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(A) :: De polícia a um dos barões da droga mais poderosos da história. Quem é El Mencho?

De polícia a um dos barões da droga mais poderosos da história. Quem é El Mencho?

Um casamento deu o poder que faltava a El Mencho para se tornar no capo de um dos cartéis mais perigosos do México. Matou juízes, militares, políticos. Até ser apanhado por causa de uma namorada.

Manuel Carvalho
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Quando Nemesio Oseguera Cervantes nasceu, filho de uma família pobre que trabalhava num campo de abacates, dificilmente se poderia prever que se tornaria no homem mais procurado do México. Ou que a sua vida seria envolta em narcotráfico, crime, dinheiro e poder. Ou que acabaria morto com a ajuda dos Estados Unidos da América (EUA), depois de as autoridades mexicanas seguirem uma sua namorada, desencadeando uma onda de violência em todo o país.

El Mencho, como era conhecido o líder do Cartel Jalisco Nova Geração, morreu este domingo em Tapalpa, Jalisco, a caminho da Cidade do México, num helicóptero, depois de ter sido ferido na operação militar que o procurava deter. A reação à sua morte mostra bem a força da organização criminosa que chefiava: estradas cortadas, carros incendiados, e em 24 horas 62 mortes e 70 detidos, informou o Governo esta segunda-feira, citado pelo jornal El Universal.

Nemesio Oseguera Cervantes nasceu em 1966 na região de Terra Caliente, Michoacán. Tinha 14 anos quando deu os primeiros passos no mundo do crime. Em 1980, começou a vigiar plantações de marijuana, já depois de ter abandonado a escola no quinto ano, para ir trabalhar no campo com a sua família, conta a Rolling Stone num extenso perfil publicado em 2017

Não ficou muito tempo nessas funções. El Mencho partiu para o norte e foi para São Francisco, nos EUA, onde em 1986 foi detido por porte de arma carregada e posse de bens furtados, quando tinha 19 anos. Depois de libertado, voltou para o México.

Mas não ficou por aí. Nemesio regressou a São Francisco em 1989 e cruzou a fronteira diversas vezes, traficando drogas sob vários pseudónimos, relata a Univision, citada pela revista norte-americana. Há um relatório do departamento do Tesouro dos EUA, de 2015, que afirma que o “envolvimento significativo” de Cervantes no tráfico de droga começou em 1990, quando tinha 24 anos. Acabou, mais uma vez, detido e foi deportado poucos meses depois.

De São Francisco para os maiores cartéis

El Mencho estava determinado a continuar a vida em São Francisco e, por isso, voltou em 1992, quando foi novamente detido por supervisionar um negócio de droga do irmão, Abraham: cinco onças (cerca de 28 gramas) de heroína por 9.500 dólares (pouco mais de 8 mil euros ao câmbio atual). Os dois irmãos perceberam tarde demais que estavam a negociar com polícias à paisana. Depois de El Mencho ser apanhado, o Centro de Correção de Big Spring, no Texas, passava a ser a sua nova casa, onde a maioria dos reclusos eram imigrantes ilegais, tal como ele. Em 1997, Nemesio saiu em liberdade condicional e voltou a ser deportado, mas a prisão texana viria, mais tarde, a revelar-se útil para o futuro barão da droga mais poderoso da sua geração.

De volta ao México de forma definitiva, Nemesio foi para Tomatlán, no estado de Jalisco, e tornou-se polícia estadual, que é vista como corrupta, ao contrário da polícia federal, de acordo com a revista Rolling Stone. Na mesma altura, mudou-se para Guadalajara e juntou-se à organização criminosa que lhe abriu as portas para o crime organizado de narcotráfico: o cartel del Milenio. Foi a primeira grande organização criminosa que o então iniciante integrou. Serviu de “guarda-costas, executor, pago para matar”, um sicário, diz Scott Stewart, analista de cartéis numa empresa privada de serviços secretos, citado pela mesma revista. El Mencho também supervisionou a segurança e a violência operacional do famoso Cartel de Sinaloa, cujo antigo líder, Joaquín ‘El Chapo’ Guzmán, cumpre pena de prisão perpétua numa cadeia norte-americana, refere a CNN. Aliás, é nesse cartel que protagoniza um das mais conhecidas matanças de adversários: numa zona turística de Vera Cruz, seis furgonetas deixaram na estrada 35 cadáveres de alegados membros de Los Zetas. El Mencho ganhou aí um novo cognome, “O Matazetas”, relembra o El País.

