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(A) :: Miguel Monjardino. "Trump, Israel e Teerão estão a tentar manter-se em cima de um tigre que corre desenfreadamente"

Miguel Monjardino. "Trump, Israel e Teerão estão a tentar manter-se em cima de um tigre que corre desenfreadamente"

Analista de política internacional diz que é impossível prever efeitos da guerra no Médio Oriente e classifica Donald Trump e JD Vance como "agentes da demolição". Entrevista a Miguel Monjardino.

Cátia Bruno
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Uma caminhada pela manhã. Foi assim que Miguel Monjardino começou todos os dias daquele longo ano de 2020, à medida que o país e o mundo aprendiam a lidar com um vírus letal, confinamentos, máscaras e morte. Um luxo que lhe era permitido por viver no meio da natureza em Angra do Heroísmo, razão pela qual não tem dúvidas em afirmar que teve uma “boa pandemia”.

Mas a partir do meio do Atlântico, e perante um mundo paralisado pela doença, Monjardino continuou a olhar para tudo o que se passava à sua volta, a pensar sobre isso — e a escrever. O livro A Grande Ruptura: Cadernos de Geopolítica (ed. Clube do Autor), publicado a 18 de fevereiro, é o resultado do diário que manteve religiosamente ao longo desse ano. Um esforço consciente que o analista quer manter até 2030, porque ” escrever diariamente nos ajuda a prestar mais atenção às coisas”, garante. A que se soma a consciência de que, perante um momento histórico e transformador como a pandemia de Covid-19, impunha-se uma obrigação: “Pode ser interessante no futuro os futuros historiadores, cientistas políticos, escritores, olharem para trás e verem uma pessoa que escreveu sobre o seu tempo. O que é que se pensava na altura?”, aponta.

Outro dos seus objetivos com estes cadernos agora tornados livro era o de abrir a porta para o seu trabalho. “Também quis mostrar às pessoas que me leem e que de vez em quando me veem na televisão como é que eu trabalho. Ou seja, como é que os analistas trabalham? O que é que a gente realmente lê, o que é que nós pensamos, as dúvidas que nós temos.”

São muitas as dúvidas que Miguel Monjardino foi colocando ao longo desse ano. Não por falta de experiência; formado em Direito, Segurança Internacional e Estudos Estratégicos, há muito que o analista se dedica a pensar  a geopolítica no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, numa coluna semanal no Expresso e em presenças frequentes na SIC Notícias. Através dos jornais que consulta avidamente, é claro, mas também através de fontes inesperadas como os clássicos — que explora com alunos na Católica, no programa “República das Letras” e em família. “Os clássicos são relevantes porque nada do que é verdadeiramente humano e político lhes é estranho”, resume.

Numa entrevista de mais de uma hora a partir dos Açores, Monjardino refletiu sobre como precisaremos “de muito mais tempo”, décadas até, para compreendermos melhor o momento que atravessamos agora no mundo. E, contudo, crê que é possível retirarmos já algumas conclusões: que a guerra na Ucrânia é mais motivada por “causas internas” da Rússia do que pelos papões do Ocidente e da NATO; que houve processos de maior integração europeia, “impensáveis” até à pandemia; que Portugal hoje em dia presta mais atenção às questões internacionais; que a tempestade Kristin pôs a nu um “problema” de “centralização” no país; e que vivemos hoje um combate entre “agentes da demolição” e moderados.

[Apesar de um mandado de captura europeu, Gregorian Bivolaru está clandestino em Paris. Lá, o guru continua a receber discípulas para “iniciações secretas”. Ouça o quinto e penúltimo episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro e aqui o quarto]

Dias depois desta entrevista, os Estados Unidos e Israel atacaram o Irão, que retaliou, abrindo um novo conflito mundial de monta e com consequências imprevisíveis. A pedido do Observador, Miguel Monjardino partilhou as suas primeira reflexões sobre o tema: “A guerra é sempre um fenómeno caótico e violento”, começa por sublinhar. “Trump, e todos os decisores políticos em Israel, Teerão, Ancara e nas capitais árabes estão a tentar manter-se em cima de um tigre que corre desenfreadamente numa direção incerta.” Acredita que nada do que aconteceu nestas primeiras horas define o que vai acontecer, porque o que conta numa guerra “não são os primeiros dias, mas sim os últimos”.

São estas e outras ideias sobre as quais reflete, numa conversa que vai da indústria automóvel chinesa até à inspiração no Império Romano de JD Vance. Os interesses de um “analista” e não “comentador” — uma distinção que o próprio faz questão de sublinhar, no novo “ecossistema” mediático que surgiu com a guerra na Ucrânia. E que agora conta com uma nova categoria, “os chamados influencers“. “Mas agora não vou falar sobre eles e sobre elas”, diz, diplomaticamente, Miguel Monjardino.

Porquê um diário? “Pode ser interessante os futuros historiadores olharem para trás e verem uma pessoa que escreveu sobre o seu tempo”

Porquê escolher este formato diário? Fala muito no livro na importância de escrever um diário durante aqueles tempos e até continuar. Porquê optar por isso em vez de um ensaio ou de uma análise geopolítica clássica? O que é que o diário tem e traz que os outros formatos não têm?
Sempre gostei muito de ler diários, sempre gostei muito. E a minha passagem por Inglaterra talvez tenha ajudado a consolidar essa preferência por esse tipo de literatura.

Sim, eles têm essa cultura, nós não.
Sim, eles têm muito essa cultura. E depois, em 2020, a minha ideia foi… Esta coisa de escrever todas as semanas para o jornal e a SIC Notícias… Não é que a gente veja mais do que os outros, não é isso. Mas a pessoa talvez ganhe mais perceção da trajetória dos acontecimentos. E em 2020 decidi: acho que vai acontecer algo muito significativo do ponto de vista histórico e quero registar isto diariamente até 2030. Quero deixar um registo de uma década. São duas razões. A primeira é que acho que escrever diariamente nos ajuda a prestar mais atenção às coisas. É o primeiro ponto. O segundo ponto é que também quis mostrar às pessoas que me leem e que de vez em quando me veem na televisão como é que trabalho. Ou seja, como é que os analistas trabalham? O que é que a gente realmente lê, o que é que nós pensamos, as dúvidas que nós temos. Quis também um bocadinho mostrar isso às pessoas.

