Mais de uma semana após a segunda volta das eleições presidenciais, multiplicam-se as interpretações criativas sobre o significado do resultado. Há quem veja nele um feito histórico; há quem o apresente como prova de vida de uma força política; e há quem insista em lê-lo como confirmação da inevitabilidade de outra força política vir a governar.
No entanto, antes de entrarmos no campo das narrativas, vale a pena fazer o exercício que menos vezes se faz: olhar para os números, apenas para os números, sem espuma nem dramatização.
E quando se olha para os números, uma conclusão emerge com clareza: a segunda volta não mostrou força acrescida de nenhum dos candidatos. Mostrou limites. De um dos candidatos, sim, mas sobretudo dos eleitores.
Sobretudo, revelou os limites dos eleitores moderados, do centro e do centro-direita, que preferiram maioritariamente votar num candidato socialista, que esteve muito longe de os entusiasmar, do que votar em André Ventura.
A prova está no facto de, na segunda volta, a diferença entre candidatos ter aumentado, e muito, em vez de ter diminuído.
Num sistema de duas voltas, a lógica é simples: o candidato que ficou atrás tenta crescer mais que o outro, captando os votos dos candidatos que não passaram e que representaram a área política mais próxima da sua. Em condições normais, um candidato de direita, numa segunda volta contra um candidato de esquerda, reduziria a distância e tornaria a disputa competitiva.
Desta vez aconteceu o contrário. Na primeira volta, António José Seguro obteve 1 755 764 votos e André Ventura obteve 1 326 942, uma diferença de 428 822 votos. Na segunda volta, Seguro subiu para 3 505 846 votos e Ventura para 1 739 745. A diferença entre ambos aumentou para 1 766 101 votos. Ou seja, Seguro cresceu mais de quatro vezes em relação ao seu adversário, quase duplicando a sua votação, enquanto Ventura registou um crescimento bastante menor.
E quando a diferença aumenta tanto entre voltas, isso significa apenas uma coisa:
o candidato derrotado que chegou à segunda volta não conseguiu alargar suficientemente a sua base eleitoral. Quando isto acontece numa segunda volta nacional, revela incapacidade de conquistar novo eleitorado, que é precisamente o teste central de uma segunda volta.
Além disso, atendendo aos resultados da primeira volta, nem sequer podemos dizer que as circunstâncias não eram favoráveis a André Ventura. Bem pelo contrário.
Para avaliar o potencial de crescimento de um candidato numa segunda volta, basta olhar para os votos disponíveis no espaço político ideologicamente mais próximo do seu.
Entre os que se ficaram pela primeira volta, os candidatos que representaram de forma expressa a direita liberal, conservadora ou o centro-direita reuniram 1 540 736 votos. Se adicionarmos a estes votos apenas metade do total de votos obtidos por Henrique Gouveia e Melo (695 244 votos), então o total estimado de votos no campo político da direita, disponíveis na 2ª volta, seria de 1 888 358 votos.
André Ventura aumentou apenas 412 803 votos da primeira para a segunda volta.
Por isso, a conclusão é factual: ficou mesmo muito abaixo do valor mínimo expectável. Ou seja, nem em cenário binário, cenário esse que nunca se verificará em legislativas, André Ventura conseguiu consolidar eleitorado no campo político mais próximo ao seu.
Ainda assim, André Ventura e o Chega teimam em interpretar o resultado das presidenciais como se tivessem sido legislativas. E, pior, tentam vendê-lo como vitória.
Mas também importa olhar para o outro lado. Entre a primeira e a segunda volta, houve um salto nítido de participação para António José Seguro, mas é evidente que esse crescimento não equivale a fidelização.
Numa segunda volta, que são, por natureza, eleições binárias, a expansão de votos face ao obtido numa primeira volta resulta, em grande medida, da agregação dos que rejeitam o adversário e dos que se sentem compelidos a escolher “o menos mau”. Ler esses votos como adesão ao candidato é dar um passo maior que a perna. Mas ler esses votos como adesão ao campo político que representa é simplesmente desonesto.
Se o eleitor vota por exclusão, não entrega um mandato em branco. Apenas fecha uma porta. E o que a eleição revelou foi uma preferência por equilíbrio e previsibilidade, não um endosso a mudanças na atual configuração política nacional. Quem, a partir daqui, quiser reclamar “licença” para redesenhar o país, está a projetar no eleitorado aquilo que o eleitorado não disse.
Nas legislativas, o eleitor não vota “contra”; vota “em”. E quando a escolha deixa de ser binária, retornam as clivagens tradicionais. O mesmo eleitor que, nas eleições presidenciais, escolheu por exclusão, nas legislativas voltará a dispersar por preferência.
Se esta eleição permite perceber algo, é isto: os limites não foram apenas dos candidatos. Foram também estabelecidos pelos eleitores.
O eleitorado português revelou aversão aos extremos e ao radicalismo, afirmando nas urnas uma clara preferência pela moderação e pelo respeito institucional.
Mas não podemos ignorar que o resultado também revelou que continua a haver protesto. Que existe um apetite por mudança. Aliás, o crescimento, ainda que limitado, de André Ventura na segunda volta demonstra isto mesmo: que há um eleitorado que, não sendo fidelizado à extrema-direita, não quer regressar ao imobilismo. Que rejeita uma visão socialista da sociedade e que anseia por mais desenvolvimento.
Em resumo, através destas eleições, o povo português estabeleceu um limite às narrativas de ambos os lados: os que vendem o resultado como um prenúncio de liderança inevitável do país e os que o vendem como o início de viragem na configuração política nacional.
Se há mandato claro que o eleitorado emitiu, é o da estabilidade.
A segunda volta mostrou: limites. Dos candidatos, sim. Mas, sobretudo, dos eleitores que, na sua esmagadora maioria, recusaram ser puxados para os extremos e exigem, com o seu voto prudente, soluções sólidas, previsíveis e credíveis.
Mas, desengane-se quem pense que esses limites são intransponíveis. Que a paciência do eleitor moderado não tem ela própria limites. E, por isso, se o sistema político quiser tirar desta eleição uma lição útil, que seja esta: quem vencerá o futuro não é quem gritar mais alto hoje, mas quem ouvir melhor o eleitor moderado, que exige estabilidade, mas, principalmente, anseia a transformação do país.
Tudo o resto são narrativas. E as narrativas podem mobilizar emoções, mas não resolvem problemas reais, não dão respostas ao país e não melhoram a vida de ninguém.