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Resposta a João Pedro Marques

O facto de as personagens aludidas não serem negras não invalida a tese geral: a hipersexualização dos negros é uma constante na literatura portuguesa e João Pedro Marques não escapa aos estereótipos

João Pedro George
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No jornal Observador de 13 de Fevereiro de 2026, o cronista João Pedro Marques (JPM) veio, uma vez mais, dar largas à sua obsessão pelo wokismo, um dos poucos temas que o mantém ocupado, semana após semana, ano após ano. Já nem me dava ao trabalho de ler ou sequer abrir os seus textos, pois abordavam sempre, mas sempre, o mesmo assunto.

Tal como o Dr. Simão Bacamarte do conto O Alienista, de Machado de Assis, que via casos patológicos, dignos de clínica psiquiátrica, em quase todas as pessoas da sua terra natal, JPM vê wokismo em tudo o que lê, pensa, sente, deseja.

Convenhamos: criar mundos de fantasia que só existem na sua cabeça, como se nada houvesse no universo mais importante para discutir, tem qualquer coisa de deprimente, ou caricato, para não dizer cómico.

Dito isto, entro na matéria. É verdade, e não o nego, que, como refere JPM, as três personagens do romance O Estranho Caso de Sebastião Moncada não são negras. A inclusão de três citações desse romance – que ocupam apenas cinco linhas nas 346 páginas do meu livro, O Cemitério do Elefante Branco. Retornados e Ficções do Império Português (2024) –, numa lista de obras com personagens negras, resultou de uma confusão nos meus apontamentos. Assumo-o sem reservas.

Tal lapso não invalida ou desqualifica o argumento central do meu texto, que diz respeito à hipersexualização de personagens negras na literatura portuguesa, incluindo os romances Uma Fazenda em África ou Do Outro Lado do Mar, de JPM, que irei demonstrar com exemplos concretos e verificáveis.

Antes disso, porém, é importante esclarecer que o aludido capítulo do meu livro (“Revivalismo colonial e literatura de grande consumo”) não era sobre as obras de João Pedro Marques e que as passagens do seu romance surgiam num extenso rol de autores, entre os quais, Henrique Galvão, Castro Soromenho, Manuel Arouca, Júlio Magalhães, Tiago Rebelo e centenas de livros de memórias dos retornados.

Muitas dessas citações pertencem ao subcapítulo “Equador: um caso de estudo”, dedicado quase exclusivamente ao romance de Miguel Sousa Tavares, que considero um dos exemplos mais eloquentes das distorções do olhar europeu sobre o corpo dos negros.

Transformar uma imprecisão de pormenor no centro de uma polémica, como o faz JPM, é uma forma conveniente e ardilosa de evitar discutir a questão substantiva. Em vez de debater a hipersexualização de várias personagens negras nas suas obras, JPM optou por ampliar um erro lateral, como se ele comprometesse toda a minha análise.

Sucede, no entanto, que a hipersexualização das pessoas negras era transversal aos diferentes impérios europeus, incluindo o português (quando certos padrões persistem durante séculos, é difícil afirmar que se trata de coincidências ou excepções). Pela minha parte, poderia mencionar inúmeras fontes coevas que apresentam as mulheres negras como lascivas, primitivas, excessivas, naturalmente sedutoras, mas, felizmente, a paciência dos leitores não mo permite.

Ao contrário do que muitos sustentam, a objectificação dos negros não se circunscreve à esfera das relações sexuais. Ela manifesta-se na sua redução a um conjunto de atributos apresentados como naturais ou inatos, tais como “primitivismo”, “fidelidade canina”, “gratidão”, “ingenuidade”, “preguiça”, “indolência”, prática de magias e feitiços, etc. Ainda assim, é no plano erótico ou sexual que o problema se torna mais evidente e problemático.

JPM afirma que não existem nos seus romances “diferenças assinaláveis entre mulheres brancas e negras no que toca à líbido ou à forma de viver e exprimir a sua sexualidade”. Vejamos um exemplo, extraído do seu livro Do Outro Lado do Mar (2015), passado entre o Brasil e Angola, na cena em que o padre Inocêncio é seduzido por uma “pretinha”, “quase criança” (as palavras são do narrador): “Inesperadamente, uma pretinha muito bonita veio junto da sua cadeira de espaldar. Apertava os peitos, oferecendo-lhos. Ele não queria vê-la mas a verdade é que não tirava os olhos das mãos dela, espremendo as maminhas pontiagudas, nem das suas ancas, que se remexiam ao ritmo dos tambores”.