Há vários estudos que mostram como a pandemia alterou a nossa perceção do tempo. Durante o confinamento, claro, mas também depois, perdemos pontos de referência, naquela altura era tudo igual. Isso torna o trabalho de um analista mais difícil do que em tempos normais?
Acho que sim, porque, no fim de contas, a minha dúvida foi se a pandemia altera ou não altera a trajetória da política internacional. E lembro que logo no início da pandemia escrevi uma coluna sobre esse assunto. É claro que nós precisaremos de bastante mais tempo — dez, 20, 30, 40 anos — para termos uma boa resposta em relação a este tema. Isto é sempre o drama de quem escreve diariamente. Estamos a escrever para o momento, mas nós não sabemos como é que a História olhará para aquilo que aconteceu. Mas, dito isto, eu acho que nós temos um bocadinho a obrigação de explorar esse tema no momento em que o vivemos e fornecer uma resposta, por mais provisória que seja. Primeiro, para orientar as nossas conversas, mas também porque pode ser interessante s futuros historiadores, cientistas políticos, escritores olharem para trás e verem uma pessoa que escreveu sobre o seu tempo. O que é que se pensava na altura? E foi por isso que decidi fazer assim também.

"[A tempestade Kristin] é um bocadinho como a guerra. A distância entre aquilo que um soldado sente no campo de batalha e aquilo que um decisor político… é sempre diferente."

Ainda sobre a questão da noção do tempo, no livro escreve a certa altura: “Infelizmente, a distância entre o reconhecimento da existência do problema e a tomada de decisão a nível político, social e individual continua a ser enorme”. E diz que isso é uma das características da psicologia humana. Nós vimos isso agora recentemente, com o mau tempo em Portugal, esse delay a compreendermos a dimensão do problema. Não aprendemos nada com a Covid?
Se calhar ajudou. Mas é difícil. É sempre difícil criar uma arquitetura institucional que nos permita compreender o mais rapidamente possível aquilo que realmente aconteceu. E nós vimos isto agora com as consequências da tempestade Kristin. Ou seja, durante a pandemia acho que nós não estávamos preparados, nenhum país estava preparado para aquilo que aconteceu. E nós não estávamos preparados porque era simplesmente inconcebível que uma coisa daquelas acontecesse.

Apesar de haver avisos dos muitos cientistas de que, mais cedo ou mais tarde…
Exatamente. Portanto, do meu ponto de vista, a pandemia não foi aquilo que se chama um cisne negro, uma coisa inconcebível e impensável. Não. Nós é que decidimos, em termos políticos e sociais, que aquele cenário era de tal maneira impensável que não valia a pena nós prepararmo-nos para isto. A tempestade Kristin é diferente porque faz parte daquilo que é plausível num sistema de proteção civil em qualquer país. Mas o que nós vemos é que, se não se treinar muito regularmente esse tipo de situações, as instituições têm dificuldade em adaptar-se — número um. Número dois: é um bocadinho como a guerra. A distância entre aquilo que um soldado sente no campo de batalha e aquilo que um decisor político… é sempre diferente. Há sempre este espaço temporal, que pode ser mais ou menos longo, que depois cria sempre problemas políticos. E voltámos a ver isso a acontecer.

O novo “ecossistema” mediático. “Um comentador em Portugal à segunda-feira fala de uma coisa, à terça fala de outra”

Frisa no livro que é um analista e não um comentador. Qual é a diferença?
Isso é uma belíssima pergunta e vou responder assim: em 2022, quando a guerra da Rússia contra a Ucrânia começou, segui obviamente na televisão o que era dito e às tantas comecei a notar uma coisa que me causou uma certa impressão. Comecei a ver jornalistas que faziam trabalho de comentador, mas, sobretudo, comecei a ver comentadores que faziam trabalho de jornalistas. Achei aquilo muito confuso. E numa entrevista, penso que com a Teresa Dimas na SIC Notícias, propus uma classificação do ecossistema que estava em criação durante a guerra. Primeiro estão os jornalistas que são absolutamente essenciais, porque falam daquilo que está a acontecer. Sem jornalistas não há nada do que vem a seguir. A seguir estão os especialistas académicos, que são pessoas que pensam verticalmente e sabem imenso sobre uma determinada área. A seguir, para mim, estão os analistas, que são pessoas que, do meu ponto de vista, associam conhecimento em áreas diferentes. Ou seja, um especialista pensa verticalmente, um analista talvez pense mais horizontalmente, por associação de áreas bastante diferentes.

Depois temos os comentadores. Um comentador em Portugal à segunda-feira fala de uma coisa, à terça fala de outra. Portanto, os bons comentadores fazem é que ouvem com atenção os jornalistas, os especialistas e os analistas e depois fazem o seu trabalho. Mas agora, pós-entrevista com a Teresa Dimas, apareceu uma nova categoria no ecossistema, que são os chamados influencers [risos]. Que agora não vou falar sobre eles e sobre elas. E, portanto, vejo-me mais como um analista, sou uma pessoa que começou como especialista numa determinada área académica, mas por via do sobretudo do trabalho para o Expresso e com a SIC Notícias, penso que me transformei numa coisa diferente, que é a análise a nível internacional.

Acha que neste ecossistema novo os analistas estão a perder terreno para esse fascínio com o soundbyte? Conta a história da intervenção que fez na SIC Notícias, onde usou a palavra shit show, foi a mais viral que já teve, mais do que qualquer outra análise aprofundada. Há um certo fascínio com esse imediatismo e com a polémica?
Há, claramente. O trabalho dos analistas é mais necessário, mas é mais difícil nessa cultura. Mas conto esse episódio porque fui vítima de mim mesmo. Ou seja, uma coisa é o sinal, outra coisa é o ruído. Os analistas gostam de dizer que trabalham o sinal, os sinais. Isso é que é verdadeiramente importante. Mas, de facto, nesse episódio absolutamente delirante, criei ruído. E aquilo que quis dizer, que me parecia ser o mais importante, foi completamente afogado por essa expressão que usei na entrevista. Portanto, também uso esse episódio para mostrar como às vezes os analistas se sabotam a si mesmos.

São humanos, não é?
E criam ruído.

Mas às vezes há um interesse pelo ruído, mais do que pela análise ponderada?
Sim. Nós vivemos numa época histórica em que, do meu ponto de vista, é muito importante ler com atenção. Mas nós também sabemos que ler com atenção é cada vez mais difícil hoje em dia. E isto é um problema que nós temos em Portugal e na maior parte dos países europeus hoje em dia.

