Nemesio Oseguera Cervantes pensava que teria mais um encontro romântico. Apesar de ser casado com uma mulher oriunda de uma das famílias mais poderosas do México, El Mencho encontrou-se no passado sábado com uma das suas parceiras, longe de saber que estava a ser vítima de uma emboscada. Os serviços de informações mexicanos rastrearam a localização de um indivíduo próximo daquela que seria a amante do líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG). Esse homem levou-a até uma cabana na zona de Tapalpa para o momento a sós com um dos criminosos mais temidos do México. Obtida a localização do líder do cartel, as forças especiais mexicanas não perderam tempo e desencadearam uma sofisticada operação que terminou com a morte de El Mencho.
Quando se deu conta de que estava a ser vítima de uma emboscada, El Mencho — juntamente com alguns guarda-costas — ainda conseguiu fugir para uma floresta nas redondezas da cabana na cidade de Tapalpa, onde tinha tido o encontro romântico. As forças especiais mexicanas não desistiram da missão, perseguiram o grupo entre a vegetação e acabaram por localizá‑lo novamente. Seguiu-se um tiroteio, durante o qual Nemesio Oseguera Cervantes acabou gravemente ferido. As autoridades mexicanas ainda chamaram um helicóptero para o levar para o hospital, mas foi em vão: o homem de 59 anos acabou por morrer a bordo, resultado dos ferimentos que sofreu.
Era o fim de um dos criminosos mais poderosos no México à frente de um cartel com ramificações em quase todo o país. O Cartel Jalisco Nova Geração mantinha um lucrativo negócio com a venda de droga nos Estados Unidos da América (EUA). Ao longo dos anos, foi crescendo e desenvolveu um poderoso braço paramilitar, que enfrentava tanto as autoridades mexicanas como qualquer organização rival que lhe ousasse fazer frente. Impiedoso e implacável, El Mencho foi a principal peça para a sua expansão.
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A morte deste homem teve inevitavelmente repercussões políticas. Por um lado, a Presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, mostra que sabe agir com eficácia contra os líderes do cartel, enterrando definitivamente a estratégia do antecessor e aliado Andrés López Obrador, que preferia adotar a máxima mais conciliadora de “abraços e não tiros” na relação com estas estruturas criminosas. Por outro, a chefe de Estado satisfaz o homólogo norte-americano, Donald Trump, que vem pedindo uma ação mais agressiva contra os cartéis.
O sucesso na operação militar fez Claudia Sheinbaum obter uma importante vitória política. Interna e externamente, a Presidente transmite a mensagem de firmeza e posiciona-se como uma líder com a qual os Estados Unidos da América (EUA) podem contar, embora esteja politicamente distante de Donald Trump, por ser de esquerda. Porém, a morte de El Mencho gerou uma espiral de violência em vários estados mexicanos, com os seus aliados a quererem vingar a sua morte — o que está a interromper a normalidade do quotidiano de grandes parcelas da população e de vários turistas que visitam o México.
Como surgiu o Cartel Jalisco Nova Geração?
Ao contrário de vários cartéis no México, o que era liderado por El Mencho é relativamente recente, tendo surgido apenas há cerca de 15 anos. Antes disso, a estrutura que lhe deu origem funcionava como braço armado no estado de Jalisco de aliados do influente cartel de Sinaloa — então liderado por Joaquín El Chapo Guzmán — e que continua a ser uma das principais organizações criminosas do país.

Em Jalisco, o poder era exercido sobretudo por Ignacio Nacho Coronel, um dos barões da droga que em tempos foi um dos mais influentes do México e aliado de El Chapo. Neste estado mexicano, El Nacho também patrocinava e protegia o cartel do Milenio, o primeiro grupo criminoso em que El Mencho trabalhou.
Uma profunda rivalidade marcava a distribuição de poder e de negócios em Jalisco, em meados dos anos 2000: de um lado estava El Nacho e o cartel do Milenio (que eram aliados de Sinaloa); do outro o grupo Los Zetas. A fação ligada aos primeiros passou a apoiar um novo grupo armado que se apresentava como Mata Zetas. É a partir de parte dessa estrutura e também de um vácuo de poder — depois da morte de Nacho Coronel em 2010 e da detenção de vários líderes do Milenio — que surge o CJNG.
O percurso de El Mencho para a liderança do CJNG não é linear, ainda assim. Em 2009, não foi escolhido para liderar o cartel do Milenio. O ressentimento alimenta a fação que viria a dar origem ao Cartel Jalisco Nova Geração e leva-o a declarar guerra ao seu antigo grupo e paulatinamente a afastar‑se também da órbita de Sinaloa. Para concretizar os planos e para fortalecer a oposição a Milenio, chamou alguns criminosos que conheceu durante a passagem pela prisão do Texas, onde esteve detido duas vezes nos anos 80 e 90.

