Chegam as câmaras. De forma relâmpago, improvisa-se um estúdio no seu escritório. Lerá um discurso “sóbrio e eficaz”. Resta esperar que as palavras vão para o ar e que os espanhóis vão dormir descansados. Impacienta-se. O tempo tem as pernas paralisadas. É já madrugada dentro quando aqueles 24 segundos chegam por fim às televisões, uma intervenção histórica a 23 de fevereiro de 1981 em que Juan Carlos I enfrentou uma tentativa de golpe de Estado. No dia seguinte, o som costumeiro das ruas foi mais forte e mais ágil que o ruído dos tanques que ameaçavam Zarzuela. Para a história passou a imagem do monarca vestido com uniforme militar nessa comunicação ao país. O rei afirmava a unidade da pátria, consolidava a sua legitimidade democrática, e — ficamos a saber — desembaraçou-se de parte da roupa por uma questão de urgência. “Vesti o meu fato de general. Para ser mais rápido, nem pus as calças”.
Mais de 40 anos depois desse momento histórico (e não menos picaresco) que ameaçou a democracia, procura a Reconciliação, título das memórias fixadas em livro pela jornalista e historiadora franco-venezuelana Laurence Debray. Com edição portuguesa da Planeta, as quase 500 páginas (cerca de uma centena de outras, redundantes, haveria de ficar pelo caminho para aliviar o calhamaço) reveem a ligação e lições políticas recebidas de Franco, o papel decisivo no processo de transição para a democracia, um conjunto de relações institucionais ao longo de um reinado que se estendeu entre 1975 e 2014, mas também desabafos do foro pessoal (entre candura extrema ou admirável inconsciência, o leitor decidirá).
O rei que nasceu, cresceu e provavelmente viverá os últimos dias no exílio, em Abu Dhabi, sabe que há um antes e depois de um episódio decisivo. Até à polémica caçada no Botswana “teria morrido como um herói”. Em 1989, o regresso a casa de Guernica “selava a normalização democrática do nosso país”. Veremos que juízo fará Espanha do homem que suspira pela trégua.
Filha de revolucionários, Debray foi do marxismo dos pais, o filósofo Regis Debray e a antropóloga Elizabeth Burgos, cuja saga revolucionária já contou (e questionou) em livro, ao juan carlismo de um emérito “sozinho e isolado” nos Emirados Árabes desde 2020, quando saiu de fininho de Madrid e chegou ao hotel Four Seasons com duas malas. É em francês, a sua primeira língua, que o “homem da constituição” sonha, comunica com os primos Europa fora, e lavrou estas memórias, que levaram Debray a instalar-se com a família em Abu Dhabi durante dois anos. Mas foi em contundente castelhano, em 10 de novembro de 2007, que ceifou a voz a Hugo Chávez, num incidente diplomático que correu mundo. Meses depois o então presidente da Venezuela era recebido em Palma de Maiorca por Juan Carlos. O anfitrião tinha um presente à sua espera. “Dei-lhe um polo com a frase ‘Por que no te callas? Ele riu-se e eu continuei. Sabes quem mo enviou? Um dos teus melhores amigos! Bush pai”.
De passagem por Lisboa para uma maratona de entrevistas (e antes de seguir para um jantar com Tita Balsemão), falamos com Laurence sobre um monarca “sem noção do risco”, que seguiu sempre prego a fundo. “Por vezes, à noite, depois de um dia de reuniões, pegava na mota e dava umas voltas por Madrid. Era a minha forma de descomprimir. Ia sozinho, escondido pelo meu capacete. Era um raro momento de liberdade”.

Juan Carlos sabe que está em Portugal?
Sim, claro! Falámos esta manhã, ele sabe de tudo sobre o livro.
Ficou contente por estar aqui?