“O que aconteceu na Bielorrússia no verão de 2020 deve ter sido um susto muito, muito grande para Putin”

Tenta no seu trabalho apontar caminhos para o futuro, mais do que dissecar o presente. E quando nós olhamos para os seus diários, naquela altura parece quase inocente, mal sabíamos o que é que ainda estava para acontecer. Tivemos a guerra na Ucrânia, tivemos o 7 de Outubro e a guerra em Gaza, tivemos a reeleição de Donald Trump…. Havia algum sinal de alguma destas coisas? Passou-lhe pela cabeça algo que pudesse vir a acontecer e que se confirmou?
Há duas coisas nos diários que escrevi. Escrevi uma coluna, penso que em agosto de 2020, a levantar a possibilidade de Donald Trump não aceitar o resultado das eleições. E isso na altura causou-me alguma impressão. O precedente que causaria e depois as repercussões que teria nos Estados Unidos e também em termos internacionais, na perceção que nós temos da América.

E da democracia americana.
Exatamente. E, infelizmente, isso vai acontecer. Os diários também têm muitas reflexões sobre a trajetória dos acontecimentos na relação da Rússia com os seus vizinhos e também se nota nos diários uma crescente preocupação da minha parte em relação à Ucrânia. E dou muita atenção àquilo que aconteceu na Bielorrússia, porque acho que ajuda a explicar a janela de oportunidade e de vulnerabilidade de Vladimir Putin. Nós, a maior parte dos europeus, já não nos lembramos do que aconteceu na Bielorrússia no verão de 2020. Mas para Vladimir Putin esses acontecimentos, a reação da sociedade bielorrussa, a falsificação, a fraude eleitoral… Deve ter sido um susto muito, muito grande, porque sem a Bielorrússia e sem a Ucrânia, o sonho de um regresso imperial da Rússia, o sonho de Putin ser visto como uma figura histórica igual a Catarina II e a Pedro, o Grande, nunca se poderiam concretizar. Portanto, do meu ponto de vista, para percebermos o que aconteceu na Ucrânia a partir de 2022, esse verão de 2020 foi um sinal de que a janela de oportunidade de Vladimir Putin se estava a fechar e que havia algo a acontecer na sociedade ucraniana e bielorrussa, que levaria esses países inexoravelmente a aproximarem-se da Europa e a afastarem-se da Rússia.

"A teoria das relações internacionais dá uma explicação externa para a decisão de Putin, ou seja, o alargamento da NATO. Eu sou muito mais partidário de uma explicação interna do regime russo e da evolução desse regime e da necessidade de controlar a sociedade russa para explicar aquilo que aconteceu na Ucrânia."

Uma vez entrevistei um antigo embaixador na Rússia, canadiano, que dizia que aquilo de que Putin tem mais medo não é o Ocidente em si, não é a NATO, é o contágio. E foi esse medo do contágio que o levou a agir na Ucrânia. Acha que isso faz sentido? A Bielorrússia funcionou também como uma espécie de aviso do que poderia acontecer na Rússia…
Do meu ponto de vista, foi isso que aconteceu. Ou seja, há duas interpretações daquilo que aconteceu na Ucrânia. Nós, na Europa, sobretudo os militares e cientistas políticos que são muito influenciados pela ciência política… A teoria das relações internacionais dá uma explicação externa para a decisão de Putin, ou seja, o alargamento da NATO. Eu sou muito mais partidário de uma explicação interna do regime russo e da evolução desse regime e da necessidade de controlar a sociedade russa para explicar aquilo que aconteceu na Ucrânia. Associado ao desejo de honra pessoal e do ressentimento que Putin e grande parte do regime russo têm em relação ao Ocidente. As causas internas são mais poderosas na explicação daquilo que aconteceu do que as externas. E quando os primeiros livros sobre esta guerra forem escritos no início da próxima década, acho que a tensão entre as causas internas e as causas externas estará bem presente no trabalho dos historiadores do futuro.

Olhando para a União Europeia, é claro que naquela altura [Covid] a questão das vacinas foi um sucesso, acho que podemos dizê-lo. Mas na altura escrevia que a Europa continuava ignorante e paralisada face aos riscos que corre. Acha que isso mudou ao longo destes seis anos?
Mudou muito e provavelmente vai ter que mudar ainda mais. O diário até acaba de uma forma pessimista. Em janeiro de 2021 a situação é muito difícil em termos de pandemia. Mas cá está, com o benefício da distância, nós agora vemos que a campanha de vacina e de desenvolvimento das vacinas e da vacinação foi um enorme sucesso para a União Europeia. A pandemia levou a Comissão Europeia e os governos europeus a fazerem coisas impensáveis em termos do processo de integração. A União Europeia, sobretudo a Comissão Europeia, assumiu poderes em termos de saúde pública que não estavam consagrados nos tratados. A necessidade levou-nos a fazer isso. Mas nos diários também tento mostrar como nós não vimos bem aquilo que estava a acontecer na Rússia e aquilo que Putin claramente já estava a fazer. E não vimos bem na altura, porque no fim de contas alguns dos mais influentes governos europeus julgavam que tinham um entendimento com Vladimir Putin e, sobretudo, julgavam que tinham uma chave, tinham um porta chaves que lhes permitia interpretar bem o que Putin realmente queria. E isso, obviamente, foi um erro de avaliação bastante grave, sobretudo por parte da Alemanha.

Falava-se muito que Merkel compreendia a linguagem de Putin, que ela conseguia falar com ele de uma maneira que os outros não conseguiam. E na verdade isso não se confirmou.
Não se confirmou. E também junto do SPD havia o grupo de Hannover que sempre julgou que também tinha uma linha de comunicação privilegiada com Moscovo e que isso, no limite, ajudaria a estabilizar toda a situação. De facto, não foi isso que aconteceu e, portanto, o diário mostra esses equívocos e os dilemas que, no fim de contas, países como a Alemanha sempre tiveram na sua relação com Moscovo. E já agora, também em relação a Pequim. Por exemplo, aquilo que envolve a indústria e sobretudo a indústria automóvel alemã. Escrevo uma ou duas colunas sobre esse assunto, a chamar a atenção de que provavelmente não ia ser como Berlim pensava. E, de facto, não foi também.

