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Paris, fevereiro de 2026: o Novo Mundo Energético

A Reunião Ministerial da AIE de 2026 marcou o fim de uma era de consenso otimista e o início de uma era de realismo geopolítico energético.

Antero Carvalho
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A reunião ministerial da Agência Internacional de Energia (AIE) que decorreu em Paris, em fevereiro de 2026, não foi apenas mais um encontro de cúpula entre ministros e líderes empresariais. Foi o espelho de um mundo que mudou, e mudou de forma irreversível. Para quem acompanha as cadeias de abastecimento globais e o impacto climático nos fluxos do comércio internacional, foi também um sinal de alerta que Portugal não pode ignorar.

Cinquenta e quatro países reunidos, empresas com uma capitalização de mercado combinada de 14 biliões de dólares presentes na mesma sala, e o resultado foi, sintomaticamente, um “Resumo da Presidência” em vez do habitual comunicado conjunto. Não houve unanimidade. Houve realismo, por vezes brutal.

O fim do consenso confortável

Durante anos, a narrativa dominante da transição energética assentou numa certeza partilhada: o mundo caminharia, de forma mais ou menos coordenada, para a neutralidade carbónica em 2050. Em Paris, essa certeza desmoronou-se publicamente. O Secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, descreveu o Net Zero como uma “ilusão destrutiva” e deu à AIE um ultimato de um ano para reformular as suas prioridades, sob pena de perda do financiamento e da participação americana.

Esta posição não é apenas retórica política de uma administração que sempre olhou com desconfiança para os acordos climáticos multilaterais. É a expressão de uma visão do mundo onde a energia é, antes de tudo, um instrumento de poder e de dominância geopolítica. Para a Europa, e concretamente para Portugal, esta fratura transatlântica coloca questões que vão muito além da diplomacia climática.

A resposta europeia foi, ela própria, reveladora de uma maturidade estratégica que nem sempre reconhecemos nos nossos parceiros. Em vez de um confronto aberto, os ministros europeus optaram por uma “diplomacia de segurança energética”, reenquadrando a descarbonização não como um imperativo ambiental, mas como a principal ferramenta de soberania nacional. A França, pela voz do ministro Roland Lescure, foi direta: sem petróleo próprio, a eletrificação e o nuclear são respostas estratégicas, não ideológicas. Esta distinção é fundamental para países como Portugal.

A “Era da eletricidade” e o que ela significa para Portugal

Um dos consensos técnicos mais relevantes de Paris foi a confirmação de que entramos definitivamente na “Era da Eletricidade”. A procura mundial de eletricidade deverá crescer 2,5 vezes mais rapidamente do que a procura total de energia até 2030, impulsionada pela eletrificação dos transportes, da indústria e, com peso crescente, pelos centros de dados e pela inteligência artificial.

Portugal encontra-se, neste contexto, numa posição estrutural privilegiada, que raramente soubemos valorizar devidamente. Com uma das matrizes de produção elétrica mais renováveis da União Europeia, com o Atlântico à nossa porta como fonte de energia eólica offshore praticamente inexplorada, e com uma tradição hidroelétrica sólida, o país reúne condições para ser muito mais do que um consumidor bem-comportado da transição energética. Pode, e deve, aspirar a ser um exportador líquido de eletricidade limpa para o mercado ibérico e, progressivamente, para o mercado europeu.

Mas isso exige investimento em redes. A AIE estimou ser necessário um aumento de 50% no investimento anual em infraestrutura elétrica até 2030. Portugal tem melhorado, mas o ritmo é insuficiente. As interligações elétricas com Espanha e França continuam a ser um estrangulamento crónico que nos impede de capitalizar a nossa produção renovável excedentária.

Os Minerais Críticos: Uma oportunidade que pode ser nossa

A Declaração Especial sobre Segurança de Minerais Críticos adotada em Paris é, porventura, o resultado mais concreto e mais relevante desta cimeira para países como Portugal. O lítio, o cobre, o cobalto e as terras raras tornaram-se o novo petróleo, o recurso que definirá a segurança energética do século XXI.