O casamento com Rosalinda González Valencia solidificou ainda mais a liderança de El Mencho. A união deu‑lhe não só legitimidade, como também acesso aos recursos de outro clã criminoso: os Los Cuinis, família com influência e grande poder financeiro. “Na verdade, El Mencho chegou à liderança do cartel através de uma estratégia diplomática via casamento”, corroborou o analista de segurança pública David Saucedo à CNN Internacional.
Como é que o cartel faz dinheiro?
A união com a família González Valencia e a herança da estrutura de outros cartéis foram dois fatores preponderantes para El Mencho transformar em poucos anos o CJNG numa das organizações criminosas mais ricas e poderosas do México, com tentáculos que se estendiam a várias partes do país. Apoiado por um braço paramilitar, o cartel enfrentou as forças de segurança por várias vezes e tentou assassinar em 2020 Omar García Harfuch, diretor da polícia da Cidade do México à altura.
O tráfico de drogas foi sempre a principal fonte de receita do cartel, sobretudo através da venda de heroína, cocaína, metanfetamina e fentanil nos Estados Unidos. O CJNG recorria ainda a esquemas de lavagem de dinheiro, explorando recursos naturais mexicanos e investindo em áreas tão diversas como a agricultura e a pecuária em Jalisco. À BBC, o analista David Mora explicou que o cartel era “extremamente poderoso nos mercados criminosos em que opera: não apenas na produção e tráfico de drogas, mas também em esquemas de extorsão em regiões agrícolas e de mineração do México”.
O grande arquiteto desta expansão do grupo foi El Mencho. Num artigo escrito para o site Crisis Group, David Mora realçou que Nemesio Oseguera Cervantes “exerceu um controlo restrito sobre o grupo à medida que crescia”: “Expandiu o seu domínio por todo o país, geralmente absorvendo ou oferecendo franquias a organizações mais pequenas”.
Na mesma medida, El Mencho sabia centralizar a operação do cartel em redor da sua figura e dos seus aliados. “Não havia fraturas visíveis desde a sua criação”, analisa David Mora. No México, o Cartel Jalisco Nova Geração liderava a “produção e tráfico de fentanil, um opióide sintético altamente viciante e letal” que depois era traficado para os Estados Unidos.
A agência antidroga norte-americana relata que o CJNG “expandiu as suas operações para além das fronteiras do México” e mantinha presença “em mais de 40 países”. “O cartel usa os seus vastos recursos financeiros, o comando de estrutura baseada em franquias, a propensão para a violência e o acesso a dirigentes corruptos para manter e expandir a influência sobre o comércio de drogas ilícitas no México.”