Contente não, contentíssimo. Para ele Portugal é a sua segunda pátria, tem imenso carinho pelo país. Está muito agradecido e sente-se muito bem em Portugal, onde vem várias vezes. Sempre que vai velejar à Galiza vem via Lisboa e depois segue de carro. E sabe perfeitamente que estou aqui, sim.
Sei que não gosta de redes sociais mas conversam muito por WhatsApp.
E também por telefone, sim.
Fico a imaginar se usa emojis. Depois de alguns detalhes que li nas memórias quase o imagino capaz de usar o da coroa.
Ah, isso era muito bom, mas não, nem ele os usa, nem eu (ri-se).
O livro vai fazendo a sua campanha de lançamentos, sem a presença de Juan Carlos. Os portugueses serão mais amistosos na receção a estas memórias do que espanhóis?
Hum…não sei bem como se recebeu aqui em Portugal mas sei que em França correu muito bem. É verdade que em Espanha é mais complicado. Veja bem, em Espanha chegamos ao ponto de termos jornalistas que escrevem que não leram o livro mas estão contra.
Como vê essas reações?
Acho que há muita gente que, pelo menos no começo, estava contra a ideia de o rei escrever as suas memórias. Depois quando as leem, até gostam das memórias.
Sente que o movimento é sobretudo de rejeição da figura e não tanto da obra?
Exato.
Consegue perceber se este livro tem ajudado a melhorar, ou piorar, a imagem e reputação do rei emérito, já tão abalada nos últimos anos?
O livro vendeu-se muito bem em Espanha. Bateu recordes de vendas até, vai na sexta edição. Mas, bom, os media espanhóis…
Falo da população em geral, mais do veredicto das ruas que da crítica ou opinião publicada.
Penso que a geração que cresceu com ele, que é mais ou menos da sua idade, que viveu a mudança em Espanha, é esse o público que comprou o livro, mas àquele lado mais institucional, e dos media, não lhes agradou nada a ideia.
Em outras entrevistas menciona uma certa ingratidão das elites espanholas. É isso que sente?
Não sei muito bem, porque sou francesa…E além disso sou muito republicana, vejo as coisas de fora.
Mas esse aspeto também é positivo, sobretudo para escrever.
Sim, claro, dá-me uma distância.
A distância de uma fã assumida, no entanto, que em jovem colou um poster de Juan Carlos ao lado do de François Mitterrand.
Uma fã da figura de Juan Carlos, sim, do seu papel político, histórico, mas não sou fã de todos os reis.
Só é fã de Juan Carlos?
Exatamente.
Porquê?
É que os outros…Aquele glamour em volta da monarquia não me interessa muito.
Mas Juan Carlos também teve algum glamour à sua volta, pelo menos antes da queda. O que o cativa em relação aos outros?
Bom, na verdade é uma figura que teve um papel político incrível e não há muitos reis no século XX que tenham tido este tipo de papel. Desde a II Guerra Mundial, creio que ele é um dos grandes líderes políticos, não apenas na Espanha, mas em toda a Europa.
Insuficientemente valorizado, na sua opinião?
Em França, valorizam-no muito, o livro foi muito bem acolhido, gostam muito dele, sempre que vem a Paris o chefe de Estado recebe-o bem. O problema está em Espanha.

É verdade que em Abu Dhabi o embaixador de Espanha no país nem o cumprimenta quando se cruzam?
Sim, entendo que tenha dececionado os espanhóis. E também penso que os espanhóis se esqueceram, ou não querem lembrar-se do papel histórico e político que desempenhou.
Porquê?
Porque o governo atual transforma muito os factos. Quer descredibilizar a coroa, a monarquia.
Acredita que se houvesse uma mudança no governo, poderia haver outro sinal para o emérito? Uma possibilidade mais concreta de reabilitação dentro de portas?
Creio que nem ele sabe disso…
Mas sonha com isso?
Isso claro, leva Espanha dentro de si. Adora o seu país, e viver tantos anos fora não é fácil. Mas não se queixa, não é nada uma pessoa que se queixa.
