O Estado, na sua dimensão de decisor, é um dos principais fatores de atraso na concretização dos objetivos – que o próprio assume e defende – no âmbito da transição energética em Portugal. E neste contexto, a recente nomeação de um enfermeiro para a Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis (EMER 2030) não é um acontecimento isolado. É antes um reflexo, quase sintomático, de uma máquina administrativa pesada, fragmentada e incapaz de alinhar a iniciativa política com a execução operacional. Aliás, revela um desalinhamento total.
Quando, em março de 2024, a criação da EMER 2030 foi aprovada pelo Conselho de Ministros, a mensagem era clara: acelerar o licenciamento, desbloquear os processos, cumprir as metas do Plano Nacional da Energia e Clima (PNEC) e dar previsibilidade aos investidores. Foi o claro reconhecimento da sobrecarga da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG).
Dois anos depois, adensam-se os experimentalismos e as incongruências enquanto os processos continuam atrasados. A prometida plataforma digital continua sem funcionar em pleno e a transposição integral da diretiva europeia RED III permanece por concluir. Como se isto não bastasse, assusta ouvir a Senhora Ministra do Ambiente apontar a “extinção antecipada” da EMER 2030, argumentando que “cumpriu o seu objetivo”.
A aceleração, desejada e pretendida, no tratamento dos processos, deu lugar à aceleração do caos. Isto, porque embora se tenha anunciado uma simplificação administrativa, estamos a acrescentar camadas de governação e a (sobre)carregar a máquina. Ora, a transição energética não é – nem pode ser – um assunto somenos. Pelo contrário, deve ocupar a centralidade da política económica, industrial e climática do presente e do futuro. Não há outro caminho para afirmar a competitividade do país, para atrair investimento ou, por exemplo, para honrarmos os compromissos europeus.
Os promotores já não esperam por um licenciamento. Desesperam. Portugal tem condições excecionais para liderar nas renováveis, no armazenamento e na descentralização energética através das Comunidades de Energia Renovável. Pode reforçar a autonomia do Sistema Elétrico Nacional, reduzir dependências fósseis e criar uma nova base industrial.Mas tudo isto pode estar comprometido se o Estado, através dos seus decisores, continuar a ser a inércia do sistema.
É preciso desfazer este paradoxo do Estado, que nos quer ver acelerar… quando ele próprio desacelera.