Há dois ou três anos já tínhamos Ursula von der Leyen a falar disso no discurso do Estado da União e a dizer que precisamos de lidar com a concorrência automóvel da China e que tínhamos de ter uma certa forma de protecionismo europeu para para conseguir lidar com isso.
Sim, mas há seis anos, que é quando escrevo… [risos] Era diferente. Primeiro, a perceção que havia na Alemanha sobre o domínio tecnológico desse ecossistema industrial e da capacidade competitiva da indústria alemã era diferente daquela que nós temos hoje. E é muito interessante nós vermos este processo como é que decorreu na Europa. Quão surpreendente foi, para muitos de nós, o avanço tecnológico chinês em áreas que durante décadas e décadas foram dominadas pelos países europeus, sobretudo os grandes fabricantes de automóveis. É muito curioso ver o que foi escrito na altura e depois aquilo que aconteceu e como nós estamos hoje. Acho que essa é uma das virtudes de escrever um diário. Esta é a forma como olho para a política nacional. Haverá muitas outras, mas quis mostrar a minha, em que escrevo sobre determinados países, sobre determinadas áreas, e tento introduzir muitas coisas associadas à ciência, à tecnologia e à energia no processo de decisão política em termos internacionais.

Acha que houve alguma sobranceria europeia em relação à China? No sentido de “eles nunca vão conseguir ter a qualidade tecnológica com que os nossos produtos têm”? “Fazem em quantidade, não em qualidade”.
Acho que houve isso da parte de países europeus, sobretudo os países europeus mais avançados em determinado tipo de indústrias. Pensaram que tinham bastante mais tempo do que aquele que tiveram. E daí que no ensaio final do livro tem aquela citação de um alto responsável francês a dizer “Quem precisa de ter acesso a tecnologia chinesa somos nós.” Há várias décadas eram eles que precisavam ter acesso a nossa tecnologia. Agora, a situação em determinadas áreas parece ter-se invertido.

A tempestade Kristin. “Continuamos a ser um país muito francês, um país altamente centralizado”

Na altura da pandemia, lamenta um bocadinho como é que a política internacional continua a não ser tema na nossa política nacional. Vemos isso nas campanhas eleitorais. E isso parece ter mudado, não é? Nós temos debates para as presidenciais, por exemplo, onde se faz perguntas aos candidatos sobre defesa, sobre segurança. Acordámos como país para a necessidade de olhar para estas áreas?
Acordámos um pouco. Escrevo algures no livro que em Portugal a política internacional é como os trovoadas, uma coisa que vai e vem. E, de facto, a maior parte dos decisores políticos em Portugal… Durante décadas não foi necessário ninguém especializar-se em política internacional. Nós seguimos muito Bruxelas, nós seguimos muito a NATO e, portanto, essas duas instituições, de facto, substituíram se à necessidade de nós pensarmos sobre os nossos interesses nacionais permanentes. Aliás, a expressão “interesses nacionais permanentes” desapareceu em Portugal há várias décadas. E o mesmo se passa também com os jornalistas. O jornalismo político em Portugal raramente acentua questões de segurança e defesa. São muito poucos jornalistas que em Portugal trabalham as áreas de segurança e defesa. Mais uma vez, porquê? Porque não foi preciso. Não era necessário. No critério de seleção dos deputados dos vários partidos na Assembleia da República, quantos deputados há especializados nesta área? Provavelmente não há dez. Mais uma vez, porque não foi preciso. No anterior ciclo histórico esse problema estava mais ou menos resolvido. Agora não. Agora estamos a caminho de uma situação muito, muito diferente, bastante mais difícil para um país como nós, porque nós estamos divididos entre a Europa, de quem dependemos economicamente, e a potência marítima dominante no Atlântico, os Estados Unidos, em questões de segurança e defesa. Portanto, os nossos dilemas são maiores nessas áreas e vamos ter de prestar muito mais atenção a questões de segurança e defesa.

"Para um açoriano, ver a tempestade Kristin leva-nos nos Açores de volta 1980, ao terramoto. E o que eu vejo em Leiria, no centro do país, foi algo muito semelhante ao que aconteceu aqui em 1980. E nós levámos décadas, sobretudo uma década, a recuperar daquele fenómeno. Eu preparar-me-ia para pelo menos uma década para recuperarmos deste desastre."

Mas, voltando atrás na nossa conversa, temos a Tempestade Kristin, que nos próximos cinco, dez anos terá enormes consequências no país. E há aqui uma coisa em que eu, se calhar, como açoriano, talvez sinta mais do que aquilo que vejo no resto do país. Para um açoriano, ver a tempestade Kristin leva-nos nos Açores de volta 1980, ao terramoto. E o que vejo em Leiria, no centro do país, foi algo muito semelhante ao que aconteceu aqui em 1980. E nós levámos décadas, sobretudo uma década, a recuperar daquele fenómeno. Preparar-me-ia para pelo menos uma década para recuperarmos deste desastre. E, portanto, vai ser uma dificuldade, quer para o novo Presidente da República, quer para o Governo, seja ele de que partido for. Como é que nós vamos conciliar as nossas necessidades de reconstrução em termos internos, com as nossas necessidades em termos de adaptação à política externa? Isto vai ser um esforço muito exigente a que nós vamos ser submetidos. Até pelo menos 2035/2036.

Temos um poder central umbiguista? Ou seja, que não olha para as periferias de Lisboa, para o centro, para os Açores…. E se calhar também não olhava muito para o mundo.
Sim. Nós continuamos a ser um país muito francês, um país altamente centralizado. A centralização pode ter algumas vantagens, mas em situações como esta que aconteceu com a tempestade Kristin a centralização é um enorme problema, sobretudo se não existir uma articulação muito grande entre o poder local e o poder central. E, obviamente, nós estamos a ver agora as consequências políticas de tal facto. Estamos a ver também as consequências políticas de uma certa forma de estruturação do sistema de proteção civil nacional. Não sou um especialista nessa área, mas o problema parece-me evidente. Vamos ver que lições vamos tirar disso e como é que nós nos vamos adaptar. E depois também na articulação, mais uma vez, entre o poder local e o Governo central, na reconstrução de tudo o que foi destruído durante pelo menos a próxima década. Vamos ver como é que tal será feito e vamos ver quais são as consequências políticas disto correr bem ou correr menos bem. Aqui nos Açores, as coisas correram muito bem a partir de certa altura. Primeiro pelas decisões políticas que foram tomadas e segundo pela capacidade da população de se reorganizar e reconstruir. Vamos ver agora, em termos da região centro do país, como é que vai ser daqui para a frente.

