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Sabemos, mas não fazemos: a falta de ambição moral 

Temos todo tipo de pontos de vista sobre os mais variados assuntos, mas geralmente fazemos pouco com eles. 

Inês Marques
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Dois meses dentro de 2026 e muitas das resoluções de ano novo já ficaram pelo caminho: ir ao ginásio, mudar de trabalho, organizar melhor o tempo. A lista repete-se todos os anos, com pequenas variações. Mas há uma pergunta que raramente entra nessa lista: a quem serve, no fundo, a nossa ambição?

Ambição costuma significar progresso pessoal. Escolhas mais saudáveis, uma promoção, mais estabilidade. E não há nada de errado nisso. Todos procuramos uma vida mais confortável e segura. O problema é que, muitas vezes, ficamos por aí. E raramente paramos para pensar como é que aquilo em que somos bons, aquilo que nos interessa e a ambição que já temos podiam ser usados para algo maior.

Entretanto, a realidade à nossa volta continua a avançar. Dados europeus mostram que fenómenos climáticos extremos estão a tornar-se mais frequentes e mais intensos no sul da Europa. Ao mesmo tempo, os resultados eleitorais recentes mostram um país a mudar, com novas forças a ganhar espaço e a influenciar o debate público.

Nada disto acontece “lá fora”. Acontece aqui. No mesmo espaço onde vivemos e tomamos decisões todos os dias. Ainda assim, é fácil sentir que estas questões pertencem a outros. Aos governos, às grandes empresas, às pessoas com mais poder.

Rutger Bregman chama isto falta de ambição moral: usar o nosso tempo e competências para contribuir para problemas maiores, como a crise climática ou a desigualdade. A versão mais conhecida é exigente, mudar de vida, de carreira, de prioridades, mas talvez a ambição moral não tenha de começar por aí.

O desafio pode ser mais próximo. Não mudar tudo, mas usar melhor o que já temos – o nosso talento, os nossos interesses e a ambição que já existe – e direcioná-lo de forma diferente. Trata-se de integrar impacto nas decisões que já fazemos, em vez de esperar por um momento ideal que nunca chega.

Existe quem tenha margem de escolha e, mesmo assim, não a use. Pessoas com formação, com acesso a oportunidades, com alguma estabilidade. Pessoas que podiam influenciar decisões no trabalho, apoiar iniciativas locais ou questionar práticas que não fazem sentido. E que, ainda assim, seguem no piloto automático.

Isto é desconfortável, mas é real. Porquê? Muitas vezes convencemo-nos de que não faz diferença. Que o problema é grande demais ou que alguém com mais poder há de resolver. E depois há um

hábito que conhecemos bem: apontar para o sistema. As falhas existem e são reais, mas quando essa explicação se torna automática, transforma-se numa forma confortável de não agir.

Só que as decisões do dia a dia contam mais do que parece. No trabalho, há espaço para influenciar mais do que pensamos. Muitas vezes, não é uma questão de capacidade, mas de direção. Questionar processos que não criam valor, propor soluções mais eficientes, apoiar projetos com impacto real. Uma decisão diferente pode influenciar equipas, cadeias de valor e, em alguns casos,

setores inteiros. No setor social, isto é ainda mais evidente. Muitas organizações dependem de voluntários qualificados para cumprir a sua missão, com o contributo de algumas horas por mês pode ter um impacto desproporcional, precisamente porque há escassez de recursos.

No consumo, cada escolha reforça um modelo: decidir onde gastar dinheiro tem impacto direto na economia local e nos negócios que sobrevivem. Na vida cívica, o mínimo não chega. Votar é importante, mas não chega. Acompanhar um tema, perceber decisões locais, participar quando possível. Pequenos níveis de envolvimento, quando consistentes, criam pressão e influência.

Nada disto é extraordinário – e é exatamente esse o ponto. A mudança raramente começa com gestos grandes: começa com padrões, decisões pequenas que se repetem, com pessoas que fazem algo ligeiramente diferente e influenciam outras ao longo do tempo.

Observadorassocia-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.