Vemo-lo debilitado fisicamente, mas mantém o ânimo?
Sim, sim, tem a cabeça de um militar. Super disciplinado. Se é aquela hora é àquela hora.
Mas uma hora espanhola.
Claro, continua a seguir a hora espanhola mesmo em Abu Dhabi. Come tarde, como se faz em Espanha. Tem os dias muito organizados, acorda cedo. Tem muita força mental.
Ainda assim é um homem de 88 anos, um rei que deixou o poder, que vive num auto exílio longe de casa, completamente isolado. Como enfrenta este cenário?
Quando está o seu neto, Froilan, que vive mesmo ao lado, sempre tem alguém mas caso não, sim, é verdade que está isolado. Passar de rei adulado por todo o mundo a exilado em Abu Dhabi é uma mudança muita radical.
Sente que é impossível alterar esse desfecho?
Não sei….
Ou que pelo menos assim o deve manter, por atenção ao reinado do seu filho?
Sim, por agora não quer aborrecer o seu filho e afetar a coroa. Prefere afastar-se, proteger a coroa, permanece afastado, e entende também que todas as decisões que o filho toma as toma como rei, a bem da coroa, e não como filho.
Sabe se Felipe VI leu o livro?
Não sei, não tenho contacto com a casa real, com Zarzuela.
E no entanto chamaram-lhe já “a quinta infanta”, pela proximidade com o núcleo duro da família.
Não sei porquê (ri-se).
É público que se dá bem com as infantas Elena e Cristina [as outras seriam Margarita, irmã mais nova de Juan Carlos, e Sofía, sua neta].
Sim, dou-me muito bem com as filhas, leram o livro e ajudaram-me. Acompanharam todo o projeto. Gostaram. São encantadoras. Mas com a Zarzuela não tenho contacto nem o procuro.
Sentiu alguma pressão durante os dois anos que esteve em Abu Dhabi a registar estas memórias? Para deixar algo de fora, por exemplo?
Não, a verdade é que estivemos os dois isolados em Abu Dhabi, numa espécie de bolha. Na pior das hipóteses foi Juan Carlos quem recebeu pressões, mas não me falou nada disso.
Mas acredita que tenham havido?
Sim, tenho a certeza, porque havia muitos amigos dele, espanhóis, que estavam contra o projeto. Diziam-lhe que não ficava bem escrever as memórias. Mas ele não me comunicou nada disto, fomos trabalhando os dois.
Seguiu em frente com o livro mas pensa que algum feedback de fora poderá ter alterado algum rumo dentro da obra?
Não acredito, porque ele tem muita autoridade moral.
Continua a ter?
Sim, e se tem uma ideia fixa não a vai parar. Mesmo que alguém lhe diga para não fazer algo, ele segue em frente. É uma pessoa muito decidida e podemos ver isso na sua vida em geral.
E apesar disso queixa-se de nunca ter sido livre.
Sim, é verdade, mas penso que ele não tem noção de risco como eu ou você poderemos ter.
Por exemplo?
Vejamos, quando me contou que através da Roménia entrou em contacto com Santiago Carrillo [histórico secretário-geral do Partido Comunista espanhol entre 1960 e 1982], Franco viu tudo isso.
Um atrevimento com potencial suicida.
Eu achei que era uma loucura total! (ri-se) Eu ficaria meses sem dormir. Mas ele sabia que havia que tentar. Ele não vê o perigo como eu o poderia ver.

Por outro lado, essa ousadia acaba por tramá-lo? Ou seja, o pisar do risco além do devido vem também dessa ousadia?
Ninguém lhe põe limites. Não houve ninguém que lhe dissesse “isso não se faz”.
Mas um rei não deveria saber disto à priori? Precisa que lhe lembrem quais são os limites?
(pausa longa). Não sei bem mas imagino que depois de tantos anos no poder, depois de tantos anos de adulação, perdes o contacto com a realidade.