Em 2020, houve a morte de George Floyd. Reflete muito sobre isso no livro e critica o puritanismo de uma certa esquerda norte americana, alguns chamam a isso ideologia woke. E por outro lado temos Trump e temos uma crescente popularidade de uma direita radical — o Miguel é até criticado por ter assinado o manifesto “A clareza que defendemos”. Escreve no livro que temos, por um lado, “uma direita reacionária” e, por outro lado, “uma geração leninista de esquerda”. Vivemos em tempos onde não há espaço para os moderados?
Talvez. Espero que não, mas talvez. Acho que a resposta ao assassinato de George Floyd foi aproveitada por uma esquerda identitária norte-americana para um assalto ao poder nas principais instituições do país. Estamos no final da administração Trump e Joe Biden continua esse processo um pouco para conseguir uma paz interna no Partido Democrata. Como argumento no livro, acho que a herança dessa esquerda identitária foi catastrófica em termos políticos para os Estados Unidos, porque vejo uma relação direta entre a evolução dessa esquerda e a vitória de Donald Trump.

E agora o que nós vemos é a direita, por assim dizer… — e aqui na direita que elegeu Donald Trump incluo muita gente que vem da esquerda e que não se revê nessa esquerda identitária —, essa direita que Donald Trump representa, triunfante e otimista em relação ao seu futuro. E os bons exemplos são os discursos de JD Vance do ano passado na Conferência de Segurança em Munique, mas também Marco Rubio, este ano, na Conferência de Segurança em Munique outra vez. Ou seja, uma direita muito mais dura, que entende que o problema que nós temos entre europeus e Estados Unidos é um problema cultural e civilizacional. E, portanto, os moderados, como eu, os moderados de centro-esquerda e de centro-direita, estão perante uma época bastante mais difícil para a defesa de uma certa ideia de sociedade. E foi por isso que assinei o manifesto de “A clareza que defendemos” em 2020. E também foi por isso que escrevi aquela passagem, porque as reações nesse dia foram bastante violentas [risos]. Um sinal do que estava por vir, mas também um sinal, como escrevo no livro, daquilo que aconteceu na Polónia desde o início deste século, em que as duas direitas, por assim dizer, se dividiram. Isso, obviamente, também aconteceu em Portugal.

“Comecei a perceber o apelo do Donald Trump aqui nos cafés em Angra do Heroísmo”

É curioso em relação a esta esquerda identitária que — aconteceu na eleição de Biden, mas que acho que aconteceu ainda mais agora na reeleição de Trump —, as minorias acabam por votar mais em Trump hoje em dia. Ele consegue aumentar junto desse eleitorado e, portanto, a esquerda identitária reforça esse discurso, mas não consegue cativar aquele que seria o público alvo.
Acho que essa esquerda que perdeu o contacto com o seu eleitorado tradicional, sobretudo por razões culturais, sobretudo por razões culturais. Ou seja, esta é uma esquerda urbana, altamente educada, mas que perdeu a noção de como o resto da sua sociedade realmente vive e das necessidades que as pessoas têm. E escrevo isso também porque vivo aqui. Talvez seja o analista que em Portugal, dentro do território nacional, vive mais longe de Lisboa. Ou seja, escrevo, estou aqui nos Açores, e aquilo que as pessoas sentem aqui não tem nada a ver com o que muita gente em Lisboa — que normalmente vive bem e que tem uma certa inclinação política — realmente pensa. São realidades completamente diferentes. Quando essas pessoas começam a votar fora dos partidos tradicionais, não são essas pessoas que estão erradas. Os partidos é que têm de fornecer novas respostas políticas a essas pessoas. E onde comecei a perceber o apelo do Donald Trump em relação aos açorianos que vivem há muito nos Estados Unidos e que sempre votaram no Partido Democrata, foi aqui nos cafés em Angra do Heroísmo. Foi aí que comecei a perceber, em 2015, 2016, “há algo de profundo a acontecer na sociedade norte-americana”. E, como costuma acontecer, esse movimento obviamente chegou aos países europeus e, obviamente, chegou a Portugal e está aqui connosco.

E olhando para os outros países europeus, ainda ninguém conseguiu fazer essa quadratura do círculo de como combater as ideias de Trump e chegar às preocupações das pessoas. Vemos em França que Bardella pode vir a ganhar, temos Meloni no poder em Itália… Digamos que a corrente da História neste momento é favorável a este tipo de movimentos e a outra corrente não consegue encontrar instrumentos para ser alternativa?
A hipótese que evanto, que é uma hipótese que será testada pelo tempo, é mais ou menos a seguinte. Nós entre os anos 60 e, do meu ponto de vista, 2022/23, vivemos uma época histórica dominada por um certo tipo de cultura política. Essa era uma cultura política mais de centro-esquerda. É possível — cá está, precisaremos de tempo para perceber — que nós, a partir de 2022, tenhamos entrado numa época histórica mais conservadora. E, portanto, 2020-2022 é o auge da esquerda identitária norte-americana, que depois também teve consequências na Europa. E se calhar agora há uma reação muito forte por parte dos eleitorados que não querem esse tipo de cultura política. E é possível que nós tenhamos entrado numa época histórica mais conservadora, que daqui para a frente as coisas sejam diferentes. É possível, esta é a hipótese que levanto e veremos se é ou não realmente assim. Mas em termos eleitorais, o que me parece claro é que hoje em dia o que se debate é que tipo de votação mais à direita haverá e não tanto à esquerda. Vou-me repetir: precisaremos de tempo para ver se é realmente assim. E os partidos moderados de direita e de esquerda, se quiserem ter futuro, têm de responder a esta transição cultural. Duvido que as coisas voltem para trás, posso estar enganado, mas duvido. E, portanto, nós entramos numa época mais populista, mais conservadora. Estamos a ver eleitoralmente tudo isto a acontecer na Europa e também nos Estados Unidos. Mas há casos em que os moderados conseguem prevalecer. Mark Carney no Canadá, António José Seguro em Portugal, e em outros países europeus provavelmente acontecerá o mesmo. E também vemos pessoas como Meloni a serem um pouco diferentes do que se pensava na altura.

O poder transforma, não é?
Exatamente, o poder de transforma e portanto vamos ver o que vai acontecer. Mas acho que é mais provável que estejamos a viver uma época mais conservadora do que o ciclo cultural anterior que durou cerca de 60 anos.

