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(A) :: "Renascemos Carcavelos, era uma onda esquecida. No início tinha de enviar vídeos." O Capítulo Perfeito está pronto para cruzar fronteiras

"Renascemos Carcavelos, era uma onda esquecida. No início tinha de enviar vídeos." O Capítulo Perfeito está pronto para cruzar fronteiras

Ao Observador, o fundador Rui Costa explica como é que o Capítulo Perfeito continua a crescer em Carcavelos no ano em que vai chegar a Moçambique e Indonésia. Evento deve arrancar nos próximos dias.

Mariana Fernandes
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Passaram 14 anos desde que o Capítulo Perfeito escreveu as primeiras páginas do livro. A história começou em Peniche, com Tiago Pires a ganhar e um jovem Vasco Ribeiro a alcançar o melhor score, e seguiu caminho entre Carcavelos e a Nazaré. A praia de Cascais, porém, conquistou nos últimos anos o estatuto de casa da competição de tubos – e é a partir dessa casa que o Capítulo Perfeito pretende chegar ao resto do mundo.

A 12.ª edição do evento de ondas tubulares está atualmente no período de espera, ou seja, desde o dia 12 de janeiro e até 12 de março pode ser dado o call que chama todos os surfistas que vão participar e aponta a realização do Capítulo Perfeito para as 72 horas seguintes. A prova esteve recentemente em “alerta amarelo”, já que a organização chegou a indicar que as condições meteorológicas pretendidas poderiam aparecer durante a última semana, mas a mudança da direção do vento acabou por não permitir que a decisão fosse tomada.

Mais de uma década depois da tal edição inaugural em Peniche, que contou com apenas surfistas portugueses, o Capítulo Perfeito internacionalizou-se e construiu uma história: Nic von Rupp venceu em três ocasiões, Aritz Aranburu também se tornou uma das figuras do evento com dois triunfos e, mais recentemente, Kika Veselko foi a primeira mulher a participar. As passagens por Supertubos e pela Praia do Norte da Nazaré deram lugar a uma estadia mais consistente em Carcavelos, que se tornou a base do Capítulo Perfeito, e a verdade é que a praia de Cascais recebe o evento de forma consecutiva desde 2020.

A edição de 2026, contudo, vai marcar um antes e um depois na história do Capítulo Perfeito. Pela primeira vez desde 2012, o evento vai cruzar fronteiras e organizar etapas em Moçambique, na Praia da Barra, e na Indonésia, em Desert Point. Tudo começa em Carcavelos, onde os quatro primeiros classificados conseguem o apuramento para os outros dois campeonatos, onde vão juntar-se dois surfistas locais e dois wildcards internacionais.

Rui Costa, fundador, criador e promotor do Capítulo Perfeito, falou com o Observador e explicou a dimensão que o salto internacional pode ter para a marca – sem esquecer os passos que continuam a ser dados no surf feminino, com a manutenção do Special Women Heat com quatro surfistas portuguesas e o convite feito a Anne dos Santos, brasileira especialista em tubos que vai competir na prova principal, e a ambição sempre presente de trazer Kelly Slater a Carcavelos.

Depois da vitória de Cam Richards há um ano, sendo que o norte-americano também regressa através do wildcard de campeão em título, o próximo Capítulo Perfeito vai então contar com Balaram Stack (EUA), Bruno Santos (Brasil), Joel Parkinson (Austrália), Noah Beschen (Havai), Rob Machado (EUA), Soli Bailey (Austrália), Torrey Meister (Havai), Tosh Tudor (EUA), Anne dos Santos (Brasil), João Maria Mendonça (Portugal), Miguel Blanco (Portugal) e Nic von Rupp (Portugal), para além de Pedro Boonman, que venceu a votação do público, Tomás Valente, que ganhou os trials, e ainda dois wildcards por anunciar. No Special Women Heat, onde Yolanda Hopkins triunfou em 2025, competem Camila Cardoso, Gabriela Dinis, Mafalda Lopes e Maria Salgado.

