Era sábado e não havia sinal de tempestade ou vendaval. Não havia uma nuvem e nem uma pinga caía do céu. Estava um lindo dia de sol. Aproveitei e enfiei-me na Culturgest até chegar a noite, para ver trailers e episódios em ante-estreia das 15 novas séries da RTP — e de sorriso nos lábios. Escusam de me estar já a fazer um diagnóstico, terapeutas do TikTok. Se eu não gostar disto, quem gostará? Além disso, o que aconteceu naquele sábado foi verdadeiro serviço público em forma de aposta na produção nacional (e não só). Trago-vos tudo o que por lá passou e, para ser moderna, vou classificar o que vi numa escala de 1 a 10. Atenção: esta não é uma avaliação ao produto final, que esse ainda está por ser visto. É, isso sim, uma nota sobre o quanto me fiquei a roer de vontade para ver cada um destes títulos.
“Projecto Global”
Índice de expectativa: 9/10
Uma série sobre as Forças Populares 25 de Abril calha que nem ginjas no atual panorama. “Rosa junta-se a um grupo de jovens desencantados com o país pós-Revolução. Integra uma organização armada clandestina de extrema-esquerda, as FP-25, onde partilha afinidades políticas e um dia-a-dia que a aproxima de Jaime. Mas o seu idealismo colide com um país em mudança e uma grande operação policial que os persegue. O inspetor Marlow tem a missão de desmantelar as FP-25, porém o que o move é a sua obsessão por Rosa.”

Jaime é interpretado por Rodrigo Tomás, o épico Rafa de Rabo de Peixe, e Jani Zhao é Rosa, que dá um tareão de beleza a qualquer objetiva que se lhe dirija e que gostei muito de ver em Sul, série também realizada por Ivo M. Ferreira que assina este Projecto Global. Um excelente começo de conversa. Já para não falar de Ivo Canelas, Gonçalo Waddington, indivíduos que mesmo que tentem, não sabem fazer mal. E Isabél Zuaa que, só assim de repente, faz parte do elenco de O Agente Secreto, que muito provavelmente vai levar o Óscar de Melhor Filme Internacional para casa. Curiosa para ver como será recebida a interpretação deste período da história, já que anda tanta gente com ganas de o reescrever. Começamos em alta.
Ficha Técnica
Realização: Ivo M. Ferreira
Argumentista: Ivo M. Ferreira, Hélder Beja
Música original: Eva Aguilar
Produtora: O Som e a Fúria, Tarantula (Luxemburgo)
Diretor de Fotografia: Vasco Viana
Diretor de Som: Rafa
Elenco: Jani Zhao (Rosa), Rodrigo Tomás (Jaime), José Pimentão (Marlow), Isac Graça (Queiroz), Gonçalo Waddington (Amanuense), João Catarré (Balela), Ivo Canelas (Inspetor Chefe), Hugo Bentes (Capitão), Isabél Zuaa (Zaira), João Estima (Joca), Adriano Luz (Jornalista), João Pedro Mamede (Rimbaud)
“A Colecionadora”
Índice de expectativa: 7/10
“Há muito tempo, uma mulher chamada Fátima chegou à pequena localidade de Reino Del Duero. Comprou uma velha casa abandonada à entrada da povoação e instalou-se, sem dar muitas explicações, apesar da desconfiança dos vizinhos. A partir da chegada da mulher, a aldeia começou a ser palco de inúmeras situações inexplicáveis e estranhas que sobressaltaram a população.” Então, temos um grupo de jovens que vai para uma casa no meio do nada. Um casal que tem um problema com o carro e vê-se preso no meio do nada. Os nativos do meio do nada que passam o tempo a dizer aos forasteiros que isto tem tudo para acabar mal, se não se puserem a andar. E um padre. E uma “bruxa”. Que ainda por cima é espanhola.