Vê nessa embriaguez a razão para muitas das suas falhas mais criticadas?
Repare, eu vivi um pouco isso desde criança. O meu pai foi conselheiro de [François] Mitterrand [presidente de França entre 1981 e 1995].
Que a Laurence também descreve como um rei à sua maneira.
Bom, Mitterrand era tratado como um rei. E eu via como em apenas 14 anos aquela gente toda a volta dele o adulava, e atenção que não era adulado como Juan Carlos. No fim de contas, penso que és humano e não vives como os outros. O rei era muito próximo das pessoas, saía muito, viajava, saudava muita gente, tinha essa ligação muito direta com o povo, mas em última instância…
Acabou cativo desse poder?
Um poder simbólico, sim. Pelo menos é a minha convicção.
Condescende com o facto de vir de um tempo mais permissivo em muitas matérias? E com o facto de ter querido fazer fortuna porque a família não a tivera.
Sim, não havia tanta transparência, claro, nem tanta exigência moral. Qualquer pessoa importante tinha conta bancária na Suíça e muitos tinham amantes. É uma época assim, e o facto é que ele não mudou com o tempo. O mundo mudou muito mas ele não mudou nada.
Não mudou nada na sua forma de pensar e estar?
É muito difícil chegares a uma pessoa que nasceu antes da II Guerra Mundial e explicares o que é o tik tok. Imagina dizeres que toda a gente está a dançar uns vídeos para um ecrã, a comunicar o dia inteiro. O mundo mudou muito rapidamente e ele cresceu com outros valores. Todos caçavam, tinham vidas privadas muito respeitáveis, os presentes entre reis eram comuns, o seu pai foi financiado por vários aristocratas espanhóis. Ninguém pensava que tinha que pagar impostos sobre uma doação.
Uma cadeia de favores aceitável.
Era tudo mais informal, mas ele nunca mentiu, sempre teve uma mentalidade muito direta sobre o que era.
Mas muito não era público, aliás, há um antes e um depois do episódio da caçada no Botswana. Ele próprio chega a dizer que se tivesse terminado por ali teria “morrido com um herói”.
Sim, claro, há um antes e depois do Botswana mas até um antes e depois do caso judicial que envolveu o [seu genro] Iñaki Urdangarin e a infanta Cristina. As dúvidas sobre a moral da família real começaram aí, as fissuras na imagem começaram aí.
Mas apesar de tudo são figuras mais secundárias. Durante anos prevaleceu a ideia de que mais do que entusiastas da monarquia os espanhóis, e não só, eram sobretudo Juan Carlistas, pelo respeito ao então rei. O que acontece quando essa imagem sai beliscada?
Penso que ele conseguiu abdicar e passar o testemunho ao seu filho de uma forma que correu bem. Felipe é respeitado e penso que no final até fortaleceu a monarquia porque passa a haver menos culto da personalidade e mais respeito pela coroa.
Mas não fortaleceu nada a reputação de Juan Carlos.
Pois não. Mas ele abdicou, foi-se embora.
E ainda assim fica a dúvida se essa decisão chegou para convencer os espanhóis. Foi suficiente para apaziguar?
Não sei, é verdade que Espanha é o país da inquisição, adoram condenar.
Juan Carlos sente-se como uma vítima da inquisição?
Não, não, eu é que interpreto assim, ele não se queixa muito. Penso que há um lado de inquisição e também de auto destruição. Estão sempre a criticar a história passada, o golpe de Estado, a transição. Em França temos um alto sentido da nossa história, somos muito orgulhosos, falam-te disso na escola, de Napoleão, da revolução francesa, de De Gaulle. Temos os nossos heróis. Em Espanha, não. Estão sempre em auto julgamento, por isso não sei se de facto chega ele ter abdicado [confere uma mensagem no telefone.] Peço desculpa, mas tenho que ir ao México promover o livro mas agora com estes acontecimentos todos não sei se se mantém a viagem.
