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"Terra Vil", o retrato de uma comunidade do interior marcada por uma tragédia

A história de amparo entre duas famílias fragmentadas é o centro do filme realizado por Luís Campos, que quis também retratar uma comunidade e uma região marcadas pela tragédia de Entre-os-Rios.

Agência Lusa
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Terra Vil, que se estreia na quinta-feira, nos cinemas, é a primeira longa-metragem de ficção de Luís Campos e evoca, de uma forma indireta, os acontecimentos ocorridos há 25 anos, com a queda da ponte que ligava Entre-os-Rios e Castelo de Paiva, e que causou 59 mortos.

Em entrevista à agência Lusa, Luís Campos explicou que tinha vontade de retratar, pela ficção, uma paisagem humana e física do interior do país, que deixasse transparecer “uma certa portugalidade”, a partir da história de duas famílias independentes, que se apoiavam mutuamente.

No filme, essas duas famílias são interpretadas pelos atores Ruben Gomes e William Cesnek, um pai pescador que luta contra um problema de alcoolismo, e o filho adolescente em situação de risco; e pelas atrizes Lúcia Moniz, Beatriz Relvas e Francisca Sobrinho, no papel de uma mãe e filhas adolescentes, que ajudam na educação do rapaz e na apanha e venda de lampreia.

A história das duas famílias interliga-se igualmente com o impacto do encerramento das minas do Pejão (Castelo de Paiva), nos anos 1990, com as alterações climáticas, que afetam a apanha da lampreia, e com memória da queda da ponte Hintze Ribeiro, em 2001.

“Várias histórias que eu fui conhecendo localmente foram influenciando [o argumento], mas eu não me inspirei em nenhuma história em particular, eu não quis retratar a pessoa A, B ou C, foi mais esse sentimento quase comunitário geral da região. (…) Há ali um trauma psicológico que é partilhado pela comunidade, tenham tido perdas diretas ou não, mas eu acho que foi essa atmosfera, no seu todo, meio etnográfica, uma paisagem deslumbrante, que eu acho que torna o filme muito bonito”, disse.

Terra Vil, filmado em Castelo de Paiva, Penafiel e Entre-os-Rios, foi já exibido a membros da comunidade de Castelo de Paiva, nomeadamente da associação de familiares das vítimas da queda da ponte Hintze Ribeiro.

“O ‘feedback’ que me deram é que se sentiram devidamente respeitados, que o filme é respeitoso e isso para mim era muito importante; que, da perspetiva deles, o filme pode ajudar num diálogo constante de superação que estas pessoas têm para lidar com esse trauma, que eu acho que é muito forte”, contou.

Com o filme a chegar ao circuito comercial, Luís Campos espera que os espectadores sintam empatia por aquelas personagens.

“Eu acho que são personagens reconhecíveis de várias comunidades portuguesas. Acho que se evidencia muito no filme essa certa portugalidade, que trata não só das tradições, mas do comportamento, das relações humanas. Então, eu gostava, acima de tudo, que as pessoas reconhecessem que são os seus potenciais vizinhos ou [que] conhecem aquelas personagens”, afirmou o realizador.

Sobre a relação dos portugueses com o seu cinema — e a baixa audiência em salas de cinema — Luís Campos reconhece que o país está ainda “muito longe de uma relação sustentável, saudável entre o público e cinema português”.

“Mas está a sair agora um conjunto de filmes de base narrativa, histórias com propostas acessíveis, mas não por isso menos sofisticadas, não menos conceptuais, autorais, que conseguem comunicar com um público que eu espero que seja mais amplo”, disse.

Terra Vil é uma produção da Matiné em coprodução com Itália, e conta com apoio do Instituto do Cinema e do Audiovisual e da RTP.

Luís Campos é autor das curtas-metragens Carga (2017), Boca cava terra (2022) e Monte Clérigo (2023), esteve na fundação do festival Guiões, trabalhou noutras produtoras de cinema e televisão até criar a sua própria produtora, Matiné.

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