A propósito das notícias do Observador sobre o macaco Punch (sendo a mais recente “Punch, o macaco bebé que foi abandonado pela mãe, encontrou conforto num peluche. E tornou-se viral”) é importante explicar o que já conseguimos aprender com este primata: o peluche, mais do que um objeto, tornou-se um substituto simbólico de um abraço maternal que falhou.
A rejeição que ditou o início da história
O pequeno macaco Punch nasceu no zoológico da cidade de Ichikawa, no Japão, em julho de 2025, e logo nos primeiros dias de vida foi rejeitado pela mãe. Um gesto que não deixamos de classificar como cruel, mas que entre os primatas encontra justificação em causas profundamente complexas, como a inexperiência materna ou as condições ambientais adversas.
Se o contexto não é inédito entre primatas, ou mesmo noutras espécies animais, o que o torna surpreendente é como o bebé macaquinho tentou resolver a situação, tornando-se numa história que tocou (e está a tocar) milhões de pessoas no mundo inteiro: Punch fez uma amizade improvável com um peluche de orangotango, vendido no Ikea, e que nunca larga.
Perante o repúdio materno, Punch encontrou no peluche não um brinquedo, mas sim um sinal de pertença. Enquanto os macacos recém-nascidos se aninham junto às mães para sentir o calor, ouvir a respiração e aprender os primeiros ritmos do mundo, Punch ficou sem essa segurança primordial. Talvez Punch soubesse, intuitivamente, aquilo que a ciência nos confirma: sem vínculo, não há sobrevivência possível. Nem para os humanos, nem para os animais.
O vínculo dá segurança e organiza o caos
Os animais vivem de laços. Um cão que aguarda à porta, um cavalo que reconhece a voz, um gato que escolhe o colo são todos exemplos de que a ligação não é mero adorno da existência, é a sua base. O vínculo oferece segurança, regula o medo, organiza o caos. Para muitos animais, a ausência de ligação é uma sentença silenciosa. Para nós, também.
A relação que estabelecemos com os animais não é apenas companhia. É espelho e é abrigo. Ao tocar o pelo quente de um animal, algo nos faz abrandar. O ritmo cardíaco desce, a respiração encontra cadência. Mas, mais do que a fisiologia, há uma transformação invisível, na qual aprendemos a responsabilidade, a empatia, a presença. Um animal não se vincula por conveniência; vincula-se por reconhecimento. E quando esse reconhecimento é mútuo, nasce um território comum, onde a linguagem é dispensável.
Na década de 50, do século passado, o psicólogo Harry Harlow demonstrou, de forma tão perturbadora quanto esclarecedora, que o vínculo supera a função. Os seus estudos com macacos demonstraram que as crias preferiam a “mãe” de pano macio, mesmo quando era a estrutura metálica que fornecia alimento. O conforto, o contacto e a intenção de proximidade eram mais poderosos do que a mera satisfação da fome. A experiência foi controversa, mas o ensinamento ainda ecoa nos dias de hoje: precisamos de calor, antes de precisarmos de utilidade.
Também outro psicólogo aprofundou a teoria do vínculo. John Bowlby lembrou-nos que a segurança emocional molda a arquitetura inteira da personalidade. Não é apenas o que recebemos, mas a intenção de nos ligarmos que constrói a base da confiança. As relações instrumentais alimentam o corpo, mas as relações intencionais alimentam o ser.
É aqui que os animais voltam a ensinar-nos. Um vínculo estabelecido apenas para cumprir uma função, como guardar a casa, caçar, competir, é frágil. Mas quando há intenção de encontro, quando o humano se dispõe a ver o animal como sujeito e não como ferramenta, algo floresce. E esse florescimento não é unilateral. A convivência com animais reduz a solidão, melhora indicadores de saúde mental e reforça a sensação de propósito. Contudo, talvez o maior benefício seja invisível: reaprendemos a vincular-nos.
Compaixão: a lição mais importante que Punch nos deixa
Sem o vínculo, o mundo é um lugar mais hostil. No caso de Punch, não se trata apenas de um momento viral. A história cativou justamente porque nos confronta com a universalidade do anseio por conexão. Estar só, enfrentar a vida sem um toque que nos transmita “estou aqui”, é uma experiência dolorosa para qualquer ser social. Seja humano ou não. O peluche do macaco é mais do que um objeto, é um substituto simbólico de um abraço que falhou. É um sinal de que, quando o natural nos falta, a intenção humana de proporcionar aconchego pode fazer uma diferença inestimável.
Uma vez mais, prova-se que não somos máquinas programadas só para sobreviver, somos, acima de tudo, criaturas de relação. E é na pele do outro – no abraço que nos encontra – que aprendemos a ser. Seja um peluche num zoológico, seja um encontro entre espécies, o vínculo é o que nos salva. Vincular-se é um ato de coragem. Para um macaco órfão que procura o pano macio, para um cão que espera regressos, para um humano que decide amar um animal sabendo que a vida dele será mais breve.
Na sequência da vinculação de Punch com o peluche surge um final ainda mais inusitado: uma macaca real adota Punch, o que é algo incomum entre os primatas. Punch e o peluche geraram compaixão na sua nova mãe, deixando milhões de nós comovidos. É por isso muito provável que este bebé macaquinho nos tenha ensinado, sem se aperceber, a mais importante lição: quando a vida nos abandona a um canto, a bondade de um gesto pode ser o começo de outro, de tudo o que importa.
Se tem alguma sugestão ou tema que deseje ver abordado pelo Provedor Municipal dos Animais de Lisboa, Pedro Emanuel Paiva, escreva para pedro.paiva@cm-lisboa.pt .