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(A) :: Geringonça de derrotados?

Geringonça de derrotados?

A política portuguesa tem muitos defeitos, mas um deles é particularmente curioso. Trata-se da dificuldade em aceitar que alguém possa votar, ou escrever, por razões que não sejam tácticas.

Nuno Gonçalo Poças
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Francisco Mendes da Silva ensaiou, em dois artigos, no Público, uma teoria da conspiração, onde simpaticamente e por amizade, que aqui retribuo, me inclui. Confesso que tenho sempre uma certa ternura por quem acredita saber o que eu penso melhor do que eu próprio, como se uma espécie de espiritismo político convocasse a alma dos outros – uma espécie de falácia do espantalho esotérica.

Comecemos pelo mais divertido: a ideia de que os “passistas” que apoiam António José Seguro o fazem como quem joga xadrez em três tabuleiros, pensando já na futura união das direitas, na queda de Montenegro, no regresso de Passos Coelho à vida política e, quem sabe, na meteorologia de 2029. A tese é sofisticada, e nem seria de esperar outra coisa. Portanto, um grupo organizado de apoiantes de Passos Coelho, suponho que a mando deste, resolveu apoiar Seguro na eleição presidencial, e estaríamos condicionados na crítica a Ventura porque o que queremos, no fundo, é um Governo PSD/Chega liderado pelo antigo Primeiro-ministro, eventualmente por via indirecta, preferencialmente sem eleições, idealmente com intervenção presidencial cirúrgica e um Ministério Público a funcionar como um relojoeiro suíço.

Sucede que esta teoria assenta em conspiração de quem a lança, e não em factos dados pelos visados. Em primeiro lugar, porque nunca existiu nenhum grupo de “passistas”. Essa expressão foi inventada pelo Expresso e não pretendeu outra coisa que não condicionar o apoio do PS ao actual Presidente da República eleito. Em segundo lugar, e porque posso apenas falar por mim, não apoiei Seguro para preparar alianças futuras ou para alinhar em projectos conspiracionistas que, se existem, os desconheço. Apoiei Seguro porque considerei, e considero, que era ele a melhor escolha institucional para a Presidência da República. O candidato apoiado pelo Francisco, na primeira volta, ficou em quinto lugar: seguindo a linha argumentativa apresentada, o eleitorado da AD que rejeitou largamente Marques Mendes também é capaz de andar a conspirar pelos cafés deste país.

A tese segundo a qual quem não transforma cada texto ou intervenção pública num libelo contra Ventura está, por definição, a preparar uma coligação com ele é intelectualmente fascinante. Funciona como um detector moral: se não te indignas a todo o tempo, estás numa barricada secreta em prol de uma aliança com o Mal. Também não compro a tese. Já me cansei de aturar os maluquinhos da direita do Chega que me acusam de ser a “direita de que a esquerda gosta”, não tenho agora de começar a justificar-me perante a direita de a AD de ser a “direita de que a direita radical gosta”.

A política portuguesa tem muitos defeitos, mas um deles é particularmente curioso. Trata-se da dificuldade em aceitar que alguém possa votar, ou escrever, por razões que não sejam tácticas. Parece sempre existir uma camada subterrânea de cálculo, uma intenção oculta, uma geometria secreta, uma teia orgânica qualquer que alguma alma iluminada há-de denunciar. A hipótese de alguém escolher com base em critérios institucionais ou culturais é recebida com uma desconfiança quase infantil, e talvez seja por isso que a direita portuguesa ande há tantos anos a discutir tácticas, alianças, acordos, linhas vermelhas, azuis ou às bolinhas, e passe tão pouco tempo a explicar aos portugueses o que efectivamente quer fazer com o exercício do poder executivo.