Portugal é o maior produtor europeu de lítio. Esta afirmação, que repetimos com orgulho nos relatórios institucionais, precisa de ser transformada numa estratégia industrial de Estado, não apenas numa concessão mineira. A AIE mandatou o reforço de fóruns para acelerar projetos de refinação, processamento e reciclagem de minerais críticos. Portugal está, ou deveria estar, nessa conversa com peso e com proposta.

O que Paris demonstrou é que a corrida aos minerais críticos não é apenas económica. É geopolítica. O Canadá lançou a sua própria Aliança de Produção de Minerais Críticos. Os Estados Unidos têm a sua estratégia. A China domina a cadeia de processamento de forma esmagadora. A Europa, por seu lado, acelerou o Critical Raw Materials Act. Neste tabuleiro, Portugal tem cartas na mão, mas precisa de as jogar com mais assertividade e com uma visão de longo prazo que transcenda ciclos eleitorais.

O Brasil, a Índia e o Reequilíbrio do Sul Global

Outro resultado histórico de Paris foi o convite formal ao Brasil para iniciar o processo de adesão plena à AIE e a admissão da Colômbia como 33.º membro. A Índia está nas fases finais do mesmo processo. O Vietname tornou-se país associado.

Para Portugal, estas mudanças não são indiferentes. A nossa língua, a nossa história e os nossos laços económicos com o Brasil conferem-nos uma posição de interlocução privilegiada que deveríamos mobilizar de forma muito mais sistemática. O Brasil é visto pela AIE como um parceiro estratégico pela sua matriz renovável e pelo seu potencial como exportador de biocombustíveis e hidrogénio verde. São áreas em que Portugal tem competências técnicas, científicas e empresariais que podem traduzir-se em parcerias concretas, em investimento, em transferência de tecnologia e em posicionamento diplomático.

A entrada da Índia na AIE, por sua vez, reconfigura o centro de gravidade da agência. A maior democracia do mundo é hoje a economia de crescimento mais rápido e um importador massivo de energia. Qualquer país que queira ter relevância nos próximos vinte anos da governação energética global precisa de ter uma relação estruturada com Nova Deli. Portugal, como membro da União Europeia e com a sua dimensão atlântica, tem uma janela de oportunidade que não pode desperdiçar.

A Cozinha Limpa e a dimensão social

Um dos resultados mais discretos, mas de significado profundo, foi a integração formal da Clean Cooking Alliance no Secretariado da AIE. Mais de dois mil milhões de pessoas no mundo ainda cozinham com madeira e carvão vegetal, inalando fumos tóxicos que causam milhões de mortes prematuras, sobretudo em África, afetando desproporcionalmente mulheres e crianças.

Esta dimensão social da transição energética é, frequentemente, relegada para segundo plano nas discussões sobre Net Zero e minerais críticos. Mas é nela que reside uma parte substancial da legitimidade moral, e da urgência política, de toda a agenda climática. Para Portugal, que mantém laços históricos com países africanos em pleno processo de desenvolvimento, esta é também uma área de potencial cooperação, tanto em termos de tecnologia como de financiamento.

O que Paris nos pede

A Reunião Ministerial da AIE de 2026 marcou o fim de uma era de consenso otimista e o início de uma era de realismo geopolítico energético. A descarbonização não desapareceu da agenda, mas deixou de ser um objetivo partilhado sem fricção para se tornar um campo de disputa onde as narrativas de segurança nacional, de soberania industrial e de competitividade económica se entrecruzam com as preocupações climáticas.

Para Portugal, as conclusões de Paris traduzem-se em três imperativos concretos. O primeiro é o investimento em infraestrutura elétrica e em interligações, para transformar a nossa riqueza renovável em vantagem competitiva real. O segundo é a definição de uma estratégia industrial para os minerais críticos, que vá além da extração e inclua processamento, refinação e reciclagem, ancorada em parcerias europeias e internacionais. O terceiro é o reforço da nossa participação ativa nos fóruns multilaterais de governação energética, mobilizando os laços lusófonos e atlânticos como ativos estratégicos, não apenas como retórica identitária.

O mundo energético que emergiu de Paris é mais fragmentado, mais competitivo e mais incerto do que o de há dois anos. Mas é também, para quem souber posicionar-se com clareza de visão e ambição estratégica, um mundo cheio de oportunidades. A questão é se Portugal vai observar ou participar.