É uma boa deixa para saltarmos para a América latina. É filha de dois revolucionários, duas figuras lendárias da esquerda, Regis Debray e Elizabeth Burgos, sobre os quais escreveu, em 2019, “Filha de Revolucionários”.
E sou super republicana.
Uma super republicana que acabou por editar Mi Rey Caído, e agora volta a Juan Carlos com este livro de memórias. Foi mais difícil escrever sobre a vida dos seus pais ou sobre um rei, tão afastado do marxismo como a Laurence, que até já se irritou com Mélanchon?
(pausa prolongada) Para ser sincera, o dos meus pais. Como era muito pessoal e íntimo não foi fácil. Além disso era para mim como um coming out, de julgar uma geração que não está habituada a ser julgada pela geração seguinte.
É interessante porque sucedeu o mesmo com as memórias de Juan Carlos.
Sim, precisamente como aqui. Os meus pais eram heróis e eu cheguei ali e disse que não compreendia muito bem o que tinham andado a fazer, não percebia esse compromisso. Foi importante perceber de onde vinham. Carregava um apelido um pouco pesado, mas como eles não me tinham contado nada foi uma investigação pessoal muito difícil. Quando o rei me pede para o ajudar com as suas memórias disse-lhe logo que não podia.

Começou por recusar?
Claro, eu escrevo os meus próprios livros, não sei escrever para outra pessoa, um rei que não é da minha geração… Essas coisas da coroa não eram nada o meu mundo.
E que lhe disse sobre este projeto o seu pai, um socialista que andou nas matas da Bolívia ao lado de Che Guevara, que privou com Fidel Castro?
O meu pai foi muito amigo de Santiago Carrillo. Esta geração de esquerdistas são gratas ao rei por ter manobrado bem a democracia, por ter permitido o reencontro de todos os espanhóis.
Uma gratidão que falta a socialistas atuais como Pedro Sánchez?
Bom, Pedro Sánchez não é daquela geração, não… Não sei, acho que há um agradecimento a um rei que muita gente pensou que não ia ser ninguém, que não era muito inteligente, e que em bom rigor entendeu até os comunistas, soube lidar com eles, e que explica aliás no livro essa relação de grande intimidade que tinha com Carrillo. Havia respeito. Naquela época, quando o meu pai estava no poder ao lado de Mitterrand, o rei Juan Carlos estava em todo o lado. Ia muito a França, negociava.
Basta ver as fotos que inclui no livro para perceber essa omnipresença
Sim, ele encontrou-se com toda a gente de primeiro plano. Era um chefe de Estado internacional bastante respeitado, mas claro quando contei ao meu pai que ia escrever as suas memórias, riu-se muito. “Como é possível?”
E leu-o?
Sim. Escrevemos este livro de forma um pouco secreta em Abu Dhabi, eu e Juan Carlos, mas antes da publicação leu-o muito pouca gente, e o meu pai foi um deles. Preciso que me valides isto!, disse-lhe (risos)
Há uma certa nostalgia desta antiga geração que procurava compromissos, que apesar de todas as diferenças logravam convergir?
Hoje há mais polarização mas menos diálogo. Prevalecem os insultos, não há conversa construtiva, Vejo-o muito em Espanha quando lá vou. Toda a gente se insulta e ninguém pensa no país. Penso que a geração anterior tinha esse bem comum na cabeça, pensavam no país, havia compromisso. Não para interesse pessoal mas nacional. E havia respeito, claro.
Acredito que Juan Carlos seja espectador atento do que se passa no mundo, desde logo em Espanha. Preocupa-o mais a deterioração da monarquia ou da democracia?
Não são assim tão diferentes porque a monarquia é garante da constituição.
No caso espanhol de forma mais evidente, sim, apesar de não serem a mesma coisa.