Foi pelas experiências anteriores nos EUA e pela violência que Nemesio Oseguera Cervantes se foi tornando El Mencho. À medida que subia na escada do crime, a alcunha derivada do seu primeiro nome (lido em espanhol), foi sendo cada vez mais conhecida. Uma deceção abriu a porta à criação do seu próprio cartel. Quando alguns dos líderes do Milenio foram detidos em 2009, o michoacano, que já era uma das principais figuras do cartel, não foi escolhido para “capo”. Por isso, abandonou-o e fundou o Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), que declarou guerra ao Milenio e ao Sinaloa. Chamou para a sua organização criminoso alguns dos seus colegas reclusos no Centro de Correção de Big Spring, no Texas, que tinha conhecido quando esteve detido.

Um casamento estratégico

O CJNG foi para a rua pôr em prática a guerra que havia declarado. “Aqueles que eram leais ao Milenio foram mortos. Os outros foram forçados a fugir”, conta Kyle Mori, agente da DEA (Drug Enforcement Administration, departamento que combate o tráfico de droga) em Los Angeles, à Rolling Stones. Guadalajara tinha um novo dono. O seu nome dividia-se em três: Nemesio, Mencho e CJNG.

Mas não foi só o tráfico de droga e a violência que levaram Nemesio e o seu novo cartel ao topo da cadeia do crime. Enquanto capataz do grupo de Ignacio “Nacho” Coronel — número três do cartel Sinaloa, lembra a BBC —, faltava-lhe o capital necessário para liderar uma organização de grande escala, como queria que o CJNG fosse. A solução viria com o casamento com Rosalinda González Valencia. A mulher deu-lhe a legitimidade e os recursos do clã criminoso Los Cuinis —  família com influência e poder financeiro, diz o mesmo relatório do departamento do Tesouro dos EUA —, cujo braço financeiro era liderado pelo  cunhado Abigael, irmão de Rosalinda.

“Na verdade, El Mencho chegou à liderança do cartel através de uma estratégia diplomática via casamento”, conta o analista de segurança pública David Saucedo à CNN. Esta união estratégica permitiu que El Mencho transformasse o grupo numa das organizações criminosas mais ricas e poderosas do México, combinando o seu comando paramilitar com a sofisticada e ilegal rede financeira da família de Rosalinda.

Por outro lado, imprimia alguma modernidade ao grupo, descentralizando-o — está presente em pelo menos 28 dos 31 estados mexicanos, conta o Insight Crime —  e fazendo ações de propaganda, frisa o El País. Mais recentemente, nas redes sociais, por exemplo, divulgava imagens de membros do CJNG, com roupa paramilitar, com o logótipo do cartel no peito, em camiões modificados para parecerem tanques. Armados com espingardas de assalto, entoavam cânticos ao Senhor dos Galos, outra alcunha de Nemesio, referente à sua paixão pela luta dos galos.

https://observador.pt/2026/02/23/portugal-entre-os-varios-paises-a-emitir-avisos-de-seguranca-depois-de-deflagrar-de-violencia-no-mexico/

Com armas e recursos financeiros — em 2019, por exemplo, o património ascendia a 20 mil milhões de dólares (cerca de 16,95 mil milhões de euros) segundo a BBC — e humanos, usando a violência, dissuasão e coação para conquistar e manter o poder territorial, o cartel de El Mencho foi crescendo na operação de tráfico de droga para os EUA e Europa. Alargou-se a redes ilegais de imigração e lavagem de dinheiro, estabelecendo restaurantes em nomes das filhas, por exemplo, conta o El Pais. Discreto, frio e determinado, matou adversários, militares, políticos e juízes (como por exemplo o que determinou a deportação de El Menchito, o filho, dos EUA).  El Mencho tornou-se tão poderoso que o seu cartel conseguiu em 2015 abater numa emboscada, com uma basuca, um helicóptero militar, matando três soldados: vingava-se assim da morte de um dos seus colaboradores.

Essa e muitas outras ações criminosas do cartel fizeram com que os EUA colocassem a cabeça a prémio de Nemesio Cervantes, ou alguma informação que o permitisse, por 15 milhões de dólares (cerca 12,7 milhões de euros).  Não se sabe se esse prémio será entregue a alguém. Até ao momento, conhece-se apenas que Washington ajudou o México passando-lhe informações e que foi ao seguirem uma namorada de El Mencho até um complexo de cabanas que acabaram por encontrar o barão da droga. Confirmada a presença dele no local foi lançada a operação militar, mas o “capo” e alguns dos seus colaboradores conseguiram fugir para a floresta próxima. Porém, não tão longe que as balas não os alcançassem. Feridos, El Mencho e outros três elementos do cartel ficaram feridos e acabaram por não resistir, não chegando com vida ao hospital para o qual eram transportados num helicóptero.

El Mencho morreu, mas a violência CJNG ficou. A morte do líder gerou uma violenta vaga de retaliações coordenada em diversos estados com a morte de, pelo menos, 26 elementos das autoridades, noticiou a Reuters. Os confrontos têm tido lugar no sítio onde o cartel, um dia, se emancipou: nas ruas.

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