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Explicador. "Desafio do paracetamol" faz soar alarmes das autoridades de Saúde, mesmo sem casos registados em Portugal

Não é um fenómeno recente, mas voltou a aparecer no início deste ano em vários países da Europa. Em Portugal, médicos alertam para aumento das intoxicações, mas não conseguem fazer ligação ao desafio.

Martim Andrade
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O desafio é simples: tomar o máximo de comprimidos possível até precisar de ir para o hospital. É uma típica tendência que passa pelas redes sociais, mas em que a tentativa de atingir a viralidade acaba mesmo por se traduzir em graves implicações de saúde. Chama-se “Desafio do Paracetamol” e, apesar de não haver indicações de adesão entre as crianças e adolescentes portugueses, já fez soar os alarmes das autoridades de Saúde em Portugal.

A Ordem dos Farmacêuticos e a Ordem dos Médicos foram as primeiras a manifestar-se. O Presidente da Direção do Colégio de Farmacologia Clínica da Ordem dos Médicos, João Parracho da Costa, sublinhou, em comunicado, a importância de reforçar a literacia em saúde, sobretudo entre os mais jovens. A Ordem dos Farmacêuticos, por sua vez, fez a ligação entre a acessibilidade deste medicamento e os grandes riscos associados à ingestão indevida de paracetamol.

Entretanto, este domingo, também o Ministério da Saúde veio alertar para o crescente número de intoxicações de jovens associado a este fenómeno das redes sociais. “Não é um jogo. É um risco sério para a saúde”, lê-se num comunicado publicado na página oficial do Governo no Facebook. Para além desta mensagem dirigida às próximas potenciais vítimas deste desafio, a tutela lança um apelo aos pais e cuidadores para que comecem “a guardar os medicamentos em segurança e falar com crianças e adolescentes”.

Quando surgiu o desafio do paracetamol?

Este desafio não é algo novo, apesar dos alertas coincidentes de vários países na Europa. O hashtag #paracetamolchallenge ronda as redes sociais há mais de uma década, com um dos casos mais mediáticos a levar a um apelo público, semelhante ao que foi feito pelas autoridades portuguesas, mas escrito pela polícia escocesa. “NÃO se metam nisto. Causa falência renal e no fígado… e morte”, escreveu a polícia de Monklands, numa publicação na rede social X em 2015.

https://twitter.com/MonklandsPol/status/595515776028778496

O tweet fazia referência ao caso de um jovem escocês que, após ter visto outros utilizadores tanto do Facebook como do Instagram a fazê-lo, decidiu ingerir uma grande quantidade de comprimidos de paracetamol e, como consequência do desafio, acabou por ser hospitalizado. O caso não foi único e, apesar de não ter tido um desfecho fatal, outros utilizadores das redes sociais aproveitaram para se apropriar do hashtag para demover outros jovens de cometerem os mesmos erros com relatos pessoais.

“A minha irmã morreu após ter tomado demasiado paracetamol — crianças, não o façam”, escreveu uma utilizadora citada pelo The Guardian em maio de 2015. Outro conta que, aos 18 anos, na sequência de uma overdose deste medicamento, ficou com danos no fígado e sofreu “a maior dor que alguma vez sentiu na vida”, pedindo a outros que não sigam o mesmo comportamento.

"O que os conduz a praticar estes desafios passa quase sempre pela aceitação social, para não ficarem para trás, para sentirem que pertencem ao grupo. Faz parte da adolescência testar o limite"
Bárbara Ramos Dias, psicóloga

Uma década depois, a situação é semelhante. No passado dia 16 de fevereiro, a coordenadora da emergência pediátrica do Hospital Regional Universitário de Málaga confirmou à rádio SER que têm vindo a receber diferentes casos de crianças entre os 11 e os 14 anos, mas todos pelo mesmo motivo: ingestão de uma grande quantidade de comprimidos de paracetamol. “Não tivemos um grande número de casos, mas vemos uma tendência. E é muito preocupante”, afirmou Silvia Pastor, citada pelo El País.

Por esse motivo — e tal como foi feito no Reino Unido em 2015 —, a página oficial do hospital publicou nas redes sociais um vídeo a alertar os pais e outros jovens que se possam ter deparado com este desafio nas suas plataformas, com o objetivo de sensibilizar a população para o perigo do consumo indevido destes medicamentos. “Converse com os seus filhos, acompanhe-os no uso da tecnologia e fique atento a sinais de alarme como vómito, dor abdominal ou sonolência excessiva”, afirmou a responsável pelo serviço neste vídeo, sublinhando que “medicamentos nunca são um jogo”.

