Pontualidade, uma mesa redonda e muitos sorrisos. Parecem velhos amigos, mas não abdicam da formalidade dos órgãos de soberania que representam. Luís Montenegro e António José Seguro tiveram a primeira reunião no Palácio de Queluz na terça-feira, numa coabitação que os dois esperam que dure, no mínimo, três anos e meio. Partilham a ideia de estabilidade política e querem promover a “convergência” em nome do futuro de Portugal, um dos tema do encontro que durou duas horas e 40 minutos. Os dois protagonistas da política nacional têm um histórico pacífico, mesmo que se tenham enfrentado num período tenso em que havia um outro vértice do triângulo: Pedro Passos Coelho. Afinal, como é a relação Montenegro-Seguro?
Uma fonte destacada do PSD dizia ao Observador dias antes do arranque da campanha oficial — quando Luís Marques Mendes ainda liderava as sondagens — uma frase quase profética: “O melhor para nós ainda era o Seguro ganhar. Não nos vai chatear tanto como o Mendes a querer provar que é independente. Basta ver o que fez o Marcelo com o Costa, deu-lhe a mão”.
Na verdade, o estilo de Seguro não desagrada a Montenegro, que ficava muitas vezes agastado com Marcelo por algumas fugas de informação que atribuía a Belém. De tal forma que privou várias vezes — por desconfiança — o ainda Presidente da República de informações que, em condições normais, lhe poderia ter dado antecipadamente (o nome de ministros, o desafio da moção de censura, a escolha do PGR, entre outros).
Há um certo formalismo em Seguro que é bem-vindo por um também institucionalista Montenegro. Têm até algumas semelhanças: não são, nem nunca se fizeram passar como parte integrante da elite política lisboeta. É verdade que Luís Montenegro decidiu não apoiar o antigo líder do PS na segunda volta, mas apenas não o fez por razões de taticismo. Para as suas futuras memórias fica a graça nas entrelinhas de, dias depois da eleição, ter repetido seis vezes a palavra “seguro”. Além, claro, de vários dos seus vice-presidentes terem anunciado o voto no socialistas.
Na noite eleitoral da segunda volta, ainda os votos não estavam contados e já Montenegro tinha ligado ao vencedor da noite a prometer um “espírito de convergência e sentido construtivo”. Além de falar de “três anos meio sem eleições nacionais”, frase que Seguro repetiu e ainda acrescentou que não seria por ele que a legislatura não chegaria ao fim. Prometeu, sim, exigência. Tal como tinha feito durante a campanha, quando prometeu que não seria um “primeiro-ministro sombra”, mas também avisou que as reuniões de quinta-feira também não seriam para “tomar chá” com Montenegro.
Apesar do alívio com a eleição de Seguro — o socialista tornou-se, a determinada altura, objetivamente o menor dos males — ninguém no Governo se ilude: o novo Presidente da República quererá encontrar o seu espaço e deixar uma marca. Na noite eleitoral, Montenegro fez questão de tentar definir as regras do jogo, lembrando a quem competia fazer o quê. Seguro respondeu-lhe indiretamente com a exigência de não deixar ninguém ficar para trás nas zonas mais afetadas pela intempérie. Foi, aliás, a primeira coisa que disse no seu discurso. Seguro poderá nunca ser o Soares das Presidências Abertas, mas também não será o Marcelo do guarda-chuva em Paris. E isso poderá trazer muito desgaste a médio e longo prazo.
A tensão benigna dos tempos da troika
Luís Montenegro e António José Seguro assumiram praticamente na mesma altura os cargos de secretário-geral do PS e líder parlamentar do PSD. No entanto, apesar da tensão desses tempos, António José Seguro seguia o bê-á-bá da política e elegia como interlocutor o primeiro-ministro de então, Pedro Passos Coelho. Isso fê-lo poupar (e, em grande medida, ignorar) Montenegro para atingir o alvo maior. Ainda assim, dentro da dinâmica parlamentar, tiveram as suas desavenças.
Apesar de nessa altura já partilharem o hemiciclo há nove anos, o primeiro grande confronto entre Seguro e Montenegro dá-se na piscina dos grandes, num debate parlamentar com a presença do primeiro-ministro no Parlamento em que o socialista intervém pela primeira vez como líder do PS e o social-democrata é quem fala como líder da bancada do PSD.
O secretário-geral do PS tinha acabado de ser eleito nessas funções e, entretido que estava em vencer o partido (o que tinha acabado de fazer em diretas com Assis), aquela é a primeira vez que intervém no hemiciclo naquela legislatura. O Governo de Passos já levava então 30 dias em funções, coincidência que serve de mote para o debate parlamentar desse dia (29 de julho de 2011).
Seguro começou a intervenção ao ataque a Passos, lembrando que o governo tinha “todas as razões para ser feliz”, já que PSD e CDS “eram suficientes” para executar o seu mandato. Promete que não será uma “oposição do bota a baixo” e que não fará nenhuma proposta que ele próprio não pudesse cumprir quando fosse primeiro-ministro de Portugal. O socialista promete a Passos com “franqueza e frontalidade” que honrará o memorando da troika, mas diz não encontrar nenhuma estratégia económica.
A certa altura, Seguro diz mesmo que leu o programa de Governo na procura sem sucesso dessa estratégia e, de forma enfática, reforça: “E li-o duas vezes”. É aí que, num aparte parlamentar, Luís Montenegro responde com ironia: “À terceira é de vez“. O então secretário-geral do PS faz uma pausa, mas seguiu ignorando Montenegro.

