Começou esta segunda-feira, 23 de fevereiro, o julgamento pelo homicídio de Eric Richins, de 39 anos, encontrado morto em casa na noite de 3 de março de 2022, no estado norte-americano do Utah. É a viúva, Kouri Richins, quem está sentada no banco dos réus, acusada de envenenar o marido com uma dose letal de fentanil.
O caso ganhou projeção nos Estados Unidos quando, um mês após lançar um livro infantil para ajudar os filhos a lidar com o luto, a mulher foi acusada do homicídio do marido. Kouri Richins foi detida a 8 de maio de 2023, pouco mais de um ano após a morte do marido.
Richins, agente imobiliária, ainda deu algumas entrevistas a meios locais a propósito da obra. Intitulado Are You With Me? (Estás comigo?, em tradução livre), o livro foi escrito para ajudar os três filhos a lidar com o luto. Na altura, as crianças tinham entre seis e dez anos. Ao programa “Good Things Utah”, a autora explicou que decidiu escrever o livro “para ajudar os filhos a compreender o que aconteceu”, dizendo que a morte de Eric Richins foi “um choque”.
E a ideia surgiu porque, na altura, não encontrava “nada” semelhante em livros infantis no mercado. “Não é porque ele [o pai] não está presente connosco fisicamente que a sua presença não está connosco. O pai ainda aqui está, só de uma maneira diferente”, citou a ABC4, num artigo após a detenção da mulher, em 2023.
Eric e Kouri Richins foram casados durante nove anos e viviam em Kamas, nos arredores de Salt Lake City, no Utah. A mulher foi acusada de homicídio agravado, tentativa de homicídio doloso, alegações falsas/fraudulentas a uma seguradora e falsificação. Kouri Richins declarou-se inocente. Em 2024, ao programa Dateline, do canal de televisão NBC, repetiu novamente que era inocente e que estava “ansiosa pelo julgamento”.
Os advogados de defesa da mulher, Wendy Lewis, Kathy Nester e Alex Ramos, emitiram um comunicado conjunto em que dizem que Kouri “esperou quase três anos por este momento: a oportunidade de um júri ouvir os factos deste caso, livre da narrativa dos procuradores que dominou as manchetes desde que foi detida”. “Agora o Estado deve provar as alegações além de qualquer dúvida razoável”, diz a defesa, que diz que “o que o público tem ouvido tem poucas semelhanças com a verdade”.
O processo de seleção dos jurados começou a 10 de fevereiro e o julgamento arrancou esta segunda-feira. É expectável que dure pelo menos até 26 de março, escreve a NBC News. A acusação já declarou que, mesmo que fique provado que a mulher cometeu o crime, querem a prisão perpétua e não a pena de morte.
A acusação refere que Kouri terá decidido matar o marido para ficar com o seu património, estimado em cerca de cinco milhões de dólares (4,24 milhões de euros), para evitar “o colapso financeiro”. Eric Richins teria também várias apólices de seguros de vida, que totalizariam mais de dois milhões de dólares (1,7 milhões de euros) — uma das apólices terá sido feita por Kouri Richins semanas antes da morte. A acusação considera que a viúva quereria ficar com estes ativos e recomeçar a vida com o amante.
Tudo começou na noite de 4 de março de 2022, quando o casal bebia cocktails no quarto para celebrar uma venda de uma propriedade.
De acordo com documentos do tribunal, a mulher preparou um moscow mule na cozinha, que depois levou para o quarto. Por volta das 21h30, Kouri Richins abandonou o quarto para dormir com um dos filhos, que estaria a ter um pesadelo. Quando voltou ao quarto, já por volta das três da madrugada, encontrou o marido frio — e já morto.
A CNN relata que o contacto para os serviços de emergência foi feito às 3h21. Quando os paramédicos chegaram, pouco tempo depois, notaram que o homem já estaria “morto há algum tempo”. Ainda foram feitas manobras de reanimação, mas o óbito foi declarado no local. A autópsia revelou que o homem tinha no organismo cinco vezes mais do que dose letal de fentanil.
Enquanto a mulher declarou que ligou imediatamente para a emergência, os procuradores referem que, através de um análise forense, concluíram que Kouri Richins desbloqueou o telefone seis vezes nos 15 minutos antes de pedir ajuda.
A defesa de Richins alega que terá sido o marido a obter o fentanil. No depoimento de Richins também é mencionado que o marido tomaria gomas com THC (tetrahidrocanabinol), o princípio ativo que é possível encontrar na canábis. A mulher desconfiava que teriam também fentanil. Mas Kouri não se lembra se, naquela noite, o marido comeu ou não alguma goma. As gomas foram analisadas e não foi possível encontrar a presença de fentanil.
A narrativa de que terá sido a mulher a adquirir o fentanil ganhou força com o depoimento de uma empregada de limpeza. A mulher testemunhou que, no início de 2022, Kouri Richins lhe terá pedido para comprar comprimidos com fentanil a um vendedor de droga. A mulher terá comprado “mais de 15 comprimidos” a 11 de fevereiro daquele ano, que posteriormente entregou a Kouri Richins.
Uns dias depois, no Dia dos Namorados de 2022, terá tentado envenenar o marido pela primeira vez. O homem terá ficado maldisposto depois de comer uma sanduíche preparada pela mulher. “Acho que a minha mulher me tentou envenenar”, disse Eric Richins a um amigo. O homem teve uma reação alérgica — ficou com urticária, injetou-se com uma EpiPen (caneta usada em reações alérgicas) e tomou um frasco de Benadryl, um anti-histamínico.
Segundo os procuradores, o fentanil e outros opióides podem gerar “pseudo-reações alérgicas”.
Apesar de haver amigos que descreviam o casal como “um par perfeito”, Kristi Richins confidenciou a um amigo, em dezembro de 2021, que se sentia presa no seu casamento e que estaria melhor se o marido estivesse morto, cita a CNN, a partir de documentos do tribunal.
No outono de 2020, o marido terá contactado um advogado para perceber como poderia excluir a mulher do acesso aos seus bens. “Eric Richins informou o seu advogado que queria proteger-se a curto prazo do abuso e uso indevido das suas finanças recentemente descoberto e em curso por parte da réu, e proteger os seus três filhos a longo prazo, garantindo que a réu nunca pudesse administrar os seus bens após a sua morte“, escreveram os procuradores.
O homem terá nomeado a irmã como gestora dos seus fundos e retirado a mulher da lista de beneficiários de um seguro de vida de 500 mil dólares (424 mil euros). No entanto, a mulher só descobriu esta exclusão já após a morte do marido.
[O acampamento mais importante do ano. O concurso de Miss com biquinis minúsculos. E o obscuro ritual tântrico em grupo. Ouça o quarto episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro]