1. O mito das Cinco Idades
Ao lado dos dois grandes textos homéricos que influenciaram o Ocidente, temos de colocar Hesíodo, talvez seu contemporâneo (a doutrina diverge), e os seus dois textos clássicos: Teogonia, sobre a origem e a sucessão dos deuses, e o filosoficamente mais interessante Trabalhos e Dias. Voltaremos provavelmente a este último pela reflexão que promove sobre a importância do trabalho e a sua associação à justiça; por agora, interessa-nos o nele incluído “mito das Cinco Idades”, que permite identificar um dos aspetos que mais distingue os antigos dos modernos.
É que os antigos, ao invés de pensar no tempo como uma linha em direção a um mundo melhor e a uma humanidade aperfeiçoada, teimavam em salientar como as gerações se degradam. É por essa razão que, no mito das idades, passamos da idade de ouro para as idades de prata, bronze e, finalmente, ferro (os gregos introduzem a novidade de uma geração de heróis entre as duas últimas). A ideia de progresso parece, assim, tipicamente moderna. Mas estaremos realmente condenados à degenerescência das gerações?
É difícil ler o mito das idades sem pensar no chamado “Flynn effect” (que Maria João Afonso explica num episódio recente do 45 graus), de acordo com o qual seria possível encontrar um crescimento sustentado do quociente de inteligência (QI) nos testes que foram realizados ao longo do século XX por todo o mundo. Seria a degenerescência geracional desmentida pelo “efeito Flynn”?
Várias razões são apontadas para este registo, mas importa notar que, em Os Superficiais, Nicholas Carr já havia avançado com a hipótese de um salto cognitivo ter começado ainda no final da Idade Média quando a tradição oral foi substituída por uma progressiva prática de leitura privada, o que exigia um elevado nível de concentração:
“Nos espaços de silêncio, abertos pela leitura prolongada e concentrada de um livro, as pessoas faziam as suas próprias associações, retiravam as suas próprias inferências e analogias, desenvolviam as suas próprias ideias.”
Através de uma curiosa dinâmica, este esforço eminentemente individual traduziu-se em resultados coletivos, sobretudo depois de Gutenberg ter permitido uma partilha mais fácil do conhecimento. As gerações seguintes beneficiaram desse pensamento consolidado e contribuíram, por sua vez, para um maior aprofundamento intelectual. Era mesmo como subir aos ombros dos gigantes e puxar atrás de si cada vez mais pessoas.
Só há um pequeno problema. É que os estudos mais recentes têm apontado uma reversão do efeito Flynn: ele teria parado na década de 1990, ao ponto de alguns autores já terem afirmado, polemicamente, que as gerações desde então se estão a tornar menos inteligentes. Estamos, na verdade, a degenerar?
2. O impacto da tecnologia
Talvez ainda não seja possível, a esta distância, tirar conclusões definitivas sobre a causa desta reversão, mas muitos têm levantado a hipótese de resultar do impacto da tecnologia digital.
O livro de Nicholas Carr é, precisamente, sobre os efeitos da internet na forma como o cérebro se organiza e no modo como lemos e pensamos – e a sua conclusão é a de que ela nos torna mais distraídos, com menos capacidade de pensamento profundo e, por isso, mais estúpidos). As redes sociais teriam agravado esse problema e investigações mais recentes analisam já o efeito de apodrecimento cerebral (“brain rot”) provocado pelo uso de chatbots de inteligência artificial generativa.
Todas estas razões permitem tomar uma posição segura quanto à exclusão da tecnologia digital no ensino obrigatório: ao contrário da degenerada ideia de tutores digitais, na escola não devem estar presentes telemóveis, tablets ou inteligência artificial degenerativa.
Apesar de vivermos num ambiente cultural que evita a assunção de responsabilidades, sobretudo quanto aos mais novos, não devemos fugir ao nosso dever de proteção. Pelo contrário, devemos tomar as medidas que, atendendo à informação disponível, os protegem dos impactos negativos dos novos produtos que invadem o mercado. E os amantes da IA não precisam de se preocupar: da mesma forma que eles conseguiram “compreender e usar” a IA, os miúdos também o conseguirão fazer, se for necessário. Vamos ser sinceros: até um chimpanzé conseguiria usar um chatbot (e quanto ao “prompting”, lá iremos).