Este equívoco da direita portuguesa, a ideia de que o problema é aritmético, e de que tudo se resume a saber com quem se faz ou não acordos, e que a questão decisiva é a fotografia da coligação antes ou depois das eleições, e não o conteúdo do projecto que se apresenta ao país, tem sido um suicídio em câmara lenta. Eu não quero que o espaço da Aliança Democrática clássica construa um discurso em função do Chega. Gostava que apresentasse um programa claro, que tivesse um líder que se afirmasse em função das prioridades políticas que tem para o país, e não para si próprio y sus muchachos. A ordem das coisas importa: primeiro, um projecto; depois, os resultados; só no fim, os entendimentos. E as linhas vermelhas referem-se exclusivamente a políticas. Uma direita adulta não pode viver permanentemente refém do medo de acordos, nem refém da tentação de os anunciar como se eles fossem um fétiche mobilizador. Não estou nem de um lado, nem do outro nesta conversa inútil. Se um projecto vence sem maioria que o sustente, deve procurar o parceiro que melhor se adeque à implementação desse projecto, e não de outro. Quem começa pela pergunta “com quem?” antes de responder à pergunta “para quê?” acaba invariavelmente sem projecto e sem poder. O que mobiliza é a convicção, não é a ansiedade. Talvez seja recomendável que se comece a olhar mais para Espanha do que para França. Mas percebo que seja mais fácil e tentador, na época da hipersentimentalização, que passemos o tempo a acenar mais com declarações de boa moral e a fiscalizar as opções alheias do que a construir uma alternativa. E, sim, esta AD precisa de uma alternativa que não seja nem o PS, nem o Chega.

Convém também esclarecer o Francisco – embora suspeite que ele saiba, mesmo tendo sorvido a tal manchete do Expresso como o Presidente Marcelo sorve gelados – que eu não sou “passista”. Nunca fui militante de correntes internas, nunca tive líder de estimação, nunca me movi por fidelidades orgânicas. E durante muito tempo desejei que o espaço político onde sempre me enquadrei, e que é também o do Francisco, tivesse conseguido encontrar uma nova liderança após a saída de Passos Coelho de cena, alicerçada num projecto político sólido e competente. Julgo, porém, intelectualmente desonesto negar o óbvio: isso não aconteceu.

Se Luís Montenegro satisfaz genuinamente Francisco Mendes da Silva (e não tenho qualquer razão para duvidar da sua convicção) então talvez estejamos apenas perante um desacordo de diagnóstico. Mas se o máximo a que aspiramos é a evitar o pior cenário, então talvez o problema seja mais profundo. Porque a alternativa não pode ser resignar-se a uma espécie de versão portuguesa do impasse francês: esquerda radical de um lado, direita radical do outro, e um centro amorfo cada vez mais estreito, cada vez mais incapaz de mobilizar. Esse cenário não nasce do excesso de radicalismo: nasce do vazio. Quando o espaço reformista deixa de produzir pensamento político consistente, quando a liderança se reduz à administração prudente do dia-a-dia, quando a ambição é confundida com imprudência, abre-se espaço para quem promete romper, mesmo que não saiba, nem queira, construir nada, como é o caso de Ventura.

É nesse contexto que a figura de Passos Coelho continua a pairar. Não por culto ou conspiração, mas porque foi o último líder da direita que apresentou um projecto claro, coerente, discutível, mas reconhecível. Ganhou e perdeu com ele. Foi sufragado e derrotado com ele. Mas tinha um. O problema não é, pois, saber se Passos deve ou não regressar à vida política activa. Disso saberá ele, não eu, seguramente. O problema é saber por que razão, tantos anos depois, ainda tanta gente discute a possibilidade do seu regresso como se fosse a única variável relevante. Se é ele o único capaz de interpretar o vazio actual? Não sei. Mas é legítimo admitir que, até agora, mais ninguém o conseguiu preencher, e isso diz menos sobre a nostalgia de alguns e mais sobre a incapacidade colectiva de produzir uma alternativa.

Eu também acredito que uma direita madura não vive de homens providenciais, mas de projecto, de liderança e de convicção. Sucede que ninguém no espaço político português à direita aparenta tê-los. Excepto, sim, Pedro Passos Coelho. É por isso que se vive nesta perpétua e difusa viuvez. Não por revanchismo de 2015. Não por saudades da pessoa em concreto, mas por falta de quem esteja à altura do momento. Não é uma orfandade sentimental, mas estrutural. Não somos uma “geringonça de derrotados”, como lhes chamaste, Francisco. É uma ampla maioria do país que rejeita Ventura, que está mesmo disponível para votar num socialista para o rejeitar, mas que não se sente representada por nada, nem por ninguém. Não me parece difícil compreender.