E, tal como aconteceu há uma década, o #paracetamolchallenge ou qualquer entrada no motor de busca das diferentes plataformas por este desafio abre uma lista que parece não ter fim de vídeos publicados por médicos ou órgãos de comunicação social a tentar demover os jovens de o praticar, reforçando os grandes riscos que estão associados e as complicações que podem surgir como consequência.

Houve um aumento de intoxicações ou overdoses relacionadas com o desafio de paracetamol em Portugal?

“O Ministério da Saúde alerta para o aumento de intoxicações de jovens associado ao chamado ‘desafio do paracetamol’ que circula nas redes sociais”. Foi esta a nota inicialmente publicada pela conta oficial do Governo no Facebook, para alertar a população para um fenómeno que se tem vindo a verificar noutros países na Europa e no Mundo. No dia seguinte, a publicação foi corrigida para retirar qualquer referência a um aumento dos casos, após questões do Observador.

De acordo com a coordenadora da Urgência Pediátrica da ULS Santa Maria, Erica Torres, mais de metade dos casos de intoxicação medicamente voluntárias nos últimos seis anos aconteceram entre 2024 e 2025. Nestes dois anos, o Hospital de Santa Maria registou 131 ocorrências, 59 em 2024 e 72 no ano seguinte. “O número é sempre a crescer”, afirmou em declarações à agência Lusa. A grande maioria feita com medicamentos disponíveis em casa, entre eles o paracetamol.

Não é, no entanto, possível verificar que exista um aumento de intoxicações associadas a este medicamento em concreto. E, quando questionada sobre a realidade do desafio do paracetamol em Portugal, a coordenadora do Centro de Informação Antiveneno do INEM, Fátima Rato, disse à Lusa não ter registo de qualquer caso diretamente associado a este desafio.

“Temos casos de intoxicações intencionais com paracetamol, nomeadamente em adolescentes (…) mas os números que temos este ano são sensivelmente semelhantes ao que tínhamos o ano passado e ao outro”, afirmou.

Pedidos de socorro ou aceitação social: o que leva os jovens a participar neste tipo de desafios?

Desafios nas redes sociais que acabam com desfechos trágicos não são novidade. A psicóloga Bárbara Ramos Dias, em declarações ao Observador, recorda as passagens dos desafios da Baleia Azul ou da ingestão das cápsulas dos detergentes para a loiça que, à semelhança do desafio do paracetamol, além de terem uma elevada probabilidade de acabarem com fortes complicações de saúde para quem os pratica, podem mesmo resultar na sua morte. Para a maioria dos jovens, o objetivo é “testar o limite”, como refere a profissional do setor, mas para outros pode tratar-se de um “pedido de socorro”.

A sobredosagem de paracetamol pode provocar "lesão hepática grave e irreversível, podendo evoluir para insuficiência hepática aguda, necessidade de transplante hepático e, em casos extremos, morte".

“O que os conduz a praticar estes desafios passa quase sempre pela aceitação social, para não ficarem para trás, para sentirem que pertencem ao grupo. Faz parte da adolescência testar o limite”, afirma Bárbara Ramos Dias. Mas muitos acabam por ter uma segunda intenção quando decidem participar neste tipo de desafios.

“Muitos têm pensamentos suicidas e veem a morte como uma solução. Pensam que querem morrer, porque sentem uma dor emocional tão grande. Mas não é isso realmente que querem, querem só acabar com o sofrimento”, explica a psicóloga, justificando o número de intoxicações voluntárias que têm sido registadas nos hospitais ao longo dos últimos anos. Para Bárbara Ramos Dias, a participação neste tipo de desafios pode partir também da “dor emocional silenciosa, da ansiedade que não conseguem controlar”, dando o exemplo das pressões que podem sentir na escola ou dos pais, em casa.

Erica Torres, a coordenadora da Urgência Pediátrica da ULS Santa Maria, admite que nos números contabilizados pelo hospital em Lisboa existam casos premeditados que configuram “verdadeiras tentativas de suicídio”, dando o exemplo de um adolescente que guardou medicamentos durante todo o verão para os ingerir mais tarde. No entanto, à Agência Lusa, afirmou que a maior parte dos casos registados de intoxicação voluntária — apesar de não estarem ligados ao desafio do paracetamol — está associado a atos impulsivos. “Zangou-se com o namorado ou o pai tirou o telemóvel, e têm esta atitude de uma forma muito impulsiva, que muitas vezes até se arrependem”, continuou.

Quais são os efeitos possíveis da sobredosagem de paracetamol?

“O mais perigoso é que, nas primeiras horas, e até no primeiro dia, pode não haver sintomas relevantes“, escreve a Ordem dos Médicos no comunicado publicado no final da semana passada, em que alertava para os perigos associados a este tipo de desafios.