Num evento que depende das condições meteorológicas e tendo em conta o inverno que Portugal está a atravessar, como é que foram as últimas semanas? 
Somos um evento que depende das condições meteorológicas para um determinado tipo de condição. Ou seja, a nossa essência é fazer um evento de tubos, convidamos alguns dos melhores tuberiders do mundo, e isso deixa-nos ainda mais limitados. Não são só ondas perfeitas, são ondas tubulares. E hoje em dia são poucos os eventos que conseguem manter a essência até ao fim, porque os calls são feitos, opta-se por ter outro tipo de critério se as ondas não estiverem tubulares, e no nosso caso há mesmo esta premissa. Em 2015, uma única vez, as condições acabaram por não aparecer como esperávamos e adiámos, fizemos três ou quatro dias depois, à procura dos tubos.

Os dois meses de espera davam alguma tranquilidade ou existiu algum momento em que pensaram que as condições perfeitas podiam não aparecer?
Tem sido um inverno muito atípico. Carcavelos é uma onda que hoje em dia tem dois ou três dias perfeitos, daqueles que nós procuramos, e na verdade houve dois dias em dezembro com ondas muito boas, quando ainda não tínhamos o período de espera aberto. Portanto, ficámos logo apreensivos porque parecia que já tínhamos esgotado a oportunidade. Mas depois comecei a ter um sexto sentido… O evento nunca aconteceu em janeiro e eu achava que este ano podia aparecer ondulação para acontecer logo em janeiro. Uma parte estava certa, porque houve muita ondulação e com a direção que nós procuramos, outra parte estava errada, porque foi durante as tempestades. E agora estamos aqui à procura, é um bocado a nossa vida, às vezes é um bocado ingrato. Mas dependemos da natureza e é uma junção entre ondulação, vento certo e marés. Chego sempre à praia às 5h da manhã, 5h30, para falar um bocado com o mar, para ver o que é que nos vai dar naquele dia, porque por mais que tenhamos os modelos todos de previsão a última palavra é sempre dada pelo mar.

Estamos a falar da 12.ª edição do Capítulo Perfeito, um evento que começa em 2012 e que já teve vencedores como o Tiago Pires, o Nic von Rupp por três vezes, o Bruno Santos, o Cam Richards. Há 14 anos, quando tudo começou, a ambição era tão grande que era possível imaginar que iriam chegar aqui ou tudo superou as expectativas?
Os objetivos vão aparecendo conforme vamos crescendo. Não vou dizer que não tinha um sonho muito longínquo de que o evento podia ser muito grande, claro que tinha esse sonho. Mas é óbvio que em 2012, quando tudo começou, o objetivo principal era mostrar ao mundo um conceito completamente inovador. Mostrar a ambição de fazer um evento só de tubos, que não havia, e começou tudo por aí. Mas este evento tem inovado quase todos os anos e isso é quase uma obrigação nossa. Temos feito alguma coisa nova quase todos os anos, mudamos de praia, aumentamos os prize money, internacionalizámos o evento de três surfistas estrangeiros para 11 hoje em dia. Não posso dizer que superámos as expectativas porque isso era como dizer que já parámos e nós não queremos parar. Tem sido sempre em crescendo e todos os objetivos que colocámos em cima da mesa até agora foram cumpridos. Falta-nos trazer o Kelly Slater, que está próximo, e solidificar esta expansão que vamos começar este ano. O John John [Florence] ainda não está disponível, estará um dia e nessa altura será um objetivo, mas por agora é o Kelly Slater.