Sim, estão ligados. Ele estava certo de que a democracia era uma coisa indestrutível, que ia durar para sempre, e que o mundo e o progresso iam conduzir naturalmente a uma evolução democrática. Deve ser muito duro teres passado a tua vida a construir uma democracia, e chegares aos 88 anos e veres que se passa o oposto, que há quem queira derrubar a democracia, que muitos jovens não acreditam nos valores democráticos e que o populismo está a arrasar por todos os lados. Tudo isso te fará questionar.
Falou dos jovens. Juan Carlos não tem qualquer ligação com a sua neta Leonor, herdeira da coroa.
Não, com ela não há relação. Tem relação com todos os outros netos mas não com ela.
Há uma cerca sanitária em torno do atual monarca e da futura rainha?
Sim, há ali uma bolha. A coroa é uma questão de transmissão. Bom, tenho a certeza que Leonor estará muito bem preparada, informada, mas é verdade que também há uma transmissão histórica que neste caso não é passada, enfim…
O emérito admitiu que esta obra é sobretudo para ser lida no futuro. De certa forma Juan Carlos escreve este livro como forma de passar essa herança à neta, não podendo falar de viva voz?
Sim, era muito importante para ele escrever para os jovens, deixar o seu testemunho.
Como é que vai convencer a tal geração tik tok a ler este volume de…
500 páginas!
Vai ter que colocar Juan Carlos a fazer vídeos no tik tok.
(ri-se). Olhe que no audio book é ele que lê a introdução e o final. Nós pertencemos mesmo a uma velha geração. O escritor era valorizado. Agora está tudo num vídeo de sete segundos no tik tok. Mas em alguma parte tentará deixar o seu testemunho.
É curioso porque a ideia original do livro partiu do xeque Mohamed bin Zayed Al Nahyan. Porquê?
Sim, quando eu cheguei Juan Carlos já tinha pensado muito na ideia. Disse-me que o xeque tinha sugerido isso e que sabia que era boa ideia deixar o seu testemunho, que tinha tempo para se dedicar a isto agora.
Acusam-no de vitimização, de ajuste de contas. Que pretendia essencialmente?
Queria ser compreendido. Sentia que lhe tinham tirado tudo incluindo a sua própria história.
Tinha claro o que queria incluir e excluir na obra?
Tinha que falar de tudo, do bom e do mau.
Mas não fala muito do mau. Há muitas omissões.
Mas fala da doação da Arábia saudita, de algumas comissões não cobradas, talvez não entre em detalhes.
E curiosamente não nomeia nenhuma das mulheres que fizeram parte da sua história, tirando a rainha Sofia.
Sim, e isso assumo totalmente. Pensámos ambos que este livro não era apenas para os espanhóis e em França ninguém quer saber do nome da fulana a ou b. As amantes não são pessoas relevantes que vão ficar na história. Não achámos que fosse útil entrar por aí. Isto é sobretudo um testemunho histórico.
Mas os leitores não quereriam saber afinal quem é a mulher da sua vida, depois de tantos nomes e especulação?
A mulher da sua vida continua a ser a rainha Sofia, completamente. Quando fala dela é uma coisa séria, é “a minha rainha”. Tem muito carinho, sempre preocupado, a querer saber dela. Casaram-se muito jovens, com vinte e poucos anos, é uma vida.
E no entanto não se veem atualmente.
Não, agora não, mas falam por telefone. Ela não quer chatear o filho, ele também não quer afetar a coroa, enfim.
Já sabemos que come às horas espanholas. Como são os seus dias em Abu Dhabi?
Continua a fazer a ginástica de manhã para poder continuar a fazer as suas regatas, apesar dos seus problemas de mobilidade. Lê toda a imprensa espanhola portanto está a par de tudo. Tem os seus encontros com amigos, e andou a seguir os Jogos Olímpicos.
E segue a atualidade política?