O paracetamol é um dos medicamentos mais consumidos em Portugal, seja pelos seus efeitos analgésicos e antipiréticos, mas também por não necessitar de prescrição para ser comprado numa farmácia. Ainda assim, a Ordem dos Farmacêuticos reforça que apesar de ser ingerido à descrição do utente, o medicamento “não é inócuo”, sublinhando que, como todos os outros fármacos, “apenas deve ser utilizado quando necessário e de acordo com a posologia indicada pelo médico, farmacêutico ou constante do folheto informativo”, uma vez que “a toxicidade do paracetamol pode manifestar-se antes do aparecimento de sintomas clínicos”.

No seu comunicado, também publicado no dia 18 de fevereiro, a Ordem dos Farmacêuticos refere que em adultos, a dose diária de paracetamol não deve ultrapassar três gramas — e deve ser reduzida em casos de doença hepática ou na presença de fatores de risco. Nas crianças, a dose é calculada com base no peso corporal. A sobredosagem desta medicação pode provocar “lesão hepática grave e irreversível, podendo evoluir para insuficiência hepática aguda, necessidade de transplante hepático e, em casos extremos, morte”. Existem também casos — apesar de menos frequentes — de lesões renais, mas estes são principalmente observados após uma utilização prolongada.

A sobredosagem pode ocorrer por ingestão única de uma dose elevada ou por uso crónico acima das doses recomendadas. Os sintomas iniciais surgem geralmente nas primeiras 24 horas e incluem náuseas, vómitos, sudação, mal-estar e letargia”, explicam. “À medida que o dano hepático progride, pode surgir dor abdominal, evoluindo para complicações graves. Perante suspeita de sobredosagem, deve ser procurada assistência médica imediata, mesmo na ausência de sintomas, pois o tratamento é mais eficaz se iniciado precocemente”, conclui a Ordem.

"Se percebermos que a criança ou adolescente está muito isolada no quarto, é tentar perceber o que é que está por trás disso. É preciso ouvi-los, principalmente. Assusta-me mais os jovens que estão caladinhos no quarto do que aqueles que fazem barulho na sala"
Bárbara Ramos Dias, psicóloga

Alteração do acesso sem prescrição ao paracetamol ou maior atenção dos pais: como minimizar adesão aos desafios?

“Se o adolescente tem os medicamentos disponíveis no quarto, facilmente parte para uma atitude impulsiva”, alertou a coordenadora da Urgência Pediátrica da ULS Santa Maria, Erica Torres, em declarações à Agência Lusa. Para a médica, é preciso ter uma maior atenção à “dispensa de fármacos a menores nas farmácias”, bem como à presença dos adolescentes e crianças nas redes sociais. “Se não deixamos os nossos filhos andar sozinhos na rua, também não os podemos deixar sozinhos na internet”, defendeu.

Nuno Jacinto, o presidente da Associação de Médicos de Medicina Geral e Familiar, revela ao Observador que acredita que a solução deste problema não passa pelo aumento das restrições no acesso a este tipo de medicações. “Na esmagadora maioria dos casos, também já não será fácil a farmácia dispensar medicamentos a menores“, admite, sublinhando que o paracetamol é “um medicamento seguro, extremamente útil em múltiplas situações, que a grande maioria da população está habituada a usar nestas situações de doença ligeira, nomeadamente febre, dor, que usa com segurança e é bom que tenha este acesso que tem hoje em dia”.

Para o médico, o importante é “passar mensagens claras de educação para a saúde, de transmitir que, como qualquer outro medicamento, o paracetamol tem uma dose indicada, uma dose segura máxima, e que tudo o que for feito a partir daí está a ser feito contra aquelas que são as indicações, contra aquilo que foi testado”. A aposta, segundo Nuno Jacinto, deverá ser na literacia de saúde, apontando para a reduzida adesão do desafio em Portugal, referindo que qualquer alteração no acesso a esta medicação iria “prejudicar todos os outros e sobrecarregar o sistema de saúde”.

Já a psicóloga Bárbara Ramos Dias defende que a solução está em casa. “Acredito que é preciso mais apoio e presença dos pais. Ouvir, até mais do que presença, porque podem estar pouco tempo, mas ouvir”, reforça a profissional. “Os miúdos queixam-se muito de que os pais não os ouvem. E os miúdos precisam de ser ouvidos, precisam que os pais falem abertamente sobre estes temas e de terem capacidade de escuta”, acrescenta.

De acordo com a especialista consultada pelo Observador, a grande maioria dos jovens têm consciência das possíveis consequências da sobredosagem do paracetamol. No entanto, acredita que falta comunicação do lado dos pais para prevenir que os casos se agravem. “É prevenir. Se percebermos que a criança ou adolescente está muito isolada no quarto, é tentar perceber o que é que está por trás disso. É preciso ouvi-los, principalmente. Assusta-me mais os jovens que estão caladinhos no quarto do que aqueles que fazem barulho na sala”, conclui.

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