Este ano de 2026 marca a internacionalização do Capítulo Perfeito, com eventos agendados para Moçambique e Indonésia. A ideia é afirmar o evento como a marca de ondas tubulares no mundo inteiro?
É exatamente isso. É mesmo isso. Hoje em dia somos mais do que um evento, a marca Capítulo Perfeito é conhecida, é respeitada. Os surfistas sabem que a nossa obsessão é pelos tubos. E nós convidamos os melhores free surfers do mundo, mas os melhores free surfers do mundo que são especialistas em tubos. E aí temos essa responsabilidade muito grande de lhes entregar os tubos, não podemos convidar um especialista em tubos e depois ter um evento em que não haja tubos e seja tudo feito com manobras, seria ir contra as expectativas do surfista. Hoje em dia temos uma comunidade de quase 70 surfistas que já passaram pelo Capítulo Perfeito de alguma forma e eles acabam por passar a palavra, é por isso que hoje em dia temos o contacto do Rob Machado, do Joel Parkinson, do Mason Ho, falamos com o Mick Fanning, falamos com o Kelly Slater, falamos com os surfistas mais respeitados em ondas tubulares. É uma marca muito respeitada mundialmente e é isso que queremos, que a marca Capítulo Perfeito seja a marca dos tubos.

Ainda assim, estamos a falar de outros continentes, outros fusos horários, outras longitudes. Qual é a estratégia para manter o interesse português nas etapas internacionais?
O trabalho que foi feito, no fundo, foi centralizar toda a decisão em Portugal. Os outros dois eventos dependem do evento de Portugal, ou seja, os finalistas do evento de Portugal são convidados a competir nessas duas paragens.

O facto de Carcavelos continuar a ser o ponto central do Capítulo Perfeito, os atletas apuram-se aqui para Moçambique e Indonésia, era algo inegociável? Não podia ser de outra maneira?
Sim, o trabalho que fazemos já há alguns anos com a Câmara Municipal de Cascais, que tem sido um grande parceiro deste evento, é exatamente nesse sentido de manter todas as decisões em Portugal, centralizar tudo em Portugal. O evento de Portugal será sempre a génese, será sempre o evento que estará e ficará no mapa dos eventos do Capítulo Perfeito. Isso é inegociável. Mas a Câmara este ano vai patrocinar o prize money de Moçambique e Indonésia, será um prize money de 10 mil euros para cada um dos eventos powered by Cascais, exatamente para manter Cascais dentro do evento e da decisão, mas também para projetar o modelo do Capítulo Perfeito aqui.

O que é que isso significa? O que é “o modelo” do Capítulo Perfeito?
O Capítulo Perfeito em Cascais não passa só pelo surf, fizemos renascer Carcavelos. Foi a primeira grande onda em Portugal, o primeiro sítio onde os estrangeiros começaram a parar nas suas “pão de forma”. Era uma onda incrível e a primeira entrada em Portugal, muito conhecida durante muitos anos, mas depois apareceu o resto, os eventos em Carcavelos deixaram de existir e a onda ficou esquecida. Quando chegámos a Carcavelos pela primeira vez em 2014 fizemos a onda renascer, o mundo não conhecia a onda, a media internacional de surf já não se lembrava de Carcavelos. Nos primeiros anos eu ainda tinha de enviar vídeos e fotografias de Carcavelos aos surfistas quando os convidava, porque eles só falavam na Praia do Norte. Hoje em dia estou completamente à vontade, quando falo com os surfistas eles já conhecem Carcavelos.

O Capítulo Perfeito volta a apostar também no Special Women Heat, que se estreou no ano passado com a vitória da Yolanda Hopkins. A categoria feminina é também uma vertente em que o evento pode crescer e tornar-se uma referência?
Vivemos num mundo cada vez mais inclusivo, em que as mulheres evoluíram muito no surf. Começaram por evoluir em condições ditas normais, com algumas limitações em ondas tubulares, mas há três anos deram aqui um grande grito do Ipiranga e mostraram que conseguiam estar ao nível dos homens nos tubos. E a partir desse momento, até para defesa delas e à semelhança do que aconteceu nos outros eventos, começaram a competir com os homens. A partir do momento em que existiu esse statement mundial nós também quisemos associar-nos a isso. Mais: elas estão preparadas para competir entre elas, mas quisemos fazer mais do que isso, quisemos trazê-las para dentro do evento para competir com os homens. Há três anos incluímos uma portuguesa na lista de surfistas portugueses a votação, a Kika Veselko, e ela acabou por competir.