Mas parece-me que há aqui um paradoxo. Falamos numa época mais conservadora, mas esta é uma direita radical, que põe em causa a ordem internacional como a conhecemos. É conservadora por um lado, mas, por outro lado, há aqui um radicalismo, um desejo de romper com o que existia até aqui.
Se calhar usei o termo conservador erradamente. Concordo. Sim, há uma direita que não é conservadora. Donald Trump não é um conservador. Sob um certo ponto de vista, é um revolucionário. Ou seja, a ideia de que a democracia liberal deixou de funcionar, deixou de satisfazer as necessidades das pessoas e a partir daqui só há dois caminhos: um caminho da centralização do poder político — se nós quisermos, soluções mais autocráticas ou de democracias que deixam de ser liberais no sentido do controlo do poder —, a ideia de que o líder político deve ter o maior poder possível, as instituições que o controlam devem perder poder ou serem destruídas e o líder político passa a ter uma relação direta com o povo, por assim dizer. E há uma outra direita que diz que não, não pode ser assim. Temos de continuar a ser uma direita liberal, enfim, democrática, como sempre aconteceu. Portanto, estamos a assistir a essa divisão, mas, claramente, à medida que as sociedades se tornam mais complexas, a ideia de que as formas de representação política e de exercício do poder têm de mudar para se tornarem mais personalizadas num determinado líder político. E vejo com muita preocupação, e escrevo no livro sobre isso no capítulo final, o culto de personalidade que é feito hoje em dia a Donald Trump. Acho que isso é uma coisa altamente preocupante e até, sob um certo ponto de vista, completamente ridícula, porque Vladimir Putin está no poder há 25 anos na Rússia e não há um único edifício público, não há uma única estátua a Vladimir Putin em Moscovo. E nos Estados Unidos, em Washington, o que nós vemos é este culto de personalidade constante de Donald Trump, um líder político que precisa da afirmação constante de que é o maior, o mais grandioso Presidente dos Estados Unidos e até organizações como a FIFA lhe dão aquele prémio que, no meu ponto de vista, é absolutamente patético. Mas que é significativo, mostra um determinado tipo de ambiente político.

“Há profissões que não mudam: médicos, enfermeiros, bombeiros, caixas de hipermercado… Mas há outro tipo de trabalho que passou a ser feito de forma diferente e duvido que voltemos para trás”

Gostava de explorar isso consigo um bocadinho mais à frente. Antes disso, queria aqui uma mudança de agulha. Talvez uma das áreas onde a pandemia teve mais efeitos e foi mais transformadora foi na área do mercado laboral e até, de certa forma, da economia. O teletrabalho, uma noção de maior necessidade de separação do tempo profissional da vida pessoal, as novas gerações e a maneira como olham para o trabalho… Parece-me que é muito diferente e que pode ter sido influenciada pela pandemia. E depois temos a inteligência artificial. Estamos a entrar num novo modelo económico que não tem nada a ver com o que existia até aqui? A pandemia foi um catalisador nesse sentido?
É possível que sim. Há duas coisas que me chamaram a atenção. Tive uma pandemia muito boa comparado com as pessoas que vivem em grandes cidades.

Tinha ar livre…
Tinha ar livre! Tive uma boa pandemia, eu e minha família tivemos uma boa pandemia. Mas notei e escrevi sobre isso, aquela divisão que Robert Reich propõe a divisão da sociedade em quatro tipos de pessoas. Pertencia à secção das pessoas que trabalhavam e trabalham remotamente. A tecnologia permite-me viver aqui num sítio que tem imensa qualidade de vida e trabalhar em Lisboa. Mas há muita gente que não pode fazer isso. Dito isto, acho que no livro tento mostrar como a pandemia mudou certo tipo de profissões. Há profissões que não mudam: médicos, enfermeiros, bombeiros, caixas de hipermercado… Essas são profissões que para a sociedade girar são muito, muito necessárias. Mas há outro tipo de trabalho que passou a ser feito de forma diferente e duvido que voltemos para trás em termos de organização de empresas. Aquela coisa de um, dois dias por semana, as pessoas ficam em casa. Acho que isso é inevitável. E a introdução de sistemas de inteligência artificial, do meu ponto de vista, acelerará este processo de simplificação de muitas tarefas. Acho que isso mudou.

E não volta atrás?
Duvido que volte para trás. Isto também mostra como a nossa sociedade depende da eletrificação, completamente. Por exemplo, voltando a Leiria: tenho uma antiga aluna na Universidade Católica que vive na região de Leiria e que tinha a casa toda eletrificada, penso que o carro também. Com a tempestade Kristin, todo o ecossistema onde ela vivia deixou de funcionar. Portanto, a tempestade Kristin também nos mostrou a vulnerabilidade da eletrificação completa de uma sociedade. Estamos a caminho dessa eletrificação, mas a tempestade Kristin mostra-nos o que pode acontecer se não houver redundâncias no sistema.
Uma das coisas que a tempestade Kristin mostrou foi o que é que acontece numa sociedade que perde o seu sistema elétrico e é muito, muito difícil, à medida que nós caminhamos para a progressiva eletrificação, esta é uma coisa que temos que pensar.

Mas há uma outra coisa que tento demonstrar no livro algures em 2020, não me lembro exatamente da data. Penso que é a Bloomberg, tenho ali quatro ou cinco linhas escritas, em que é a primeira notícia escrita por um sistema de inteligência artificial. Ainda em 2020 pergunto a mim mesmo “onde é que nós estaremos a meio da década?” E agora nós estamos a ver, a meio da década, como é que as notícias são feitas. Cá está. Se não tivesse escrito um diário de política internacional, provavelmente nunca teria prestado atenção a um pormenor desse tipo. E voltando um pouco atrás na conversa, acho que é uma das vantagens de tentar escrever diariamente: prestarmos mais atenção às coisas.

E que nos ajuda outra vez a ter noção da questão da perceção do tempo. Em cinco, seis anos, a questão da inteligência artificial mudou completamente. Em 2020 era impensável nós vermos vídeos na internet que não tínhamos a certeza se são verdadeiros ou não. Isto aconteceu em pouquíssimo tempo….
É, há uma aceleração muito grande do tempo histórico e de tudo o que isso implica em termos políticos, sociais e mesmo em termos de educação. Duvido que as universidades, como existem hoje em dia em termos de avaliação de conhecimentos, possam persistir nestes modelos de avaliação durante muito mais tempo. Teremos que repensar muitas coisas, quer nas escolas, quer nas universidades, em termos de avaliação de conhecimentos com este tipo de tecnologias.

Trump e Vance “são agentes de demolição, mas não me parecem ser agentes de criação de algo novo”

É um estudioso dos clássicos. Porque é que os clássicos são relevantes hoje para nós?
Os clássicos são relevantes porque nada do que é verdadeiramente humano e político lhes é estranho. É por isso que leio sempre clássicos. Sempre gostei de ler e leio com a nova geração de alunos aqui nos Açores e também na Universidade Católica, no Instituto de Estudos Políticos.

