Aos 26 anos, João Pedro e Pinto já trabalhou na construção civil, nos CTT, num banco e até como vendedor ambulante. Agora, é professor de Português, integrando os chamados docentes com habilitação própria mas sem formação pedagógica, que são contratados pelas escolas ou agrupamentos. “No primeiro ano em que dei aulas, havia alunos com 21 anos e eu tinha 22. Eles até estranharam, quando eu entrei na sala primeiro. Tive de os chamar e dizer: ‘Sim, sou o vosso professor, podem entrar’”, recorda ao Observador.
Em quatro anos letivos, João Pedro passou por três escolas, repetindo este ano a Escola Secundária Braamcamp Freire, na Pontinha, em Odivelas. Em cada primeiro dia de aulas, preocupa-se com a primeira impressão. “Todos os anos levo o cabelo cortado reto, porque isso traz mais seriedade, e venho sempre de preto e de botas. Talvez ajude a impor algum respeito. Mas depois os alunos vão percebendo que não sou assim tão sério. Tento sorrir e estar animado porque acho que isso ajuda a que os alunos se interessem pelas coisas”, relata.
Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas, João Pedro reuniu créditos suficientes para ensinar Português, reforçando um sistema educativo que está a lutar contra a falta de professores a um ritmo de cerca de 4 mil reformas por ano. Entre os professores, há queixas de mais burocracia do que tempo para ensinar, baixos salários, dificuldade em subir de escalão, alunos cada vez mais desafiantes e pouca estabilidade, associadas à colocação longe da área de residência. Sem professores disponíveis, as soluções que os diretores têm encontrado para preencher os horários passam por horas extraordinárias ou contratar professores com habilitação própria.

“Estar dependente de professores com habilitação própria não é o ideal”
Esta modalidade passa por permitir o ensino de qualquer disciplina do 5º ao 12º ano (bem como coadjuvar no ensino do Inglês no ensino básico) através de uma licenciatura na área, ou seja, abarca licenciados que reúnam um determinado número de créditos no seu plano de estudos relativamente à disciplina a que se estão a candidatar. Cristina Mota, presidente da Missão Escola Pública, diz ao Observador que cerca de 5 mil professores estarão a lecionar nesta situação, mas ressalva que “apenas o Ministério da Educação, Ciência e Inovação tem os números oficiais, que teima em esconder.”
“O Governo está a tentar criar estratégias sem experimentar aquela que nós entendemos que efetivamente poderia trazer resposta à falta de professores: criar uma carreira atrativa. Não temos pessoas a formar-se em ensino, nem aquelas que estão formadas em ensino — as 28 mil que abandonaram a profissão nos últimos 20 anos — regressam ao ensino”, defende Cristina Mota.
“Estar dependente de professores com habilitação própria não é o ideal, mas agora já não há outra solução. Em tempo de guerra não se limpam armas”, acrescenta Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP). “O maior constrangimento das escolas públicas e privadas — isto é mau para o público e para o privado — é a escassez de professores, não há dúvida nenhuma. A solução é valorizar e dignificar a profissão, que durante muitos anos foi maltratada pelos políticos.”
“O problema da falta de professores está a agravar-se e já não é de ano para ano, nem de mês para mês: é de semana para semana. No primeiro período ficaram por dar mais de 250 mil horas e tivemos semanas onde mais de 100 mil alunos tiveram em falta pelo menos um professor. E sabemos também pela experiência que normalmente no segundo e no terceiro período a coisa piora por haver mais aposentações”, antecipa José Feliciano, um dos secretários-gerais da Federação Nacional de Professores (FENPROF).

Os problemas sentem-se no dia a dia dos diretores. “Este ano a falta de professores aumentou consideravelmente. Tenho horários em que ainda não tenho professor colocado, tive que atribuir horas extraordinárias e tive que deslocar pessoas, como uma bibliotecária que teve de voltar a dar aulas. Já tinha atribuído horas extraordinárias para completar o horário, agora para dar resposta a turmas, é o primeiro ano”, conta Rosa Fernandes, diretora do Agrupamento Braamcamp Freire, onde João Pedro leciona.
Os professores com habilitação própria são uma das soluções, mas não resolvem o problema: “A qualidade do ensino começa a perder-se, não tenho dúvidas. Esta solução não dá resposta a tudo. Apesar de já haver uma dependência destes professores para dar resposta às carências, ainda faltam profissionais. E nós aqui temos na calha uma série de reformas, vai haver muita gente a sair e não há renovação.”
O que diz é confirmado por um estudo publicado em outubro de 2025 pela Nova School of Business and Economics e que faz o diagnóstico da necessidade de docentes de 2025 a 2034. Nesses dez anos, estão previstas 46 mil aposentações, mais de um terço dos atuais 122 mil professores a dar aulas atualmente.