Mas depois optaram por separar e criar uma categoria feminina autónoma.
Percebemos que as surfistas portuguesas ainda precisam de evoluir um pouco mais nestas condições e achámos que tínhamos de dar um passo atrás para dar dois à frente, defendê-las e dar-lhes o momento delas, mais seguro. O que fizemos foi criar este Special Women Heat em que convidamos as quatro melhores surfistas portuguesas de tubos e oferecemos um palco muito melhor do que aquele que foi dado à Kika, que perdeu o primeiro heat e a repescagem e às 10h da manhã estava fora do evento. O que fizemos foi diferente, foi criar um heat para as mulheres que acontece entre a meia-final e a final. E achamos que este novo palco pode projetar e promover muito mais o surf feminino, acontece numa altura em que a praia está cheia, quando a transmissão está ao rubro porque está tudo à espera da final. E queremos manter. E este ano também convidámos uma surfista internacional, com créditos firmados neste tipo de ondas, para entrar no evento principal. Vamos acabar por ter um evento com uma surfista na prova principal e quatro surfistas portuguesas a disputar o Special Women Heat.

Falando em 2025 e olhando para os números oficiais, contabilizaram 20 mil espectadores, mais de 43 milhões de pessoas a acompanhar pela transmissão, 114 milhões de alcance nas redes sociais e 2,4 milhões de euros de retorno nos canais de comunicação social. A ideia é aumentar todos estes índices em 2026?
Esses são números muito bons. E podemos começar pelo número de pessoas na praia: nós temos plena consciência de que nos últimos dois anos saiu-nos o jackpot, porque o evento aconteceu ao fim de semana. Se o call calhar a um dia de semana, claro que os números são diferentes. Nós temos crescido todos os anos e às vezes analisamos esse crescimento pelas pessoas na praia, mas claro que ficamos sempre mais limitados se o evento acontecer durante a semana. Na última edição que fizemos durante a semana tivemos cinco, seis mil pessoas na praia. O que já é muito bom. E depois tem a ver com os nomes… Se for nas próximas duas semanas o Kelly Slater não pode estar presente porque ainda não está recuperado da lesão a 100%, mas claro que se estivesse cá o Kelly Slater as coisas disparavam mesmo se fosse a meio da semana. Se são números que queremos melhorar? Claro que queremos melhorar. Há um crescimento de apoio e de globalização em termos de media que acredito que vai refletir-se em termos de números.

A última pergunta é sempre um bocadinho ingrata: o que é que ainda falta fazer?
O surfista está sempre à procura da próxima onda perfeita. Há muitas ondas perfeitas pelo mundo. Eu tenho um fascínio muito grande por África e tenho uma missão, de alguma forma, que é contribuir e entregar esta ferramenta ao povo africano. Eu nasci em Moçambique, é também por isso que há esta ligação a Moçambique neste primeiro ano de expansão. Acho que é uma ferramenta muito boa de crescimento para o continente, para estes povos que têm estas ondas perfeitas tão perto deles. Tenho essa missão e acho que vou poder contribuir de alguma forma.

Como?
Estes modelos exportados podem contribuir para o crescimento de muitas vidas, vão pôr comida na mesa de muitas pessoas, nós próprios teremos uma garantia de que existirá uma consciência ecológica maior e uma defesa maior destas ondas. Estes países também vão poder mostrar o que de melhor têm e atrair turistas e pessoas que procuram estas ondas. Ainda existem muitas ondas perfeitas por encontrar e o Capítulo Perfeito vai sempre ter essa missão de as procurar, de tentar fazer lá o evento e mostrar. Há ondas icónicas perdidas no mundo e acho que nós, criando este conceito de ter mais do que um evento por ano, teremos uma comunidade maior. O próximo passo é solidificar esta expansão e fazer com que a marca tenha ainda mais respeito no mercado. Em 2012 começámos com quatro tendas em Supertubos, câmaras em cima de paletes a filmar o evento e em webcast, só no ano seguinte é que começámos a transmitir na televisão. E sentimos que estamos a começar isso tudo lá fora.