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(A) :: Porque continuamos a falhar na saúde da mulher?

Porque continuamos a falhar na saúde da mulher?

Falar de saúde da mulher não devia terminar conversas, devia começá-las.

Inês Santos Silva
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Se eu quiser matar uma conversa em segundos, basta dizer que trabalho na área da saúde da mulher. É quase imediato! O olhar foge e instala-se aquele silêncio desconfortável de quem não sabe bem o que fazer com o tema. Acontece mais com homens, é verdade, mas não exclusivamente. Também entre mulheres sinto, por vezes, um desinteresse estranho, quase como se estivéssemos a falar de algo que devia permanecer em voz baixa.

E talvez seja esse o ponto: durante demasiado tempo, a saúde da mulher foi um território de sussurros. Um assunto privado, quase secreto. Algo que não se discutia ou, quando se discutia, era com pudor.

Há também muita confusão sobre o que realmente significa.

Para alguns, resume-se à fertilidade. Para outros, à contraceção. Mas, em 2026, já não podemos fingir que não sabemos que as mulheres são biologicamente diferentes dos homens ao nível celular e isso muda tudo. Quando falo de saúde da mulher, falo da saúde reprodutiva, claro, mas também da cardiovascular, da hormonal, da mental. Falo de todos os aspetos que afectam mais de metade da população mundial, 51,5%, para sermos exatos.

Por isso, sempre que alguém me diz que esta é uma área de nicho, não sei se sorria, se corrija ou se pergunte como é possível continuarmos a minimizar aquilo que diz respeito à maioria da humanidade.

Vamos aos factos.

Sabemos ainda muito pouco sobre a saúde das mulheres.

Uma em cada dez tem endometriose e pode esperar entre sete a dez anos por um diagnóstico. Sete a dez anos a normalizar a dor, a duvidar do próprio corpo, a ouvir que “é assim mesmo”. E, muitas vezes, quando finalmente chega o diagnóstico, a resposta continua a ser desarmante: há pouco a fazer.

O mesmo acontece com a síndrome do ovário poliquístico. Afeta cerca de 10% das mulheres, demora anos a ser identificado e continua rodeado de incerteza clínica.

Depois há a menopausa,  uma experiência partilhada por mulheres, baleias, girafas e alguns primatas. Ainda não compreendemos totalmente o porquê. Temos teorias, algumas robustas, outras menos, mas não temos respostas definitivas. Como é possível que algo tão universal na vida das mulheres permaneça, em grande parte, um enigma?

E, enquanto isso, a principal causa de morte entre as mulheres continua a ser a doença cardiovascular. Ainda assim, continuamos a ensinar futuros médicos a reconhecer, sobretudo, os sintomas de ataque cardíaco típicos dos homens, sintomas que, nas mulheres, não aparecem da mesma forma.

Há mais.

Nos Estados Unidos, oito em cada dez medicamentos retirados do mercado foram retirados devido a efeitos adversos nas mulheres. Não porque as mulheres sejam uma exceção biológica, mas porque continuam sub-representadas nos estudos clínicos.

Partilho estes exemplos para evidenciar uma realidade: o nosso nível de conhecimento ainda está muito aquém do necessário.

Se quisermos estruturar o problema, diria que a saúde da mulher enfrenta três grandes desafios.

O primeiro  e talvez o mais determinante  é a falta de investimento em investigação científica. Sem financiamento, há menos investigadores. Com menos investigadores, há menos ciência. E sem ciência, ficamos sem respostas.

O impacto é real. Em pleno 2026, continuamos a recorrer a mezinhas e suplementos de eficácia discutível para tratar muitos dos problemas mais comuns na saúde de uma mulher. Não é falta de necessidade. O mercado está lá! É, sim, falta de prioridade.

Desta escassez nasce outro problema: a falta de dados. Falamos todos do potencial transformador da inteligência artificial na saúde e no desenvolvimento de novos medicamentos, mas a IA é tão boa quanto os dados que a alimentam. E, na saúde da mulher, esses dados são frequentemente insuficientes, fragmentados ou de baixa qualidade. Sem datasets de qualidade, pouco há a fazer.

Por fim, há ainda um desafio profundamente humano: a experiência nos cuidados de saúde.

O foco na saúde da mulher na formação médica continua a ser limitado. Temas como menopausa, endometriose ou síndrome do ovário poliquístico passam, muitas vezes, ao lado da profundidade que exigiriam. E isso sente-se depois nas consultas, quando tantas mulheres relatam não se sentir ouvidas, quando a dor é relativizada e as perguntas ficam por fazer.

Ainda persiste um certo conformismo clínico. Uma tendência para soluções rápidas, a pílula como resposta universal  e menos curiosidade em procurar causas, caminhos alternativos, respostas verdadeiras.

E talvez o mais silencioso de todos os obstáculos seja o receio. O receio das mulheres de insistir, de questionar, de ocupar espaço na conversa sobre o próprio corpo.

Falar de saúde da mulher não devia terminar conversas, devia começá-las.

Partilho tudo isto porque, apesar do caminho ainda ser longo, há motivos claros para esperança. Começamos finalmente a ver um pouco mais de investigação, mais inovação, mais conversas abertas e, sobretudo, mais mulheres a recusar o silêncio.

Mais interesse não basta. Precisamos de prioridade. Precisamos de investimento. Precisamos de investigação à altura do problema.

A saúde da mulher não pode continuar a ser um rodapé na agenda da investigação científica e da medicina.

O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.