Qual é o arsenal do Cartel Jalisco Nova Geração e que métodos usa?
Os negócios e a sua gestão contribuíram para a união e coesão dentro do Cartel Jalisco Nova Geração. Para além disso, a organização criminosa precisava de um forte braço militar para prosperar — e não tinha qualquer problema em expô-lo nas redes sociais em vídeos e imagens. O objetivo era simples: intimidar os rivais e as autoridades estatais.
Mercenários mexicanos e estrangeiros contribuem para as fileiras do grupo paramilitar. No arsenal, enumera David Mora, o grupo conta com “espingardas de alta precisão, rockets, drones e uma grande variedade de engenhos explosivos improvisados”. Ao mesmo tempo, o cartel contribui para o tráfico de armas no México e no exterior do país.
O cartel usava a violência para impor as suas vontades. Em declarações à Al Jazeera, Chris Dalby, analista na empresa Dyami Security, refere que o CJNG “normalizou os piores horrores das guerras contra o narcotráfico”. “Corpos pendurados em postes de iluminação, cabeças decapitadas à beira da estrada”, ilustra o especialista, acrescentando que foi assim que El Mencho “treinou o cartel”. “Era para dizimar a oposição e emitir avisos: ‘Se nos rivalizam, é isto que vos acontece'”.
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De que estava acusado El Mencho?
As autoridades mexicanas tinham o Cartel Jalisco Nova Geração na mira. Ainda que os responsáveis do CJNG corrompessem dirigentes que trabalhavam para as instituições estatais, os serviços de segurança mexicanos monitorizavam a atuação do cartel, assim como os Estados Unidos. No México, havia investigações abertas por tentativas de homicídios, ataques contra forças de segurança e tráfico de droga.
Por permitir a entrada de substâncias ilícitas dentro dos Estados Unidos da América, as autoridades norte-americanas também o estavam a investigar e tinham estabelecido uma recompensa de 15 milhões de dólares (cerca de 13 milhões de euros) para quem concedesse informações que levasse à detenção de El Mencho.
“Desde 2017, Oseguera Cervantes foi alvo de várias acusações nos Estados Unidos por tráfico de droga. A acusação mais recente, datada de abril de 2022, imputa‑lhe os crimes de participação em organização criminosa continuada, conspiração para fabricar e distribuir metanfetamina, cocaína e fentanil com vista à sua importação para os Estados Unidos, e uso e porte de arma de fogo durante e em conexão com crimes de tráfico de estupefacientes”, lê‑se no site da agência antidroga norte‑americana.

Qual o papel dos Estados Unidos em tudo isto?
O combate à entrada de drogas (em particular fentanil) nos Estados Unidos tem sido uma das prioridades para a administração Trump. O líder norte-americano autorizou que várias embarcações de narcotraficantes fossem destruídas no Mar das Caraíbas (e até no Índico) e acusou o antigo Presidente venezuelano de ser um “narcoditador”, sendo que Nicolás Maduro foi capturado com base nessas acusações. Neste sentido, a Casa Branca sempre pressionou o México para apertar a malha contra os cartéis.
Logo após a detenção de Nicolás Maduro, o Presidente norte-americano enviava um aviso à homóloga mexicana: “Ela é uma boa mulher, mas os cartéis mandam no México. Ela não está a comandar o México — são os cartéis que o estão a fazer”. Neste sentido, Donald Trump admitiu mesmo uma operação militar norte-americana em território mexicano para tentar terminar com estas organizações criminosas e para cessar o fluxo de drogas para os Estados Unidos.
Os norte-americanos exigiram que o México redobrasse a ofensiva contra os cartéis de droga. Pressionada por Donald Trump e receando uma ação militar no país, a Presidente mexicana tentou mostrar obra feita e refrear as ambições do homólogo norte-americano — algo que conseguiu alcançar com a morte de El Mencho. Mesmo assim, o líder dos EUA pede mais. Na Truth Social, depois do líder do CJNG morrer, escreveu que o “México precisa de aumentar os esforços a combater os cartéis e contra a droga”.
Que meios disponibilizaram os EUA para esta operação?
El Mencho era procurado pelas autoridades norte-americanas. Nesta operação militar, os Estados Unidos acabaram por ajudar o México. No X, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt afirmou que os EUA “providenciaram informações confidenciais”, agradecendo aos militares mexicanos “a cooperação e execução bem sucedida desta operação”.
As autoridades do México insistiram que se tratou de uma operação que contou exclusivamente com a participação de militares mexicanos, afastando a ideia de que se tratou de uma ofensiva norte-americana — algo que seria extremamente impopular para a opinião pública do país. “Todas as operações foram realizadas por forças federais. Não houve participação na operação das forças dos Estados Unidos. O que há é intercâmbio de informação“, salientou Claudia Sheinbaum.
Ainda de forma mais detalhada, o secretário da Defesa Nacional, Ricardo Trevilla Trejo, destrinçou os feitos dos serviços secretos dos dois países: “Tudo o que se refere à parceira sentimental, aos seus colaboradores, ao seu círculo mais próximo, isso tudo foram informações confidenciais militares nossas. Houve muitas informações adicionais, muito importantes, que nos deram os Estados Unidos. Mas a primeira parte, da parceira e do seu núcleo duro, foi um produto dos serviços secretos militares [mexicanos]”.

