Há qualquer coisa de estranho com a Iniciativa Liberal. O partido que veio para ocupar um vazio que estava por representar — liberal na economia, liberal nos chamados “costumes”, liberal na forma de se relacionar com o espaço público — é hoje um objeto político não identificado. Um objeto que ninguém sabe exatamente quem comanda. Algures entre a primeira vitória da AD, as guerras intestinas, a declaração de morte ao wokismo e a importação da motosserra de Milei, é difícil dizer exatamente o que querem e para onde vão os liberais.
A singularidade de ter quatro líderes no ativo não ajudará seguramente. Mariana Leitão é a presidente no papel mas ainda não se lhe viu um momento de rasgo — o congresso que serviria de entronização foi o de autoproclamação de Cotrim, o candidato. Carlos Guimarães Pinto, no seu (auto) exílio parlamentar, continua a fazer o seu (próprio) caminho. Rui Rocha vai, à velocidade da luz, de candidato a número dois de Luís Montenegro aos videozinhos a malhar no Bloco para agradar à claque. João Cotrim Figueiredo fundou um movimento, fez-se comentador e é uma questão de ‘quando’ até aparecer novamente para reclamar o partido — ou o que restar dele. E ainda há Bernardo Blanco, que não esconde que quer muito, e Mário Amorim Lopes, que não esconde que muito quer. Uma multidão para um partido tão pequeno.
Um partido pequeno mas com todos os vícios pouco recomendáveis de um partido grande — os tais partidos grandes que a IL jurava querer combater. Com a diferença de ser rápido no Twitter e giríssimo no TikTok. Já tinha ficado na retina o congresso de gritaria que ia fazendo implodir a IL, mas a forma como tratou as acusações de assédio a João Cotrim Figueiredo é todo um tratado. Primeiro, o escândalo. Depois, o horror, as ameaças e a campanha negra contra a alegada vítima. Por fim, quase envergonhados, um comunicado ao retardador onde se dizia que, afinal, azar dos Távoras, um partido com meia dúzia de anos de existência e outros tantos funcionários parlamentares já tinha dois casos reportados. Sem mais. Sem um esclarecimento, sem uma explicação com princípio, meio e fim, sem alguém a dar a cara e a responder aos jornalistas.
E não, não foi por falta de oportunidade, como explicava aqui o Observador. “Na fase final da campanha eleitoral para a primeira volta das presidenciais, quando João Cotrim Figueiredo ainda era candidato, a direção da IL e vários dirigentes liberais foram questionados diversas vezes por jornalistas, mas optaram sempre por omitir deliberadamente estes casos — mesmo quando foi perguntado diretamente se havia outros visados que não Cotrim Figueiredo. Exatamente 22 dias depois da primeira resposta oficial, a direção da IL [admitiu] a existência de dois casos, dos quais não dá informações detalhadas, a não ser para os desvalorizar e para dizer que não visam Cotrim.”
Ninguém sabe porque os omitiram e a direção da IL não o explica. João Cotrim Figueiredo — o mesmo que chegou a sugerir publicamente que a alegada vítima tinha o prazer de fazer queixas — na sua estreia como comentador, teve um súbito acesso de transparência e revelou, acabrunhado, que um dos casos com que a IL teve de lidar aconteceu no seu período como presidente. Espantosa memória seletiva, que se desliga e liga quando a caravana eleitoral passa.
O momento foi confrangedor. “E não foi revelado porquê? Foi para o proteger?”, perguntou o jornalista. “Não faço ideia. E esse assunto, quanto menos falar dele, melhor. O resto perguntem ao partido. (…) Não faço a menor ideia, nem sei as decisões que o partido tomou”, foi repetindo o comentador, que calha de ser antigo presidente do tal “partido”, que calha de até ter tido o apoio desse “partido” nas últimas presidenciais, e nas últimas europeias, e que calha de ter sido o presidente em exercício do “partido” quando um dos casos aconteceu. Pormenores.
Não se pode dizer, aliás, que a segunda vez tenha sido melhor do que a primeira. À pergunta sobre as recentes aparições de Pedro Passos Coelho, João Cotrim Figueiredo foi discorrendo sobre como ele e o antigo primeiro-ministro são dois protagonistas de um “centro reformista” que se sente órfão de representação e de um país que precisa de se mexer. Sim, pergunte-se ao “partido” o que acha de ter um ex-líder a dizer que o “partido” é insuficiente e demasiado pequeno para a empreitada.
Enquanto Cotrim brilha, o “partido” eclipsa-se. Antes um movimento que fazia da comunicação a sua maior força, a IL é hoje um partido cujas intervenções e prioridades escapam à inteligência do cidadão médio — a primazia dada à reversão da lei de bases do clima é abracadabrante. Antes um movimento com uma agenda distintiva e, também por isso, facilmente reconhecível, a IL é hoje um partido perdido porque lhes faltaram os votos necessários para dar a mão a Montenegro. Antes um movimento que parecia ser capaz de se rodear e fazer aparecer gente nova, a IL é hoje um partido gerido como se de um condomínio se tratasse, com as guerrinhas típicas entre vizinhos.
A Iniciativa Liberal teve a grande virtude de pôr o país a olhar-se ao espelho e notar muitas das suas falhas. Conquistou um espaço próprio e importante. Teve o mérito de trazer para o debate público temas que pareciam tabu — sim, pobre país este que só começou a falar de redução de impostos com renovada paixão há meia dúzia de anos. Mas convinha que a Iniciativa Liberal se visse ao espelho, corrigisse o que está mal e aparecesse de cara lavada, sem opacidades e sem vícios. Caso contrário, o futuro pode não ser tão promissor como porventura os liberais gostariam.