Na noite de 2 de dezembro de 2010, algumas das figuras públicas mais conhecidas de Nova Iorque seguiram para um luxuoso apartamento no Upper East Side para um “jantar pequeno” com um membro da realeza britânica. Nomes como Woody Allen e a mulher Soon-Yi, os apresentadores de televisão Katie Couric e George Stephanopoulos, a comediante Chelsea Handler ou o apresentador de talk show Charlie Rose.
À porta da casa, a guardar o evento, terão encontrado alguns membros da segurança privada do anfitrião e do seu convidado, o então príncipe André, filho da Rainha Isabel II — o que significa que terão sido agentes da Polícia Metropolitana de Londres a protegerem a casa de Jeffrey Epstein naquela noite. Na passada sexta-feira, a polícia anunciou que estava a questionar os agentes que trabalharam na segurança de André Mountbatten-Windsor com vista a obter possíveis informações relacionadas com os factos divulgados sobre a sua ligação a Jeffrey Epstein.
https://observador.pt/2026/02/20/buscas-no-royal-lodge-continuam-pelo-segundo-dia-depois-da-libertacao-de-andre-mountbatten-windsor/
Vários emails que estão na última tranche de ficheiros divulgados pelo Departamento de Justiça norte-americano, o equivalente à Procuradoria-Geral da República que tutela as procuradorias do Ministério Público Federal que existem nos 94 distritos judiciais federais dos Estados Unidos, sugerem que terão sido polícias britânicos a fazerem a segurança do jantar. Como membro sénior da família real na época, o então príncipe viajava sempre acompanhado por agentes de proteção pessoal, membros do efetivo da Polícia Metropolitana de Londres.
As mensagens revelam os preparativos para a viagem do então príncipe até Nova Iorque em dezembro de 2010, e as orientações entre membros da equipa interna de Epstein sobre onde André ficaria e onde os seus seguranças ficariam alojados. A 26 de novembro o secretário particular de André pede a morada de onde o ex-príncipe ficaria hospedado e a “confirmação sobre se há espaço para os seus dois seguranças na casa”. Já emails internos entre membros da equipa de Epstein confirmam que havia “espaço para os guarda-costas de André… um no 4º andar e outro no 5º andar”. As mensagens ainda sugerem que Mountbatten-Windsor e os dois agentes da Polícia Metropolitana que o acompanhavam receberam um código de segurança temporário para “entrar e sair” da propriedade de Epstein em Nova Iorque.
Já numa mensagem de 1º de dezembro de 2010, na noite que antecedeu o infame jantar oferecido a André por Epstein, um membro não identificado da equipa escreve: “Os dois seguranças do duque, juntamente com a segurança do Estado, estarão aqui para o jantar de amanhã. Rich já lhes deu instruções sobre a porta”. Em resposta à BBC sobre se os agentes se hospedaram na casa de Epstein, como sugerido nos e-mails, e se receberam um código de segurança para entrar e sair quando necessário, a Polícia Metropolitana disse que não comenta sobre medidas de segurança para os indivíduos protegidos.

O jantar em Manhattan aconteceu na mesma semana em que Epstein e André foram fotografados juntos a caminharem no Central Park. A imagem circulou pela imprensa britânica no início de 2011, e antecipou as acusações de Virginia Giuffre ao então príncipe. A mulher, que se suicidou em 2025, alegava ter sido abusada sexualmente pelo filho de Isabel II por três vezes entre 2000 e 2001, sendo que pelo menos um dos abusos terá acontecido em Londres.
Numa entrevista ao Newsnight, da BBC, em 2019, André disse que foi a Nova Iorque em dezembro de 2010 para “encerrar” a amizade com o criminoso sexual.
“‘Olha, por causa do que aconteceu, não acho apropriado que continuemos em contacto’. E por mútuo acordo durante aquele passeio no parque, decidimos que nos separaríamos. E eu fui embora — acho que foi no dia seguinte, e até hoje nunca mais tive contacto com ele”, disse o ex-príncipe.
Contudo, de acordo com outro email divulgado pelo Departamento de justiça norte-americano, André fez contacto com Epstein logo depois de regressar de Nova Iorque. “Foi ótimo passar um tempo com a minha família americana. Ansioso para me juntar a vocês novamente em breve”, lê-se noutro email revelado pelas autoridades norte-americanas.