Presidente mexicana está a alterar a política do antecessor?
Antes de Claudia Sheinbaum chegar ao poder, o antecessor, Andrés López Obrador, adotou a estratégia dos “abraços, não tiros”. Dito de outro modo, o antigo chefe de Estado prometia abandonar a postura combativa, lidando com a violência dos cartéis através de reconciliação social, mais programas de apoio para as comunidades e um forte investimento na educação e no emprego para os mais jovens.
Antes de ser eleita, a Presidente mexicana já prometia mudar o curso face ao antecessor. Claudia Sheinbaum defendia uma atuação mais agressiva contra os cartéis, principalmente com o recurso a operações de segurança mais assertivas. Nos primeiros meses no cargo, o número de detenções disparou, assim como o desmantelamento de redes de tráfico de droga.
A pressão do país vizinho obrigou Claudia Sheinbaum a intensificar o combate contra os cartéis — mas também a ajuda a colocar em prática as suas ideias políticas. Ao New York Times, o analista político Carlos Bravo Regidor disse que a Presidente mexicana “está a tirar proveito” da pressão de Donald Trump. “Ela queria mudar a segurança do México e Trump veio num momento muito interessante para a impulsionar nesse sentido.”

Em vez de reconciliação e de uma abordagem mais permissiva, a Presidente mexicana prefere agora enfrentar diretamente os cartéis. “Não sei até aonde ela quer ir. Isto está claramente a colocar a sua administração sob pressão e há uma grande questão sobre quais são as capacidades do Estado mexicano para lidar com as consequências desta operação”, considera Carlos Bravo Regidor.
O que aconteceu nas ruas depois da morte de El Mencho?
Uma rede tão densa como a que El Mencho construiu ao longo de quinze anos dificilmente ficaria de braços cruzados perante a morte do seu líder. Desde domingo, têm‑se registado distúrbios em várias cidades mexicanas, com estradas bloqueadas, veículos incendiados e ataques coordenados em vários estados onde o cartel está presente.
A cidade de Guadalajara, no estado de Jalisco, foi uma das mais afetadas pela violência do CJNG e ficou praticamente paralisada: há relatos de transportes públicos suspensos e milhares de pessoas fechadas em casa com receio de que haja algum ataque. Para além disso, os planos de muitos turistas no México tiveram de ser alterados e vários países emitiram avisos para evitar deslocações a certas regiões do país.
A Presidente mexicana tentou tranquilizar a população, garantindo um clima de “paz” e prometendo que “manterá a ordem”. Mesmo assim, o Governo mexicano ordenou a mobilização de dez mil soldados para as cidades que estão a ser palco de distúrbios. Até agora, 27 membros da Guarda Nacional mexicana morreram em seis ataques distintos em Jalisco.

Perante a violência, muitos questionaram a capacidade de o México albergar o Campeonato do Mundo. O país vai acolher 13 jogos, incluindo na cidade de Guadalajara, em Jalisco. Em resposta a estes receios, Claudia Sheinbaum veio garantir que “não existe nenhum risco” para quem decidir ir assistir aos jogos de futebol, que terão lugar entre 11 de junho e 19 de julho.
O que acontecerá ao cartel agora que El Mencho foi morto?
Muitos especialistas apontam que El Mencho já não desempenharia um papel tão central na gestão do Cartel Jalisco Nova Geração. De qualquer forma, certo é que Nemesio Oseguera Cervantes não tinha definido qualquer herdeiro e nem sequer existe um nome que surja como sucessor natural. Um dos filhos, Rubén Oseguera González (conhecido como El Menchito), seria esse rosto, mas foi detido em 2020.
Por causa da liderança centralizada, El Mencho nunca deu oportunidades a ninguém para desafiar o seu poder. “Não há clareza absoluta — nem por laços de sangue, nem por laços familiares, nem por conexões — que nos permita perceber quem será o próximo”, assinala David Mora. O analista ouvido pela BBC prevê que haja um “processo de reorganização” que normalmente “vem com tensão e violência”.
“A mera decapitação de um líder de cartel não significa a extinção da organização”, remata o especialista.