Dotado, como se vê, de um talento inusual para o péssimo gosto, área em que JPM é ágil, torrencial mesmo, o romancista aproveita para levar o devaneio erótico a camadas que antes dele ninguém ousara atingir.

Martinha exala voluptuosidade. Não é apenas um convite surdo ao sexo. Quer quisesse, quer não quisesse, o narrador diz-nos que era impossível a Inocêncio resistir aos avanços da miúda: “Num gesto inesperado a pretinha pegou-lhe numa das mãos e passou-as pelos mamilos. Ele ainda quis resistir mas algo dentro de si quebrou. Muito contra a sua vontade, a sua virilidade reprimida fez-se sentir, reagiu, enrijeceu, ardendo como um ferro em brasa pedindo satisfação.

“– Como te chamas, pretinha? – perguntou, a custo, no meio da sua enorme perturbação.

“– Martinha, siô padre.

“E Inocêncio, sem saber o que fazia, ouviu-se a si mesmo a dizer:

“– Vem comigo, Martinha. Leva-me a casa.

“Ela obedeceu, pegou-lhe na mão e seguiu alegremente a seu lado, saltitando e meneando as ancas. E tanto as meneou, e tão perto dele o fez, que o padre não conseguiu conter-se”.

A literatura fornece aos escritores um pretexto para falarem deles, em particular daquilo que ignoram acerca de si próprio. Suponho que foi o que aconteceu neste episódio.

Incapaz de refrear a sua imaginação marota, JPM é um artista atormentado e obsessivo, que parece utilizar a escrita para enfrentar os seus fantasmas: “Ainda não tinham saído totalmente do alcance luminoso das fogueiras quando a abraçou por trás e lhe apertou os peitos quentes e macios. A pretinha não opôs qualquer resistência. Pelo contrário, chegou-se a ele, empurrando os quadris para trás, oferecendo-se como se fosse uma fêmea experiente. Encorajado, excitado, enlouquecido de desejo e esquecido dos seus votos, Inocêncio levantou-lhe o saiote, sentiu-lhe o calor húmido e macio entre as pernas e, com as mãos inábeis e nervosas, procurou avidamente o bom caminho” (p. 243).

A situação é interrompida, para continuar mais adiante, já Martinha (mera figurante, esta é a sua única presença em todo o livro) desapareceu da história. Durante duas páginas, o narrador dedica-se a analisar os remorsos do padre, conservando-se indiferente ao destino daquela libertina descarada:

“Na manhã seguinte o padre Inocêncio acordou angustiado. (…) Virou-se na cama para não encarar a figura martirizada do Santo Cristo que, da parede, o observava e culpabilizava. (…) Não queria ver o corpo crucificado de Jesus nem o que quer que fosse”.

O sexo do padre com a “pretinha quase criança” é motivo para JPM esquadrinhar os recessos da sua alma, levando-o a concluir que dentro dele existe um romancista ao estilo de As Cinquenta Sombras de Grey: “Mas logo o Demo, sentindo o terreno livre, sabendo-o desavindo com o Senhor, lhe meteu pela cabeça adentro as imagens e as boas sensações da noite anterior. E quanto mais fechava os olhos, aterrado, mas nítidas lhe apareciam as coxas frementes e convidativas das pretas, as suas saias levantadas, os seus gestos lascivos a exigirem carícias bárbaras e indecorosas”.

Para toda a gente, menos para JPM, esta descrição é o mais acabado exemplo da hipersexualização das negras (aqui uma “pretinha quase criança”), da qual o romancista se serve como mero espectáculo para satisfazer a procura generalizada de erotismo e exotismo, porque sabe que isso prende a atenção e é bom para vender papel impresso.

A mera presença física de Martinha, uma menor (“quase criança”) exerceu uma influência tão poderosa no padre Inocêncio que fez dele vítima de todas as fraquezas: “Torceu-se na cama para expulsar de si aquelas imagens, mas sem resultado. O toque macio dos peitos da pretinha ainda estava nas suas mãos, o cheiro adocicado dela entranhara-se-lhe no nariz, os seus débeis gemidos de surpresa e de prazer não lhe saíam dos ouvidos. (…) Estava condenado! Morreria de luxúria e de remorso. Chorou lágrimas amargas, sinceras, dobrado pelo arrependimento. Depois, arriscando olhar de soslaio para o crucifixo iluminado pela luz do dia, viu que ele resplandecia numa calma aceitação” (p. 246).

