A concentração de poder militar americano no Médio Oriente e no Golfo indica uma preparação para uma intervenção no Irão. Mas os termos das negociações entre os Estados Unidos e o Irão também apontam para a guerra. Parece claro que o fracasso das negociações levará inevitavelmente a um confronto militar. Neste momento, a distância entre os dois lados é enorme.
Os Estados Unidos fazem três exigências. Antes de mais, o Irão deve renunciar por tempo indeterminado ao enriquecimento de urânio. O regime iraniano apenas oferece a suspensão do enriquecimento de urânio durante o máximo de três anos, até ao fim do mandato de Trump. Depois, os Estados Unidos querem limites ao programa de mísseis iraniano. O Irão recusa. Finalmente, a administração de Trump exige o fim do apoio iraniano aos grupos armados e radicais do Médio oriente, como Hezbollah, o Hamas, os Houtis e no Iraque. Ou seja, Trump pretende acabar com o programa nuclear iraniano, limitar a capacidade militar do Irão e obrigar o regime teocrático a renunciar à sua natureza revolucionária. Além disso, os Estados Unidos não ofereceram o levantamento das sanções. Naturalmente, o Irão não pode aceitar estas condições.
O regime iraniano sabe que a sua sobrevivência está em jogo. Há mesmo indicações de que Teerão acredita que uma intervenção militar pode até ajudar a sobrevivência do regime, ao contrário de uma capitulação. Um ataque norte-americano, segundo os cálculos do regime iraniano, levará ao apoio da maioria dos iranianos ao governo. Uma capitulação levará ao enfraquecimento do regime e ao aumento dos protestos, aos quais provavelmente o poder em Teerão não resistiria. Esta leitura do regime iraniano poderá estar errada, mas há sinais de que estas percepções são dominantes em Teerão. Os iranianos também acreditam que uma intervenção militar dos Estados Unidos será relativamente rápida, sobretudo em ano de eleições, e não será suficiente para derrubar o regime.
Não devemos excluir outro cenário. Os Estados Unidos poderão estar a negociar com sectores do regime iraniano, por exemplo as forças armadas, para tomarem o poder. Tal como aconteceu na Venezuela, a administração Trump provavelmente pretende apenas mudanças no regime e não uma mudança de regime. Se for essa a estratégia dos americanos, os alvos dos ataques militares serão, além das capacidades militares iranianas, a liderança do país e a Guarda Revolucionária.
As mudanças no regime não levariam a um regime democrático, mas ao fim da ditadura teocrática, a uma maior liberdade das mulheres iranianas, e ao desenvolvimento económico do país, ajudado pelo levantamento das sanções. Mais importante, no plano externo, o Irão tornar-se-ia aliado dos Estados Unidos, abandonando as alianças com a China e com a Rússia. O realismo unilateral de Trump privilegia as relações de poder em detrimento da expansão da democracia.
A China e a Rússia já perceberam as intenções de Trump. Por isso, estão a enviar armamento para o Irão e a Rússia deslocou mesmo navios de guerra para o país. Uma alteração na política de alianças do Irão seria uma grande derrota geopolítica para a China e para a Rússia e uma enorme vitória diplomática para os Estados Unidos.