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Carneiro prepara congresso mais pequeno. E conta com um novo grupo crítico

Liderança do PS vai novamente a votos e Carneiro deverá ser único candidato. Mudança de regras de eleição de delegados ao congresso de março levantou críticas internas de pequeno grupo de "moderados".

Rita Tavares
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No fim de março há congresso do PS, em Viseu, e desta vez será mais pequeno, com a redução para metade do número de delegados eleitos por militantes com quotas em dia. A decisão tomada pela direção vai fazer encolher o congresso, com o número de participantes e votantes a diminuir, sendo um dos motivos de reparo por parte de um pequeno grupo de socialistas que esta semana contestou José Luís Carneiro. Uma nova frente crítica que, ainda assim, não equaciona avançar com uma candidatura alternativa à atual liderança.

O prazo para a apresentação de candidaturas a secretário geral do PS termina esta quinta-feira e o limite para a regularização de quotas — para os militantes estarem aptos a votar — no dia seguinte. Na corrida está, até agora, José Luís Carneiro, que foi eleito em junho passado tendo de voltar a ir agora a votos por questões estatutárias. E ao que tudo indica será, tal como nas diretas após a demissão de Pedro Nuno Santos, o único a candidatar-se à liderança — desta vez o socialista habitué no desafio aos líderes em funções, Daniel Adrião, não entra, foi expulso do PS nas últimas autárquicas, em que concorreu numa lista opositora à do partido.

A ausência de candidaturas alternativas não é sinónimo de uma paz interna total. O partido ainda tenta levantar-se do desaire eleitoral que o atirou para o terceiro lugar no Parlamento e tem muito debate interno por fazer. No pós-legislativas, Carneiro empurrou essa reflexão para lá das autárquicas e das presidenciais, mas a redução da composição do congresso levanta dúvidas internas sobre qualquer intenção de ter um momento mais reflexivo e participado.

Esta semana surgiu uma declaração pública assinada por oito socialistas, encabeçada pelo antigo deputado (por Braga) Ricardo Gonçalves, com críticas a “decisões centralistas de natureza burocrática, que estão a esvaziar o debate interno”. Ao Observador, o socialista queixa-se da mudança decidida para este congresso no rácio de delegados por número de militantes. Nos congressos anteriores, elegia-se um delegado por cada 50 militantes com quotas regularizadas; atualmente, esse rácio passou para um delegado por cada 100 militantes. “Nunca houve um congresso tão pequeno no PS”, diz Ricardo Gonçalves que afirma que numa altura em que o partido “devia estar a abrir-se à sociedade, está a fechar-se aos militantes”.

No Largo do Rato, a decisão é justificada oficialmente com a dimensão do pavilhão multiusos de Viseu, mas na reunião da Comissão Nacional do partido que definiu a data e local do congresso foi também evocada a necessidade de conter custos, segundo apurou o Observador junto de vários socialistas.

Para o grupo de críticos que assina a nota intitulada “Relançar o PS”, a única boa notícia dos últimos tempos para o partido é mesmo a eleição presidencial de António José Seguro. Quanto à liderança de Carneiro, até aí esteve mal, como indiciam quando se regozijam da eleição de Seguro e fazem questão de escrever que “desde a primeira hora” nunca “tiveram dúvidas que ele seria o candidato que reunia as mais amplas condições para o exercício do cargo”. Já a hesitação socialista na gestão deste capítulo é conhecida.

Do tal conjunto encabeçado por Ricardo Gonçalves fazem sobretudo parte antigos apoiantes de Seguro, mas o socialista garante que não há uma intenção de apanhar a onda da eleição presidencial. Ainda assim, confirma que o grupo “já vem do tempo de Seguro” e que, desde então, foram sempre fazendo jantares num “clube político da ala moderada” — um dos jantares mais famosos foi um promovido por Francisco Assis, em 2015, para criticar a “geringonça”. Assis não faz agora parte dos signatários deste comunicado crítico de Carneiro onde constam dirigentes, antigos dirigentes e autarcas do partido, como Elísio Estanque, Victor Batista ou o antigo eurodeputado Manuel dos Santos.

A decisão de escreverem um comunicado surgiu depois de mais um jantar, na semana passada, no restaurante Vidal em Aguada de Cima (distrito de Aveiro). Na nota que divulgaram depois do encontro, estes socialistas queixam-se dos “prazos apertados que o atual líder do PS definiu, para a preparação do próximo Congresso do partido” e defendem “que exista tempo para promover encontros de âmbito concelhio e distrital para definir os delegados e/ou moções a apresentar ao congresso”.

A contrariar a ideia de uma preparação acelerada, no Largo do Rato recorda-se que este congresso já devia ter-se realizado no final do ano passado — dois anos depois do último, em dezembro de 2023 — e que acabou por ser adiado para depois de encerrado o ciclo eleitoral que estava em curso. A marcação da Comissão Nacional do partido para calendarizar este processo apareceu mesmo a meio das presidenciais (na noite eleitoral da primeira volta), provocando até alguma estupefação em alguns socialistas pelo timing, como contava em janeiro o Observador.

https://observador.pt/especiais/seguro-trouxe-balao-de-oxigenio-ao-ps-mas-socialistas-travam-euforia/

O posicionamento deste pequeno grupo de socialistas está a ser visto, dentro do partido, como uma tentativa de aumentarem a relevância no PS à boleia da vitória eleitoral de Seguro — cuja liderança apoiaram e alguns até aconselharam. Certo é que não há propriamente uma declaração de rutura com Carneiro cuja linha política mais moderada têm apoiado. Aliás, alguns destes socialistas apoiaram mesmo a candidatura de José Luís Carneiro contra Pedro Nuno Santos, nas diretas de 2023, depois da demissão de António Costa.

No texto que agora divulgaram apontam a “necessidade de fortalecer e atualizar o legado doutrinário da social-democracia” e defendem que, quando “a linguagem radical e o discurso salvífico estão em crescimento na Europa e no mundo, o PS deve preparar-se para conter esse radicalismo através de uma linguagem clara e de um programa coerente e transparente, capaz de esvaziar a retórica estridente e populista da extrema-direita, com base nas boas práticas e na seriedade política”.

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