Onze mil euros.Não para reforçar uma urgência hospitalar. Não para apoiar uma escola pública sem psicólogos. Não para pagar horas extraordinárias a quem segura o Estado real.
Onze mil euros para maquilhagem e cabelos.
É oficial. É contratual. É “imagem institucional”, e é sobretudo, um retrato perfeito da bolha.
Enquanto o país conta trocos no fim do mês, o poder conta pinceladas de pó compacto antes de uma conferência de imprensa. Enquanto milhares fazem contas ao supermercado, alguém achou razoável fazer contas à base matte que reduz o brilho na testa ministerial.
O problema não é a maquilhagem.
É a inconsciência.
A política portuguesa vive numa estranha dissociação cognitiva: pede contenção aos cidadãos e pratica cosmética institucional para si própria. Fala de sacrifícios, mas investe na aparência. Fala de proximidade, mas opera como se estivesse num estúdio de televisão permanente.
E depois perguntam-se por que cresce o ressentimento.
Querem mesmo saber?
Porque cada euro destes é munição entregue embrulhada com fita vermelha ao discurso de André Ventura.
Porque cada decisão destas valida a narrativa do Chega.
Porque cada gesto destes grita “eles vivem noutro mundo”.
E não adianta vir com tecnicalidades: “São 50 sessões ao longo do ano”, “é para garantir qualidade de imagem”, “é prática comum”.
Prática comum onde? Em Hollywood? Em campanhas publicitárias?
Estamos a falar de governação, não de casting.
A função de um ministro é decidir. Não é parecer bem iluminado.
A credibilidade não se compra com cabeleireiro. Conquista-se com coerência.
Há uma arrogância subtil nisto tudo. A arrogância de quem acredita que a indignação popular é exagero, que “isto é só ruído”, que “o valor é residual no orçamento”.
Residual no orçamento? Talvez.
Explosivo na perceção pública? Sem dúvida.
A política não morre por grandes escândalos. Morre por pequenas evidências repetidas de desconexão.
E este é um exemplo clínico: enquanto se discutem rendas incomportáveis, impostos asfixiantes, serviços públicos em tensão, a prioridade simbólica passa por uniformizar madeixas antes de um microfone. É uma espécie de estética do Titanic: a orquestra afinada enquanto o convés inclina.
E depois espantam-se com as urnas.
Espantam-se quando uma parte do país vota por raiva.
Espantam-se quando o discurso simplista ganha terreno.
Espantam-se quando a confiança institucional se evapora.
Mas a confiança não evapora sozinha.
Evapora com contratos destes.
Evapora com decisões que podem ser legais, mas são politicamente desastradas.
A extrema-direita não cresce apenas pelo que diz. Cresce pelo que lhe oferecem. Cresce quando o sistema parece frívolo. Cresce quando o cidadão sente que há dois mundos: o das dificuldades reais e o da maquilhagem oficial.
E não, isto não é moralismo barato. É leitura política básica.
Quem governa tem o dever acrescido de ser exemplar, não apenas na ética penal, mas na sensibilidade simbólica. Num tempo de tensão social, cada gesto é uma mensagem. E esta mensagem é péssima.
Podiam ter escolhido não fazer.
Podiam ter percebido que o custo político ultrapassa largamente o custo financeiro.
Podiam ter entendido que governar também é abdicar de pequenos confortos.
Mas não. Preferiram a espuma da imagem.
O problema é que não há maquilhagem que esconda um erro de julgamento político.
Não há laca que fixe credibilidade.
Não há corretor que apague a sensação de distância.
E assim se alimenta o ciclo: decisões pequenas, indignação acumulada, voto de protesto, choque moral, nova indignação.
Onze mil euros podem ser pouco numa folha de Excel, mas na psicologia coletiva de um país cansado, é muito.
Porque os onze mil euros são nossos .