Uf, isso sempre. Comenta muito a política. No fim de contas, a política é como uma droga. Quando passaste tantos anos metido em tudo continuas a sentir-te envolvido em tudo.
Como mantém a sua vida lá, com a sua fortuna pessoal? [segundo estimativas do The New York Times em 2014, quando abdicou do trono, a fortuna de Juan Carlos ascendia a cerca de 1,8 mil milhões de euros]
Ele não tem fortuna pessoal, ele é um convidado do xeque.
Para alguém censurado por ter beneficiado de presentes, ofertas, não é uma imagem pouco abonatória nestes últimos anos, voltar a depender de terceiros?
Também há assuntos delicados, que metem interesses do Estado. Ele continua a ser rei de Espanha para todos os efeitos, se algum dia a Espanha tem um problema diplomático ou há uma guerra na zona, como será? Mas ele foi para lá achando que ia ficar três meses apenas, não é o mesmo que ser convidado cinco anos.
Precisamente.
Ele não imaginava que lá ficasse tantos anos…
Sabe ou sente que vai morrer ali?
Não sei, nem ele sabe bem. Pelo menos por agora ninguém lhe abre a porta para voltar para Espanha.
Mas se o telefone tocasse com uma proposta nesse sentido, pensa que voltaria?
Claro, mas ele quer voltar à sua casa, que é Zarzuela. Por agora essa porta está fechada.

Falamos do trabalho que dá a Espanha em vida mas e como será na morte? Acredita que será ainda mais controverso?
Espero que o enterrem em Espanha. O Escorial está cheio, mas não sei bem…
Será certamente uma questão sensível e ao nível do Estado.
Sim, seguramente uma questão de Estado. O filho deverá fechar esta questão. Se os espanhóis se dão conta de que morre sozinho em Abu Dhabi penso que dará uma imagem muito dura do seu filho. Percebo que tentem proteger a coroa mas humanamente não vai ser fácil…mas bom, são questões de reis, de Estado.
Penso no caso de outras monarquias a braços com o escândalo, como a inglesa e o caso de André, por exemplo.
Mas esse é um problema enormíssimo, nem vamos comparar (ri-se).
Mencionava sobretudo para saber como é que Juan Carlos tem seguido essas outras crises.
No caso do André ainda não comentámos, mas lembro-me que quando foi ao enterro da rainha Isabel II, sua prima, disse ao filho: “Estás a ver? Apesar dos problemas a família deles está toda unida”. Mas a história da coroa espanhola é mais frágil.
No livro partilha várias peripécias, como o histórico discurso após a tentativa de golpe de Estado em que não usou as calças da farda militar, ou os passeios de moto à noite por Madrid, totalmente incógnito.
É ótimo, não é? Temos a figura pública, muito simpática, mas depois também um rei que na verdade só queria comer churros ao domingo com a família como toda a gente. É muito comovente.
Sentiu alguma inocência excessiva em alguns casos? Recordo-me por exemplo de contar que a sua filha Elena é batizada com este nome não pela afinidade com a Grécia, país de origem materna, mas em homenagem a uma antiga paixão de Juan Carlos.
É linda essa história.
A rainha Sofia achará linda?
Era uma coisa platónica com a filha do conde de Paris. Não sei, choca-a? Ele é muito honesto a contar as coisas. É uma pessoa que cumpre. Quando diz que vai fazer uma coisa, faz mesmo, e faz o que diz. Não há muitos espanhóis assim. É muito direto a falar.
E fala, e sonha em francês, a sua primeira língua.
Sim, e é uma pessoa que se ocupa muitos dos outros.
Diz que podia ter sido um médico.
Verdade. É raro. Imaginamos que um rei seja muito egocêntrico e que todos tenham que estar à sua volta mas não, é ele que cuida dos outros.
Como deseja ser recordado?
Como o homem da constituição, que deu a Espanha o período mais longo e próspero da sua história.
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