“Olhe, o menino não pode estar aí”
Além de ser professor com horário completo, João Pedro trabalha num restaurante aos fins de semana e pontualmente faz trabalhos como ator. Chegou à Escola Secundária Braamcamp Freire no início do ano letivo através de uma oferta-escola — um tipo de contratação de professores feita diretamente pelas escolas, fora dos concursos nacionais normais, que na teoria seria para preencher necessidades temporárias ou horários incompletos.
“Este ano só estou a dar aulas aos oitavos anos. Mas logo no primeiro ano, fiquei ‘batizado’. Dei aulas ao oitavo ano, décimo ano regular, décimo segundo profissional e turmas PLNM (Português Língua Não Materna) nos vários níveis (A1, A2 e B1)”, indica.
“Lembro-me que quando acabei o primeiro ano a ser professor, achei que nunca mais ia dar aulas. Nós pensamos que os professores dão aulas, vão lá, fazem testes e pronto, está tudo bem. Mas não, há outro trabalho burocrático para fazer. E foi desgastante, sobretudo porque dei logo aulas a diferentes anos, com diferentes matérias para preparar”, lembra o professor de 26 anos.
Noutras escolas, confundiram-no com um aluno e ainda ouviu um “Olhe, o menino não pode estar aí” quando se aproximava da sala de professores.

Às 11h45, começa a dar a aula de português do 8.ºC, sem um minuto de atraso — pelo menos por parte do professor. As lições 64 e 65 começam com a correção dos trabalhos de casa e o professor João Pedro percorre a lista de nomes para confirmar quem os fez: “Alex, TPC? Diana, TPC?” Ouvem-se alguns “fiz”, mas vários admitem ter feito “tudo menos a parte da gramática”, com justificações pouco convincentes.
Quando o professor utiliza a expressão 6-7 — que representa algo que nem é bom, nem é mau e que se tornou recentemente viral nas redes sociais —, um coro de alunos reage, alertando que não é bem assim que se diz. A turma tem 17 alunos, uma das mais pequenas que João Pedro já teve, o que lhe permite conhecê-los melhor e ajustar o ensino. “Gosto de perceber porque é que um aluno chama a atenção, de onde vêm essas coisas. Será que em casa não tem com quem falar?”.
Quando João anda pelos corredores, é várias vezes abordado. “Cortou a barba, ‘stor? Bué Estiloso!”, “Trouxe a sua namorada?”, “Amanhã temos questão de aula, né?”. O professor é paciente. “Às vezes passam do limite, falam de aspetos físicos meus ou perguntam coisas sobre a minha vida pessoal. Outras vezes é tudo tranquilo. Hoje até me disseram que querem vir aos apoios que dou, porque as minhas aulas são fixes.”
Numa escola nova, um professor nem sempre encontra o apoio de que precisa
João Pedro não tem dificuldade a encontrar colocação perto de casa por viver na periferia de Lisboa, onde a escassez é elevada. “Senti que havia umas escolas mais receptivas para novos professores do que outras. Cada diretor tem um projeto e portanto, a escola vai funcionar de uma forma diferente. Nesta escola, por exemplo, os novos professores têm uma reunião com a diretora e outras pessoas para os orientarem sobre como funcionam certas plataformas, o que é que há, o que é que não há, mas não é assim em todas as escolas e nem sempre encontramos o apoio que precisamos.”
A diretora Rosa Fernandes confirma: “Qualquer colega que entre na nossa escola vai ver como é que é a dinâmica. Tem logo o contacto com a área disciplinar que leciona e com o departamento, para ficar com um leque de apoios. O colega é acompanhado para se adaptar à escola e à parte informática. Como nós começámos a ter esta realidade no agrupamento, sentimos necessidade de ir ao encontro destes colegas para eles não se sentirem perdidos.”




Sâmia e Diana, duas outras docentes com habilitação própria, partilham o almoço com João Pedro. “Está a ser muito desafiante. Foi mais difícil nos dois primeiros meses, porque é muita informação para assimilar e até saber como avaliar era complicado. Ainda por cima calhou-me uma turma que ficou sem professor de Matemática e Economia durante muito tempo. Tive que entender o histórico e o que é que eles sabiam. Mas agora está melhor e os colegas ajudaram sempre que eu precisava”, explica Sâmia Lopes, de 24 anos, licenciada em Economia e com mestrado em Economia Social.
Apesar da pouca experiência, às vezes as aulas dos três professores são acompanhadas por estagiários. Temem ainda as direções de turma. “Acho que é muito insensato darem-nas a professores que não têm experiência. Ser diretor de turma é um desafio porque aumenta a responsabilidade, és o professor principal daquele grupo. Exige maturidade para falar com pessoas e gerir conflitos entre alunos e outros professores — temos de estar ali como um mediador e fazer gestão de crises”, relata João Pedro.
“Para mim, os alunos são os menores dos problemas — os pais conseguem ser mais complicados. Nas reuniões de pais, enquanto Diretor de Turma, já me acusaram de ter dito coisas que nunca disse, insinuando que se calhar me tinha saído um palavrão ou outro por ser mais novo. Não me davam tanta credibilidade e diziam que era compreensível não me levarem a sério por causa da minha idade”, acrescenta.
“Nós não conseguimos dar resposta a todas as turmas que temos, é a realidade do agrupamento. Tentamos dar-lhes bastantes ferramentas, mas alguém tem que ser diretor de turma”, explica a diretora Rosa Fernandes.
O Observador questionou o Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) sobre a avaliação das aulas dos professores com habilitação própria, o número de docentes deste tipo no País, a taxa de desistência destes docentes e sobre o reforço de vagas para profissionalização em serviço, mas não obteve resposta em tempo útil.