O líder parlamentar do PSD insiste, no entanto, no tiro a Seguro. Montenegro acusa o secretário-geral do PS de estar a fugir às responsabilidades — atirando a consolidação para PSD e CDS — por taticismo. “Hoje, com a indispensabilidade de tomarmos esta medida para cumprirmos as metas nacionais, PS e o seu novo líder fazem? Rejeitam, pura e simplesmente”, acusa Montenegro. A tónica de Montenegro ao longo dos debates parlamentares seguintes seria esta: lembrar que Seguro já era co-responsável, como deputado, pelo que foi aprovado pelo PS até à chegada da troika e acusar os socialistas.
No encerramento do Congresso que resultou de pressões internas (três meses depois do célebre “Qual é a pressa?”), é o líder parlamentar que chefia a delegação do PSD e não poupa Seguro, que acusa de “grande demagogia” e “algum irrealismo”. Estávamos já no final de abril de 2013, mas, já se sabe, secretário-geral não responde a líder parlamentar. No entanto, Luís Montenegro vai ganhando destaque na maioria.
No ano seguinte, perante mais um braço de ferro com o Tribunal Constitucional, Luís Montenegro dá uma entrevista ao semanário Expresso a dizer que seria “difícil cumprir a legislatura” até ao fim caso o Tribunal Constitucional chumbasse os novos cortes propostos pelo Governo. Montenegro não era só mais um, mas um rosto da maioria de direita. E Seguro viu-se forçado a atacá-lo tão diretamente como se fosse Pedro Passos Coelho, acusando Montenegro: “Essa declaração significa que é mais uma pressão a que a direita já nos habituou, o Governo e a maioria, sobre o Tribunal Constitucional”.
Luís Montenegro voltaria a provocar António José Seguro quando António Costa anunciou, no final de maio de 2024, que avançaria para eleições. Para não ser o primeiro-ministro a comentar internamente a crise interna noutro partido, avançou o sniper preferido e líder parlamentar. Montenegro disse que, basicamente, o PS seria o mesmo independentemente de quem viesse a ganhar as eleições: “Quer António José Seguro, quer António Costa estiveram muito alinhados os dois na estratégia de não estarem disponíveis para esse sentido de compromisso e na estratégia de não serem parte da solução”.
A troca de galhardetes nunca feriu a relação entre ambos, muito menos para as funções que agora vão desempenhar. Montenegro até partilhava da ideia de muita gente no PSD de que António José Seguro era alguém honesto e correto que — tal como PSD e CDS após as legislativas de 2015 — foi vítima de António Costa. Esse, sim, passou a ser adversário número um do passismo (e, mais tarde, do montenegrismo). Além disso, os seus tempos políticos não se cruzaram.

A mesma ambição, mas gerações e percursos diferentes
Um dia, o atual primeiro-ministro e o Presidente eleito chegaram a ter a mesma ambição: ser primeiro-ministro. Mas os caminhos nunca se cruzaram, desde logo porque tiveram percursos políticos muito diferentes. Seguro e Montenegro têm nove anos de diferença, o que faz com que sejam de gerações diferentes na política. E que tivessem tido tempos de afirmação diferentes.
O atual primeiro-ministro tornou-se militante do PSD logo aos 18 anos, em 1991, mas demorou a entrar na política nacional (Seguro já era então líder da JS). Quando se encontrou no café Baviera em 1999 com Joaquim Pinto Moreira e decidem que será o candidato às eleições dois anos depois já Seguro tinha sido muita coisa: secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro durante quatro anos, coordenador autárquico do PS em 1997 e era eurodeputado.
António José Seguro e Luís Montenegro partilham pela primeira vez o hemiciclo quando o social-democrata é eleito pela primeira vez em 2002. Seguro já tinha se tinha estreado na Assembleia da República dezassete anos antes. E, embora jovem, era uma das figuras de proa do PS de Ferro Rodrigues, de quem tinha sido o coordenador dessas legislativas de 2002. Já Montenegro, embora figura semi-conhecida no distrito de Aveiro, era um perfeito anónimo a nível nacional.
Seguro teve uma travessia no deserto durante os anos de governação do PS, mas era uma espécie de anti-Sócrates. Crítico, mas discreto (e disciplinado). Montenegro mantém-se um figura de terceira linha do PSD. Só mesmo no segundo mandato de Sócrates, o jovem de Espinho começa a ganhar destaque no Parlamento, quando Miguel Macedo o puxa para vice-presidente do grupo parlamentar. Seguro já está noutra e passa os anos de 2010, 2011 e 2012 preparar o assalto à liderança do PS, que consegue. A partir daqui, é a história já contada em cima: os tempos da troika.
É Passos o vértice do triângulo que liga, nessa altura crítica, Seguro e Montenegro. É curioso que, no primeiro dia em que se encontram como primeiro-ministro e Presidente, tenha sido num dia em que o primeiro-ministro chegou a ser apontado para participar numa conferência onde estava, no painel anterior, Pedro Passos Coelho. Montenegro preferiu estar com Seguro e ignorou o encontro onde estava o seu ex-chefe. Passos não perdoou e atirou a Montenegro. Foi uma primeira pedra na estabilidade férrea que primeiro-ministro e Presidente, há mais de 300 quilómetros de distância, ensaiavam no Palácio de Queluz. Uma coincidência, no mínimo, esdrúxula.