Grande parte da teoria política moderna parte de um pressuposto implícito: o de que as instituições moldam o comportamento humano. Desenhamos regras, criamos sistemas de controlo, estabelecemos equilíbrios de poder e esperamos que, dentro dessa arquitetura, os cidadãos ajam de forma previsível e racional.
Mas há um problema raramente colocado de forma frontal ou que é frequentemente esquecido e que é este: os seres humanos não evoluíram dentro de democracias liberais.
A democracia não é o estado natural da espécie humana. É uma invenção recente que exige autocontrolo psicológico constante.
Se comprimirmos cerca de 300 mil anos de existência do Homo sapiens num único dia de 24 horas, a agricultura surgiria nos últimos minutos antes da meia-noite. O Estado moderno apareceria nos últimos segundos. E a democracia liberal – ou um esboço dela – ocuparia talvez dois segundos nesse relógio imaginário.
Durante quase todo o “dia”, os nossos antepassados não votavam. Não deliberavam em parlamentos. Não discutiam pluralismo ou separação de poderes. Viviam em pequenos grupos expostos a ameaça permanente: competição intergrupal, escassez de recursos, risco de violência, doenças imprevisíveis.
Nesse mundo, sobreviver dependia de coordenação rápida, lealdade interna forte e liderança clara. Em situações de perigo, hesitação podia ser fatal. A disciplina coletiva não era uma preferência ideológica. Era uma condição de sobrevivência.
E é aqui que começa o problema moderno.
Quando as pessoas percecionam ameaça – seja económica, cultural, sanitária ou militar – ocorre um padrão que se repete em diferentes sociedades e épocas. Aumenta o apoio a lideranças fortes. Reforça-se a preferência por ordem e hierarquia. Diminui a tolerância ao desvio. Cresce a desconfiança em relação ao “outro”.
Não é um fenómeno exclusivamente ideológico. É, fundamentalmente, psicológico.
A história recente oferece exemplos claros. Crises económicas profundas, ataques terroristas, pandemias globais ou fluxos migratórios intensos tendem a alterar rapidamente o clima político. Não porque os cidadãos “deixem de acreditar” na democracia de um dia para o outro, mas porque determinados mecanismos mentais se tornam mais salientes quando o ambiente é percecionado como instável.
A política institucional pode ser moderna. A mente política não é.
As Democracias exigem tolerância à ambiguidade, confiança em regras abstratas e aceitação de desacordo persistente. Exigem que suportemos incerteza sem procurar soluções imediatas de controlo centralizado. Exigem que contenhamos impulsos punitivos quando nos sentimos ameaçados.
Nada disto é impossível. Mas nada disto foi o ambiente dominante da nossa evolução.
Isto não significa determinismo biológico. Não estamos condenados ao autoritarismo. Significa algo ainda mais desconfortável, isto é, sob determinadas condições ecológicas e sociais, certas disposições tornam-se mais prováveis de serem ativadas.
Se a perceção de ameaça aumenta, a preferência por liberdade pode ceder lugar à preferência por segurança. O pluralismo pode ser visto como fragilidade. A diversidade pode ser reinterpretada como risco.
E aqui surge a pergunta essencial que é esta: será que estamos a desenhar sistemas políticos como se os seres humanos fossem criaturas que evoluíram em estabilidade permanente?
A democracia não falha apenas quando as instituições se deterioram. Falha quando a insegurança se torna crónica. Falha quando o medo domina o enquadramento público. Falha quando o ambiente psicológico deixa de ser compatível com as exigências do pluralismo.
Talvez a surpresa não devesse ser a ascensão periódica de líderes fortes em momentos de crise. Talvez a surpresa devesse ser a nossa expectativa de que isso não aconteça.
A política moderna é recente. A natureza humana é antiga.
Se quisermos proteger a democracia, precisamos de compreender essa assimetria. Não para justificar tendências autoritárias, mas para as antecipar. Não para normalizar impulsos antigos, mas para construir instituições que partam de uma visão realista da condição humana.
Ignorar as raízes evolutivas do comportamento político pode ser confortável. Mas conforto não é estratégia.
A política não começa nos parlamentos. Começa na nossa psicologia.
E essa é muito anterior à política.