É curioso como na Casa Branca, por exemplo, parece haver um certo fascínio com o Império Romano. JD Vance disse a certa altura que os Estados Unidos estavam numa fase semelhante ao fim da República [de Roma]. É uma comparação que faz sentido?
É uma comparação que faz sentido e é uma comparação a que nós devemos prestar atenção. É por isso que no livro falo sobretudo de Tácito, que é o grande historiador da transição do declínio da República para o Império. E quando JD Vance diz isso, é muito significativo que ele o diga. Ou seja, ele acha que as democracias liberais como existem, sobretudo no caso dos Estados Unidos, estão em declínio terminal. E toda a linguagem cultural e civilizacional de JD Vance — e também de Marco Rubio e também de Donald Trump — mostra exatamente isto. A ideia de acabar, de destruir o sistema e criar algo de novo. E essa coisa algo de nova que está a ser criada, terá que ser uma coisa mais, voltando atrás, centralizada num determinado tipo de liderança política e na diminuição do papel das instituições que controlam o poder político. No caso dos Estados Unidos, o Congresso ou o Supremo Tribunal. Na sexta-feira, quando o Supremo Tribunal norte americano faz um acórdão contra a administração norte-americana na questão do comércio internacional, o mais interessante para mim — e preocupante — não é a administração ter perdido, é a linguagem do Presidente Trump em relação ao presidente do Supremo Tribunal e em relação aos juízes que votaram contra a administração. Quando um decisor político faz isto a este nível, isto é um sinal político evidente de que algo de muito profundo está a acontecer na América.

Olhando para essa dimensão de personalidade e de pessoalização de Trump. Mary Beard, uma classicista que se tornou pop, dizia numa entrevista que se compara muito Donald Trump a um imperador romano, mas ela dizia que não concordava com as comparações específicas que eram feitas — as pessoas falavam em Júlio César, falavam em Calígula… E ela falava num imperador muito pouco conhecido que é — não sei se sei dizer o nome corretamente — Heliogábalo, que foi imperador ainda adolescente. Ela dizia que a comparação fazia sentido porque este era um imperador que parecia muito magnânimo para as pessoas a sua volta, criava um grupo à sua volta que o bajulava e ele retribuía isso, mas depois acabava sempre por as matar. E nós, de facto, vemos que Trump não consegue ter aliados durante muito tempo. Steve Bannon, John Bolton, agora Elon Musk… Ele acaba por estar sempre sozinho.
Essa é uma característica que Trump tem. Putin tem, Erdoğan tem, Órban tem e Xi Jinping também. Ou seja, a eternização no poder normalmente leva à eliminação de todos os potenciais rivais ou de pessoas que lhe digam não. A prazo acho que isso é mau para as sociedades desses países. Mas o que é interessante politicamente para nós refletirmos em Portugal é a ideia que uma parte significativa da sociedade tem de que os processos de decisão dos governos das democracias liberais se tornaram disfuncionais, são demasiado lentos e não respondem às necessidades das pessoas. O que estes líderes políticos vendem é, do meu ponto de vista, a ilusão de que a centralização permitirá: a) decisões mais informadas, e b) decisões muito mais rápidas. Não acredito pessoalmente que as decisões sejam mais informadas, pelo contrário, serão muito menos informadas e de pior qualidade. E não acredito que decisões muito rápidas como as que eles prometem acabem por ser as melhores para as sociedades. Mas isso é uma coisa que se testará eleitoralmente nos países europeus e nos Estados Unidos e no Canadá daqui para a frente também.

Isto acaba por estar tudo ligado. Trump toma decisões aparentemente de forma muito rápida e divulga-as na sua rede social. É uma completa transformação, não há intermediários, é pessoalizado nele, é feito de forma rápida e é feito através de uma tecnologia nova que ainda andamos todos a apalpar.
Isso é a forma como ele normalmente opera. E há outros líderes a copiar esse esse modelo político. A dúvida é saber se este sistema de processo e decisão política produz resultados satisfatórios para os eleitorados. Daí que vai ser muito interessante ver o que vai acontecer nos Estados Unidos em novembro [nas eleições intercalares]. E também será muito interessante ver o que o próximo ciclo eleitoral na Europa vai produzir. França será talvez o caso mais significativo, mas também temos eleições na Hungria daqui umas semanas e veremos qual será o resultado político.

"Julgámos que Trump era uma nota de pé de página na História, quando, de facto, ele é o verdadeiro agente da História, e Biden é que provavelmente será a nota de pé de página."

Acha que este caráter pessoal dos atores políticos torna mais difícil prever tendências futuras? Nunca sabemos o que é que um homem sozinho pode decidir que altere o rumo da História, a História não é determinada só por tendências maiores do que do que nós, é também pelas ações dos indivíduos.
Sim, no fim de contas, acho que nós estamos a ver em termos internos e externos que os sistemas políticos estão desequilibrados. Estamos a caminho de uma maior desordem. O que Donald Trump e JD Vance estão a fazer é a acelerar a desordem, porque entendem que o sistema já não tem energia suficiente para se regenerar e, portanto, que temos que caminhar para algo de novo. Ler Tácito nestas circunstâncias é muito interessante, porque se nós tirarmos os nomes, parece muito atual ler as histórias ou os anais de Tácito. Mas nós não sabemos ainda se estes líderes políticos, à medida que vão desestruturar o sistema, conseguirão realmente criar algo de novo. Sabemos uma coisa: são agentes de demolição, estão a demolir, mas não me parecem ser agentes de criação de algo novo. Talvez no início da próxima década apareçam os primeiros verdadeiros criadores. Agora parece-me ser mais a fase da destruição do sistema e da batalha política dos moderados de centro-direita e centro-esquerda, que acham que o sistema ainda tem energia suficiente para se regenerar e que apostam na reforma das respetivas democracias liberais. Esta parece-me ser a principal batalha política do nosso tempo. E o que quis registar no livro foi o início deste processo, quando Donald Trump recusa aceitar o resultado eleitoral e tudo o que se lhe sucede a seguir. E também como nós interpretámos mal, do meu ponto de vista, a presidência de Joe Biden. Porque julgámos que Trump era uma nota de pé de página na História, quando, de facto, ele é o verdadeiro agente da História, e Biden é que provavelmente será a nota de pé de página. Nós julgámos na Europa que tínhamos tempo. E, de facto, no meu ponto de vista, como escrevo no livro, não temos. Não tivemos.

