A discussão recente sobre a eventual criação de mais um centro de cirurgia cardiotorácica no Porto, a menos de 10 quilómetros de duas unidades altamente diferenciadas e reconhecidas no país e no estrangeiro pela sua qualidade assistencial, é um espelho nítido do desafio estrutural da saúde em Portugal: confundimos desenvolvimento com acumulação de tarefas e integração com concentração administrativa.
Portugal é um país pequeno na geografia e na população, e, consequentemente, no número de doentes que requer cuidados altamente especializados e na distância em que os obtêm a partir da sua residência. Em áreas como a cirurgia cardiotorácica, onde a diferenciação técnica, a experiência acumulada e o volume crítico de procedimentos são fatores decisivos para qualidade e segurança, multiplicar centros não significa melhor acesso. Significa dispersão de recursos, perda de escala, duplicação de investimentos e, demasiadas vezes, piores resultados clínicos.
E aqui Portugal revela outra pequenez: a falta de visão. Não precisamos de mais edifícios. Precisamos de mais rede.
A evidência internacional é clara: sistemas de saúde eficientes constroem-se sobre coordenação, continuidade e integração. Estes princípios vão muito além da proximidade física entre unidades ou da fusão de conselhos de administração. Traduzem-se em reforçar os centros altamente diferenciados com mais equipas e maior capacidade instalada, garantir uma referenciação ágil e transparente, investir em transporte inter-hospitalar eficiente que encurte distâncias reais e contratualizar com base em resultados clínicos, e não apenas em produção administrativa. O que deve ser financiado não é a existência de estruturas, mas o valor que produzem.
Integrar cuidados pressupõe responsabilidades claras, sem zonas cinzentas de disputa institucional. Significa também partilhar informação clínica em tempo real, permitindo decisões rápidas e seguras em qualquer ponto do percurso assistencial. Implica articular equipas multidisciplinares que acompanham o doente ao longo do tempo, garantindo que não “muda de doença” quando muda de porta. E exige capacitar o doente e a família, reconhecendo que o tratamento não se faz nas instituições, mas na vida concreta das pessoas.
Integrar cuidados é, antes de tudo, um compromisso ético com o conjunto, não um palco para protagonismos individuais ou institucionais.
Nos últimos anos, porém, consolidou-se um discurso que confunde integração com centralização político-administrativa. A criação das ULS – Unidades Locais de Saúde – poderia ter sido uma oportunidade para aproximar cuidados entre os serviços e com os doentes. Em demasiados casos, tornou-se apenas mais um campeonato dentro e fora da instituição para decidir quem lidera, quem ganha visibilidade ou quem precisa de se afirmar desenhando identidades próprias contra os vizinhos. Num instinto básico, mata-se para não se morrer.
A competição entre unidades públicas que partilham o mesmo orçamento, servem a mesma população e respondem ao mesmo SNS é um contrassenso. Ninguém ganha quando um hospital procura afirmar-se à custa de outro ou quando invoca a organização para recusar cuidados. Quem perde é sempre o doente. E num SNS geral e universal, quando perde o doente, perdemos todos: pagamos mais e recebemos menos.
Uma rede forte é aquela que potencia os centros altamente diferenciados, aproveita a excelência instalada e investe no que melhora percursos, não no que alimenta vaidades.
O debate público sobre modelos de organização em saúde tem sido marcado por ruído e reivindicações localizadas, por vezes amplificadas por grupos que falam mais alto do que representam. Instituições que deveriam ser garantes de rigor técnico e ponderação têm sido, demasiadas vezes, capturadas por dinâmicas corporativas que obscurecem as decisões. Faltam visão estratégica, prudência e sobriedade. Falta, muitas vezes, a capacidade de colocar o interesse do doente acima de agendas internas nem sempre transparentes.
Antes de avançar para a construção de mais um centro, importa saber se os existentes dão resposta, se há evidência de insuficiência estrutural da rede, qual o impacto da fragmentação na qualidade e nos resultados clínicos, e qual o custo de abrir um novo centro comparado com reforçar os que já existem. Em vez disso, avança-se, uma vez mais, para a solução antes de se compreender o problema, esperando resultados diferentes com o mesmo método, um erro recorrente em políticas públicas.
Criar um centro de raiz implica custos muito superiores ao reforço dos existentes, recentemente organizados na Rede Nacional de Referenciação em Cardiologia e Cirurgia Cardíaca, aprovada em 2024 e ainda em fase de expansão. Mais um centro é, assim, uma falsa solução para um problema que não existe e representa desperdício de energia política e institucional que o SNS não se pode permitir.
Portugal precisa de sinergias, não de duplicações. De coordenação, não de competição. De projetos que somem, não de estruturas que se contrapõem.
No final, o que conta não é a atividade produzida nem os egos satisfeitos pelo mapa. É o resultado real que os serviços geram na vida das pessoas. E, para isso, é preciso tratar bem os doentes numa rede coesa, inteligente, integrada e verdadeiramente resolutiva, capaz de potenciar os recursos existentes para dar mais anos à vida e mais vida aos anos.