A questão não é tão simples no que diz respeito à Universidade. Os estudantes já são aqui maiores de idade e, como tal, devem ser responsabilizados pelas decisões que tomam, pelo que não caberia ao estado aprovar uma proibição genérica de usar ferramentas digitais. Por outro lado, a questão não deve ser discutida na perspetiva da avaliação: o objetivo da Universidade não é avaliar e os métodos de avaliação são adaptáveis.
A discussão deve ser colocada, antes, a partir de uma questão teleológica: para que serve a Universidade? Qual é o seu telos?
3. O telos da Universidade
No recente livro que tem como título precisamente A Universidade, Maria Filomena Mónica é categórica: “Uma boa Universidade destina-se sobretudo a ensinar a pensar. Isto, sim, é imprescindível.”
Clarifiquemos: trata-se de ensinar a pensar superiormente, o mesmo é dizer, e como defende a autora, que a Universidade serve para formar elites – não no sentido de apenas os filhos dos ricos a poderem frequentar, mas no sentido de os estudantes universitários, independentemente do seu contexto económico, deverem empreender uma formação intelectual superior.
Também esta ideia se tem tornado contraintuitiva. Nas últimas décadas, tem-se propagado a ideia de que a Universidade deve ser aberta a todos os alunos e perder a sua dimensão “elitista” – um objetivo que muitos resumem na expressão “democratizar a Universidade”. Mas há dois problemas com esta posição.
Em primeiro lugar, tornar a Universidade num ensino “terciário”, sem regras de acesso exigentes, esvazia o seu telos e implica repensar o que queremos para a sociedade portuguesa: é possível, sequer, ter um país desenvolvido sem elites intelectuais?
Em segundo lugar, devemos estar atentos à “falácia da democratização”, que pode ser definida deste modo: o facto de um regime político ser democrático não implica democratizar e politizar tudo. Aliás, fazê-lo conduz (e tem conduzido) à degradação da própria democracia. Um regime democrático saudável tem de saber estabelecer fronteiras entre aqueles espaços que devem ser sujeitos às regras democráticas e os outros espaços que, tendo uma finalidade distinta, devem ter regras de funcionamento diferentes. A confusão entre esferas destrói as normas sociais e gera caos, o que é particularmente evidente ao nível do ensino: a “democratização das escolas” desvia-as da sua função (a transmissão e aquisição de conhecimento), como se tem verificado por todo o mundo ocidental.
4. Inteligência degenerativa
Se aceitarmos que o telos da Universidade é “ensinar a pensar” e “preparar as elites do país”, a questão seguinte é a de saber se a utilização de inteligência artificial generativa permite essa finalidade. E a verdade é que tudo aponta para que a resposta seja negativa, na medida em que ela substitui o cérebro na realização das tarefas que são imprescindíveis para aprender a pensar. Afinal,
1) o cérebro precisa do trabalho árduo de ler, estudar, esforçar-se e sofrer para atingir patamares de excelência intelectual;
2) a parte mais importante da Universidade é ler os textos realmente complicados para os quais o nosso cérebro está finalmente pronto, e quando usamos chatbots para resumir leituras e explicar a matéria estamos a limitar o nosso desenvolvimento cerebral;
3) a Universidade é o espaço privilegiado para estimular intelectualmente o cérebro e é isso que torna o ensino superior, mas se as tarefas difíceis forem feitas pela máquina, os estudantes não sairão da Universidade a pensar melhor e a saber mais;
4) e o mais triste é que, se alimentarmos a máquina, pedindo-a que “leia” os textos, ela realmente fica mais “inteligente” – mas nós condenamo-nos à degenerescência cognitiva.
Apesar da maioridade, os alunos chegam hoje à universidade cada vez mais impreparados e imaturos e estão muito longe de ser adultos. É nossa obrigação orientá-los intelectualmente e isso significa exigir páginas e páginas de leitura difícil (e o correspondente nas áreas das ciências exatas), reflexão profunda e amadurecimento intelectual. O mesmo é dizer que um professor deve ser muito claro quanto ao preço a pagar por usar a “máquina”, e deve aconselhar vivamente o método “antigo” – sim, aquele que permitiu o maior salto cognitivo da história humana. Assistir ao embrutecimento dos alunos na mão dos chatbots é, simplesmente, desistir do futuro.
Recentemente, uma jovem universitária, com quem conversava sobre a sua experiência como estudante do 2.º ano, desabafou com aquela inocência desarmante das pessoas boas: “Não sei como é que antes se conseguia fazer o curso sem chatgpt!”. Um desabafo honesto, mas que nos deve fazer refletir: o que raio estamos a fazer aos mais novos?