Acha que no próximo ciclo de eleições presidenciais corremos o risco de Trump continuar a não reconhecer resultados caso perca? Quer dizer, ele não pode voltar a concorrer, mas podemos assistir a uma situação em que ele, ao querer revolucionar, leva adiante a ideia de “não, eu fico”.
É uma coisa que temos de considerar. Depois do que aconteceu em janeiro de 2021, acho que seria imprudente da nossa parte excluímos essa hipótese. O problema é que o movimento MAGA tem é que só tem um líder carismático como Trump. O infortúnio de Trump é ter a idade que tem. Se tivesse 50 anos, as coisas provavelmente seriam diferentes. E a grande dificuldade é como é que um movimento desse tipo, como o movimento MAGA, que depende exclusivamente de uma liderança profundamente carismática… Posso não concordar nada com Donald Trump, mas não tenho problema nenhum em reconhecer que ele é o líder mais carismático que a América teve nos últimos tempos nos Estados Unidos e a imensa lealdade pessoal por parte do eleitorado que votou nele. Se ele é ou não competente em termos económicos ou políticos, isso é outra história — que esse eleitorado não quer saber.

"O que interessa mesmo numa guerra não são os primeiros dias, mas sim os últimos."

E, portanto, como é que esse eleitorado sobreviverá e se organizará politicamente quando Trump sair de cena? E é por isso que não posso excluir que esta transição, no final da administração Trump, talvez venha a ser mais turbulenta do que nós gostamos de pensar na Europa. E a acontecer, por razões de idade os factos vão acabar por se impor, como se impuseram com Joe Biden. Quem será o ou a sucessora de Trump nos Estados Unidos? Porque este movimento, obviamente, continuará. Ou seja, em Portugal nós prestamos muita atenção a Trump e menos aos fatores estruturais que tornaram Trump possível. Se Trump sair em 2029 — e vamos esperar que saia, que termine o seu mandato — as forças estruturais que o levaram ao poder continuarão nos Estados Unidos. Vamos ver quem o Partido Democrata vai escolher para ser o candidato às eleições presidenciais e também os candidatos ao Congresso, à Câmara dos Representantes e ao Senado.

Dias depois, o Observador enviou mais perguntas a Miguel Monjardino sobre a guerra que rebentou no Médio Oriente. Estas são as suas reflexões.

O fenómeno “caótico e violento” da guerra, que torna impossível para Trump “controlar as forças políticas que estão a ser libertadas”

Os EUA e Israel levaram a cabo este ataque de grandes dimensões, provavelmente o maior envolvimento militar dos Estados Unidos no Médio Oriente desde a guerra do Iraque. Que consequências isso pode ter na presidência de Donald Trump, o homem que prometeu acabar com todas as guerras?
A guerra é sempre um fenómeno caótico e violento. As surpresas são sempre inevitáveis. Trump, e todos os decisores políticos em Israel, Teerão, Ancara e nas capitais árabes estão a tentar manter-se em cima de um tigre que corre desenfreadamente numa direção incerta. Não sei se Trump optará por guerra longa ou curta contra o regime iraniano. É possível que a situação política interna no Irão e a capacidade logística dos EUA influencie a sua decisão. O presidente dos EUA e Benjamin Netanyahu ambicionam redesenhar o mapa geoestratégico do grande Médio Oriente, mas é muito duvidoso que consigam controlar as forças políticas que estão a ser libertadas pelo fim da bipolaridade regional que existiu desde 1979. O que interessa mesmo numa guerra não são os primeiros dias, mas sim os últimos. Como escrevo no livro, todos estes factos deverão acelerar o processo de desordem regional.

Com a morte do ayatollah Khamenei, abre-se um período de enorme incerteza para o Irão e para toda a região. O que escreveu no seu diário sobre este dia?
Segui as lições da experiência nestas situações. Como escrevo no livro: “As primeiras 48 horas na política internacional devem pertencer aos jornalistas e aos comentadores. Esta tem sido uma boa regra profissional para mim. Um analista precisa de tempo para estudar e pensar.” O tempo não estava muito bom. Chovia um pouco e a humidade era de 91%. Fui andar uns quilómetros a pé. Enquanto subia, organizei as minhas ideias.
Quando regressei a casa, ouvi Lili Boulanger, “Pour les funerailles d’un soldat” e Jonah Kagen. Pensei numa frase de Arquidamo, um dos reis de Esparta, na véspera do início da guerra do Peloponeso: “Mas quando uma coligação de cidades se lança numa guerra por interesses individuais, não é então possível prever qual a forma como se desenvolverá, nem tão-pouco é fácil com ela acabar honrosamente”. (Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, I.82.6). Tomei nota disto por causa da relação entre Washington e Telavive.
Dividi a minha manhã e noite entre dois tipos de livros: (1) Thomas Schelling, Arms and Influence, Robert A. Pape, Bombing to Win. Air Power and Coercion in War e Stephen Budiansky, Air Power; (2) Vali Nasr, Iran’s Grand Strategy. A Political History, Robert Kaplan, The Loom of Times. Between Empire and Anarchy from the Mediterranean to China, Michael Axworthy, Revolutionary Iran, Laura Secor, Children of Paradise e John Ghazvinian, America nd Iran: A History. Estes são livros que tenho lido ao longo dos anos. Perguntas: Quais tem sido os resultados políticos do uso do poder aéreo, especialmente quando o objetivo é a mudança de um regime político? Que estratégia seguiu Teerão desde 1979? Qual tem sido a relação da sociedade iraniana com o seu regime teocrático?

Tomei nota de algumas coisas que me intrigaram: a precisão das informações de Israel sobre a localização da liderança iraniana; o risco que Teerão corre ao atacar 5 dos 6 países do Conselho de Cooperação do Golfo; que tipo de transição política poderá ocorrer no Irão depois da morte de Ali Khamenei; como os ataques terroristas do Hamas de 7 de Outubro de 2023 criaram um vulcão político regional que conduziu a um colapso externo e interno para o regime iraniano.
Escrevi à Classe 2026 de Geopolítica e Geoestratégia no Instituto de Estudos Políticos, Universidade Católica. Estes são os dias que mostram a utilidade do que lemos e debatemos. Ao início da noite, a SIC-Notícias transmitiu em direto a aterragem de vários reabastecedores norte-americanos na Base das Lajes. Menos notada foi a trajetória num céu estrelado de quatro aviões em direção a Oeste. B-2 de regresso aos EUA?