Não é difícil perceber, por este e outros exemplos tirados da sua obra, que JPM reduz as mulheres negras a uma presumida natureza primitiva e animalesca, ao passo que as brancas, quando se entregam ao furor sexual, fazem-no com a consciência de que estão a violar as convenções e as regras do pudor (o que as lança, não raro, na dúvida e na angústia). Se, nas negras, a sexualidade é considerada inata e racial, nas brancas é sempre individual e moral.

Contudo, e ainda no que diz respeito ao gozo corpóreo das personagens, há continuidades que merecem ser apontadas e que traduzem a influência do subconsciente deste escritor no seu processo criativo.

Como se transitassem de livro para livro, as personagens femininas de JPM não mudam de postura quando praticam sexo. Em Uma Fazenda em África (2012), Benedita faz sexo como quem treina para a final da prova de hipismo dos Jogos Olímpicos: “Gostava de o [Peter] deitar de costas e de o cavalgar sobre os quadris pois sabia que assim ele tinha o duplo prazer de a amar e de a admirar” (p. 331).

No manual erótico de JPM, aparentemente, existe uma, e apenas uma, posição sexual: a mulher sentando-se sobre o homem deitado, de frente para ele, conduzindo os movimentos e assumindo a iniciativa. Tratar-se-á de uma opção literária de fundo, para não dizer filosófica?

Não sei. O que sei é que em O Estranho Caso de Sebastião Moncada (2014), Poleciana “subiu para cima dele [Mateus], cavalgando-lhe as coxas e esfregando-lhe o sexo duro com a palma quente e macia da mão direita” (p. 97), e Luísa empurrou-o [Mateus, o homem-cavalo, feliz por o ser] para o chão, forçou-o a deitar-se e levantando a saia até à cintura cavalgou-o, amou-o de uma forma selvagem, quase violenta, mordendo-o, arranhando-o, lambendo-o, esmagando-lhe a cara contra o calor perfumado dos seus seios” (p. 323).

Depois, em A Aluna Americana (2019), Isabel faz o papel de aluna aplicada da “Todos a Galope”, uma associação equestre sem fins lucrativos que promove actividades de lazer em cima do cavalo: “Isabel riu, divertida, afastou resolutamente as pernas, pegou numa das mãos dele e colocou-a sobre o seu sexo, obrigando-o a friccioná-lo suavemente como gostava que ele fizesse. Depois beijou-o com voracidade e puxou-o para cima de si. José Duarte deixou-se ir, obedientemente, maravilhado com as ousadias dela” (pp. 42-43).

Mais à frente, voltamos a encontrar “Isabel montada sobre os seus quadris, como se o cavalgasse, lançou-se num galope violento, gemendo e dizendo coisas sem nexo. No fim, quando se levantaram e correram para a casa de banho, ela disse, apontando para os joelhos: – Ui! Doeu” (p. 203).

Em Haiti (2025), a posição é utilitária, funcional, pragmática: “Adelaide, como ele [Léger-Félicité Sonthonax] era gordo, preferia não ter de lhe suportar o peso, na cópula, e obrigava-o a inverter as posições entre eles (…). A imagem da mulata sobre si, cavalgando-lhe o corpo (…)” (p. 147).

Não vale a pena fazer disto um drama. JPM é só um romancista provecto a fazer pela vida no pobre microcosmos literário português. Mais estranho, susceptível de fazer corar um especialista no tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, é JPM dizer que uma das suas personagens, cuja pertença étnica não é expressamente declarada (a criada Maria no livro O Estranho Caso de Sebastião Moncada), não poderia deixar de ser branca porque “tem a cara corada“: “Importa sublinhar que mesmo nos casos em que a pertença étnica está implícita ela subentende-se ou deduz-se com facilidade. Alguns exemplos concretos (…): a criada Maria, que se contorce como uma cobra (para escapar aos abraços e carícias do azeiteiro de Vilar) tem a cara corada”.

Pelos vistos, o historiador da escravatura ignora que ruborizar é uma resposta fisiológica humana universal e que, por conseguinte, as pessoas negras também coram, como o próprio Charles Darwin já o dissera no final do século XIX, em The Expression of the Emotions in Man and Animals (1872), quando observou que o aumento do fluxo sanguíneo na pele intensifica a sua “negrura”.

