugal, Grécia e Chipre) que coincidem com três das ligas que têm menor equidade de distribuição de receitas – o que a outro nível tem depois influência naquilo que é uma espécie de “classe média” do futebol português que poderia ter um peso maior e mais profícuo em provas como a Liga Conferência; a expansão do futebol feminino, com o último Campeonato do Mundo de 2023 a ser acompanhado por dois mil milhões de pessoas e a ter três vezes mais receitas a nível de patrocínios; valorização da integridade e da economia circular associada; a fase final do Mundial de 2030 em co-organização com Espanha e Marrocos, a nível de infraestruturas mas também de novas plataformas de inovação que possam reforçar a ligação aos adeptos.

Assim, com a visão de ser “a nação do futebol” e com a missão de “inspirar Portugal e o Mundo” adotando o futebol como “motor de desenvolvimento social numa estratégia guiada pela excelência desportiva” assente em valores como a transparência, o respeito, a inclusão, a abertura ou a inovação, o plano aponta para dez grandes eixos estratégicos nas mais variadas áreas com um total de 366 medidas a adotar, tendo 25% das 258 previstas para o quadriénio 2024-28 já assumidas (mais 78 entre 2028 e 2032 e 30 entre 2032 e 2036). Alguns destaques: ambição desportiva com conquista de mais uma grande prova internacional no futebol masculino sénior, reforço do posicionamento no mundo da marca FPF, afirmação do futebol feminino, mudanças no setor da arbitragem, maior celeridade na justiça e até uma Universidade do Futebol.

Nova era de governação (72 medidas)

Num prolongamento daquele que tinha o mote da campanha à presidência da FPF, “Unir o futebol”, existem três objetivos definidos no Plano: reforçar a representatividade e união de todos os agentes, profissionalizar cada vez mais todos os intervenientes a nível de estruturas e dirigentes e promover uma cultura de ética, transparência e integridade. Na parte da relação com as ADR, Associações de Classe e Liga, o foco passa não só por dar uma maior qualificação aos quadros através de programas de formação mas também fazer uma reavaliação dos apoios financeiros e descentralização de algumas das competências.

Revolução na arbitragem (50 medidas)

Este é um dos pontos chave em todo o processo – e aquele que maiores reformulações terá, tendo em conta aquilo que é um problema há muito detetado relacionado com a escassez de árbitros para o número de competições internas existentes. Criar um Plano Nacional de Arbitragem, implementar um programa estruturado de formação na arbitragem, reformular os quadros do setor com progressão na carreira e colocar mais inovação tecnológica à disposição dos árbitros são medidas que visam depois três objetivos: criar até 2028 uma Entidade Externa Profissional da Arbitragem, assegurar que cada Associação tem pelo menos um elemento profissional no Conselho de Arbitragem e triplicar o número de árbitros de 4.442 para 13.000 em 2036, com outras métricas intercalares como os 6.000 árbitros em 2028 e os 10.000 árbitros em 2032.

Federação pretende criar até 2028 uma Entidade Externa Profissional da Arbitragem, assegurar que cada Associação tem pelo menos um elemento profissional no Conselho de Arbitragem e triplicar o atual número de árbitros, de 4.442 para 13.000 em 2036

Reforma da Disciplina e Justiça (17 medidas)

Este eixo tem dois propósitos concretos: profissionalizar e reforçar a independência e celeridade da justiça desportiva naquilo que entronca no âmbito federativo e sensibilizar o poder político para a necessidade de haver uma reforma estrutural de todo o sistema de justiça desportiva nacional. Há metas concretas para atingir, como a redução do tempo médio das decisões das secções profissionais e não profissionais para menos 15% até 2028, menos 30% até 2032 e menos 50% até 2036, mas aqui o ponto basilar passa pela proposta de alteração do modelo atual de justiça desportiva, que nesta altura possibilidade, por exemplo, que uma decisão que seja tomada pelo Tribunal Arbitral do Desporto não seja alvo de mais recursos de seguida, como acontece nesta fase com a figura do Tribunal Central Administrativo Sul (com vários casos conhecidos).

Sustentabilidade e competitividade no futebol (46 medidas)

Há três grandes linhas de ação nesta parte do plano. Por um lado, a necessidade de criar cada vez maior sustentabilidade financeira em todo o ecossistema, seja a nível de clubes, seja a nível de classes, não apenas num plano de “tesouraria” (com apoio também na identificação e nas candidaturas a fundos comunitários) mas também no reforço das condições da prática nas infraestruturas. Por outro, a necessidade de reduzir tudo aquilo que são os custos de contexto no âmbito fiscal e de seguros, colocando o futebol no mesmo patamar de outras indústrias como não acontece nesta fase (os últimos registos conhecidos mostram uma indústria do futebol capaz de gerar mais de 662 milhões de euros para aquilo que é o PIB nacional mas a ter depois de pagar 268 milhões de euros em impostos). Por fim, estudo, apresentação e implementação de um novo modelo de quadros competitivos que possa entroncar nos desejos de todos os intervenientes, sendo já conhecidas algumas ideias para a Taça de Portugal e para a Liga Revelação, a “última etapa de formação”.