O “fácil” acesso à profissão e as dificuldades da profissionalização
“Nós temos um mês de período experimental, de parte a parte, mas é sempre um risco. E depois nós estamos tão desejosos que as pessoas venham para dar aulas, porque os alunos estão sem aulas, que é uma preocupação que elas fiquem”, desabafa a diretora Rosa Fernandes. “O problema é que nem sempre reúnem as condições e nós temos aí várias situações que são complicadas, de pessoas que não estão mesmo viradas para o ensino. Temos apanhado de tudo, infelizmente.”
A FENPROF também partilha dessa preocupação. “Chegamos a uma altura em que qualquer pessoa pode dar aulas, nem que seja ali duas ou três semanas, e depois volta à sua profissão. Isto, de facto, não é caminho para um sistema de ensino de qualidade, seja público, seja privado. Apesar de tudo a escola pública é um elevador social. Mas se deixar de ser, como é que é? Se ficar descaracterizada, sem profissionais, perde qualidade”, sublinha José Feliciano.
Para perceber como tem sido o trabalho dos professores, a diretora afirma que são feitas coadjuvações — presença de dois docentes na mesma aula — e assembleias de escola — reuniões da diretora com delegados e subdelegados. “Temos tido muito feedback e tem-me ajudado muito porque há várias coisas que nos passam ao lado.”

A profissionalização em serviço é o processo que permite aos professores com habilitação própria obter a formação equivalente ao mestrado em ensino, podendo assim ser professores colocados no quadro e progredir na carreira. De acordo com o despacho 7716/2024, essa profissionalização é reconhecida aos professores que concluam o curso e acumulem pelo menos seis anos de serviço efetivo.
Fenprof, MEP e ANDAEP reforçam a necessidade de estes professores completarem a sua formação e, pela primeira vez, o Governo quer introduzir esta questão no Estatuto da Carreira Docente (ECD), que está a ser negociado com os sindicatos.
O documento divulgado pelo Governo detalha que uma das propostas pretende reduzir o tempo para a profissionalização para três anos, sem possibilidade de prorrogação. “A não obtenção da formação pedagógica, no período referido, determina a caducidade do contrato de trabalho e a cessação de funções no final do ano letivo”, adianta a proposta. A entrada na carreira pressupõe também um ano inicial de período experimental, com acompanhamento por um docente designado, que vai avaliar e determinar se há manutenção ou cessação do vínculo.
Desde outubro de 2025 — quando o Governo anunciou um reforço de vagas para a formação de professores — foram abertas apenas 300 vagas para a profissionalização em serviço. Estas vagas, fruto de uma parceria entre o Governo e a Universidade Aberta, já estão completas, detalha a Fenprof.

João Pedro não pretende manter-se na carreira de ensino, ao contrário das duas colegas. Contudo, há uma coisa que gostava de fazer antes de se afastar: dar aulas na escola em que andou — a Escola Secundária de Odivelas — para retribuir o que lhe deram.
“Há professores que se preocupam mesmo com os alunos e fazem mais do que ser professores. E eu senti isso também como aluno: tive um período da minha vida em que estava a passar dificuldades e tive uma professora que tentou compreender, tentou arranjar trabalho para a minha mãe, foi comigo ao supermercado para comprar coisas, arranjou pequeno almoço na escola, enfim, essas coisas todas. E isso não é a função do professor, mas às vezes é isso que faz a diferença”, relata.
“Eu gosto de dar aulas, mas não gosto de ser professor. Dar aulas é incrível. E é extremamente interessante perceber o impacto que se pode ter na vida de alguém. Mas não gosto de ser professor, porque envolve também questões burocráticas ou reuniões que às vezes, na minha visão, não servem de muito — são muito mais para cumprir agenda ou protocolos, e é também por isso que não quero continuar nesta profissão. Às vezes parece que a sociedade mudou, mas a escola não.”