Como sei que JPM gosta de se instruir, e aproveitando para o ajudar a combater a sua ignorância pretensiosa, não isenta de laivos racistas, sugiro-lhe a leitura do artigo científico de Peter D. Drummond e H.K. Lim, “The significance of blushing for fair- and dark-skinned people” (“O significado do rubor em pessoas de pele clara e de pele escura”), publicado na prestigiada revista académica Personality and Individual Differences (vol. 29, 2000).

Assim, e em síntese, é verdade que as três personagens do romance O Estranho Caso de Sebastião Moncada não são negras e que isso resultou de uma confusão nos meus apontamentos. O erro é meu e será corrigido.

Com a mesma tranquilidade que o assumo, venho aqui dizer, de João Pedro para João Pedro, que não lhe admito que utilize tal lapso para, com manifesta má-fé, distorcer e truncar afirmações minhas: “George confessou em tempos, numa entrevista ao jornal Sol, que pode não ler os livros ‘da primeira à última página’, mas ficar-se apenas por ‘nacos significativos'”.

Com a sua tesourinha deprimente, JPM cortou um bocadinho aqui, outro ali e colou tudo com cuspo. E senão vejamos: a meio da referida entrevista (Sol, 26 de Junho de 2017), em resposta a uma pergunta de Diogo Vaz Pinto – “Voltando à questão da crítica à Margarida Rebelo Ponto, como é que a apanhou no auto-plágio?” –, afirmei o seguinte: “Li os livros dela uns a seguir aos outros, que é um hábito que eu tenho quando estou a escrever sobre um livro de um autor. Tenho essa tendência masoquista, talvez por insegurança, de ler o que ficou para trás. Ou, pelo menos, o substancial – posso não ler da primeira à última página, mas leio nacos significativos para ter uma ideia das diferenças e das semelhanças na evolução de um autor”.

Dito de outro modo: para fazer a recensão de uma obra, é meu hábito consultar os livros anteriores do mesmo autor para perceber a sua evolução literária. Ora, JPM transforma essa explicação metodológica numa acusação de que “não leio os romances que critico”.

Trata-se de uma generalização grotesca e abusiva, uma deturpação deliberada, daquilo que afirmei. E um insulto à minha honestidade intelectual e ao rigor do meu trabalho (foi isso, e apenas isso, que me levou a escrever esta resposta).

Referir que costumo fazer uma leitura exploratória de obras anteriores para contextualização da obra mais recente, a que estou a analisar, não equivale – nem remotamente – a dizer que não leio aquilo que critico.

Cronista monocórdico e romancista de padrões fixos (tema que daria, per se, um capítulo à parte), JPM não só confunde um lapso pontual com a invalidação de uma crítica estrutural, como utiliza métodos indignos de um historiador. Logo JPM, que gosta de se proclamar um dos mais fiéis servidores das concepções empiristas da História, um investigador que se arvora em paladino da isenção, da objectividade e da neutralidade científica.

Isto, por si só, desvenda a sua motivação íntima. Porque JPM não está verdadeiramente interessado no debate académico, nem a sua intervenção crítica é animada pela seriedade intelectual, da mesma forma que os seus romances não visam produzir ficção literária de qualidade, mas sim vender em grandes quantidades com objectivos estritamente comerciais.

Mais grave ainda é JPM, baseando-se unicamente no facto de eu falar da hipersexualização dos negros, me catalogar de esquerda, resolvendo assim o mistério das minhas simpatias políticas.

JPM não me conhece pessoalmente, tão-pouco sabe quais são as minhas posições ideológicas, mas isso não o inibiu, por um momento que fosse, de traçar um retrato sumário e definitivo sobre a minha identidade política. O que lhe permite qualificar-me como de esquerda ou de direita, se nunca tive militância política e sempre prezei a minha independência em relação a partidos, a tribos, a capelinhas e a clientelas?

Ao classificar-me como de esquerda, sem mais nem quê, JPM dá mostras de ser um sectário e um fanático: quem não alinhe pela sua cartilha, ou subscreva as suas ideias, é imediatamente tachado de esquerda, como quem padece de lepra.

Com isso, JPM pode granjear aplausos entre alguns leitores do Observador, e conquistar simpatias nas caixas de comentários, mas deixa cair a máscara da sua probidade intelectual (ou falta dela) e revela-nos o recheio mental que transporta dentro da cabeça: a intolerância cega de um pequeno Torquemada.