Projeção da marca FPF (41 medidas)

Outros das ideias passa por dar outro fôlego à marca FPF, reforçando aquilo que é o posicionamento interno como “casa-mãe” do futebol português mas apostando numa maior internacionalização da FPF e do próprio futebol português em determinados mercados considerados estratégicos no estrangeiro. Em termos de metas, existem três parâmetros definidos: manter o estatuto de seleção nacional mais seguida do mundo nas redes sociais; aumentar o número de adeptos registados no programa Portugal + até aos quatro milhões em 2036 partindo dos atuais 531 mil, passando para 1,5 milhões em 2028 e 2,25 milhões em 2032; e chegar aos 70 milhões de euros de receitas em patrocínios, licenciamento e merchandising em 12 anos, subindo de 40,2 para 50 milhões até 2028 e para 60 milhões até 2032. Com isso, a ideia passa por colocar a FPF como a quinta marca mais valiosa em termos mundiais no desporto, olhando para mercados bem identificados e em consonância com os próximos Mundiais como EUA, Arábia Saudita e países lusófonos.

Plataforma de conhecimento e inovação (25 medidas)

Outra das áreas nomeadas pelo estudo aponta para a colocação da FPF como uma referência num plano de educação desportiva a nível transversal e na liderança do conhecimento, inovação e desenvolvimento tecnológico, não apenas através da FPF Academy mas também de estudos e eventos que sejam referência. Assim, e entre as ideias balizadas, a Federação pretende realizar o primeiro Censos do futebol português até ao final do mandato que termina em 2028 e também fundar a primeira Universidade do Futebol do País até 2036, criando depois a primeira licenciatura em futebol do mundo para servir de exemplo para fora.

Mundial-2030 (19 medidas)

O impacto da co-organização do Campeonato do Mundo de 2030 com Espanha e Marrocos, depois daquelas que foram as experiências positivas vividas com o Europeu de 2004, o Europeu Sub-21 de 2006 ou as finais da Liga dos Campeões masculina (2020 e 2021) e feminina (2025), está também enquadrado neste Plano Estratégico, que pretende fazer desse ponto uma rampa de lançamento para colocar Portugal como uma referência internacional no mundo e desenvolver infraestruturas, plataformas de inovação e evolução dos quadros. A par disso, em objetivos concretos, a FPF assume o desejo de certificar o Campeonato do Mundo de 2030 como um evento sustentável ao mesmo tempo que garanta a total viabilidade económica.

Da base às seleções de excelência (60 medidas)

O alargamento geral de todas as bases de praticantes, não só no futebol mas também no futsal, no futebol de praia e na recente vertente do walking football, é outros dos pontos chave do Plano Estratégico para os 12 anos que se seguem, seja através de uma maior capacidade de identificar e desenvolver talento, seja com uma formação cada vez mais sólida a nível de treinadores, seja com estratégicas nacionais redefinidas em cada uma das modalidades. Todas essas ideias mais teóricas consubstanciam-se depois em três grandes metas “palpáveis”: chegar pela primeira vez ao primeiro lugar do ranking FIFA até 2036, voltar a ganhar uma grande competição internacional no futebol sénior masculino depois do Campeonato da Europa de 2016 (as Ligas das Nações não entram nesta métrica) e atingir os 400 mil atletas federados também 2036, com a subida de 250 para 290 mil até 2028 e novo aumento para 350 mil até 2032.

Existem três grandes objetivos para a Seleção A e para o futebol nacional: chegar pela primeira vez ao primeiro lugar do ranking FIFA até 2036, voltar a ganhar uma grande competição internacional no futebol sénior masculino depois do Campeonato da Europa de 2016 e atingir os 400 mil atletas federados também 2036, com subida de 250 para 290 mil até 2028 e novo aumento para 350 mil até 2032.

Afirmação do futebol no feminino (18 medidas)

O futebol feminino, até por forma a acompanhar aquela que tem sido a tendência em termos internacionais, é outro dos grandes focos do Plano, visando não apenas o número de praticantes, equipas e clubes e toda a profissionalização do setor mas também a integração de cada vez mais mulheres naquilo que é o ecossistema do futebol nacional. Existem dois grandes objetivos para isso: profissionalizar todas as equipas da Liga feminina até 2032 e profissionalizar também a própria competição até 2036 (com a ideia de passar a ser gerida por uma estrutura profissional) e quase triplicar aquele que é o atual número de praticantes federadas passando das atuais 21 mil para 27 mil até 2028, 40 mil até 2032 e 60 mil até ao ano de 2036.

Uma Federação ao serviço da comunidade (18 medidas)

Por fim, o décimo e último objetivo estratégico do Plano passa por uma vertente que visa sobretudo colocar o futebol cada vez mais como um motor de inclusão, impacto social e ambiental, não só através do trabalho que será desenvolvido pela recém criada Fundação FPF mas também pela promoção da sustentabilidade ambiental de todo o ecossistema do futebol. O objetivo passa por ter todas as ADR e Associações de Classe com uma estratégia de responsabilidade social e ambiental até 2028 e realizar pelo menos um projeto de responsabilidade social e ambiental transformacional para as ADR e Assciaçõe de classe em cada ciclo.

[Apesar de um mandado de captura europeu, Gregorian Bivolaru está clandestino em Paris. Lá, o guru continua a receber discípulas para “iniciações secretas”. Ouça o quinto e penúltimo episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro e aqui o quarto]