Sim, senhoras e senhores, é terror, um género em que a ficção nacional se aventura pouco, pelo que calha que o realizador seja também ele espanhol. A propósito, embora possa parecer a despropósito: White Lines não é uma grande série, mas tem uns quantos belos desempenhos. O mundo descobriu Nuno Lopes, se bem se lembram, mas eu fiquei com Belén Lopez na memória, uma matriarca pouco ortodoxa, no mínimo, que aqui assume a senhora que vai espetar uns cagaços às pessoas. O professor Sapinho dos Morangos, Guilherme Filipe, mudou de profissão e agora é sacerdote e temos ainda Vitória Guerra, que não costuma desiludir. Gabo a iniciativa ao realizador Joaquín Lamas por fazer terror em Portugal. Veremos se lhe gabo a execução.
Ficha Técnica
Realização: Joaquín Llamas
Argumentistas: Manuel Sanabria, Joaquín Lamas
Música Original: Pablo García Lozano
Produtora: Coral Europa, Isla Audiovisual
Diretor de Fotografia: Carlos P. Gascó
Diretor de Som: Tomé Palmeirim
Elenco: Belén López (Fátima), Guilherme Filipe (Padre Filipe), Victoria Guerra (Margarida), Marco D’ Almeida (Elias), Ana Lopes (Joana), Bernardo Lobo Faria (Martim), Inês Sá Frias (Catarina), João Arrais (Bruno), Miguel Amorim (Afonso)
“3000 anos depois de Cristo”
Índice de expectativa: 3/10
A RTP LAB é o território de exploração por excelência na RTP, que é como quem diz que a possibilidade de fritaria aumenta exponencialmente quando a origem é esta. Gosto muitas vezes disso. Neste caso, trata-se de “uma série de antologia que consiste em 10 histórias distintas, todas passadas no ano 3000, e contadas em formato áudio e vídeo”.

Onde é que está aqui o busílis? Se percebi bem, é feita integralmente em inteligência artificial e eu não sei o quão OK estou com isso. Vou ter de refletir um bom bocado. Que é uma coisa que as pessoas podem fazer melhor do que as máquinas, mas nem sempre sucede: refletir e pensar nas consequências. Estreia exclusiva na RTP Play.
Ficha Técnica
Coprodução: RTP e Toca Produtora
Criação e Escrita: Rui Neto
Geração de Imagens IA e Edição: Rui Neto
Locução e Voz: Luísa Bacalhau; Rui Neto; Inês Lima; Alexandre Borges; Mauro Hermínio; Rosendo Dias José
Voz Vitorino Vítor: Rosendo Dias José
Captação de Voz: Diogo Lourenço
Sonoplastia: Rui Neto; Diogo Lourenço
Mistura de Áudio: Diogo Lourenço
Produção: Rute Moreira
“Ecos do Mar”
Índice de expectativa: 4/10
“Aurora e Armindo, um casal de idosos, decidem desistir da vida entrando no mar, mas, ao emergirem, descobrem que rejuvenesceram.” Então, temos Cocoon à portuguesa, é isso que me estão a dizer? Ajudem-me aqui! Fui só eu? A não ser que tenham nascido depois da morte do escudo, aí estão desculpados. Não estou de todo a dizer que isto é plágio, mas achei graça às semelhanças e Cocoon, o filme dos velhinhos que rejuvenescem quando mergulham numa piscina com uma espécie de ostras gigantes, tem um lugar no meu coração.

Dito isto, acho que pode ser muito giro, mas tem também potencial para atirar para o canastrão. E o que não faltam são histórias em que há uma troca de corpo, um rejuvenescimento ou um qualquer passe de mágica mais ou menos rebuscado, e que termina num grande bocejo. A ver vamos…Talvez… Em memória do Cocoon.
Ficha Técnica
Realização e Argumento: Rodrigo Ferreira
Coprodução: RTP e Find Films
Produtores: Andreia Silva, Rodrigo Ferreira
Direção de Produção: Ulisses Almeida
Diretor de Fotografia: Duarte Rodrigues
Direção de Som: Eduardo Ferreira
Montagem: Rodrigo Ferreira
Música Original “Nada Quero Mais”: Mei Rose
Casting: Simão Fumega, Luís Miguel
Make Up / Hair Style: Ana Pontes Lavos, Mara d’Elean
Colorista: Rodrigo Ferreira
Pós-Produção de Som: Eduardo Ferreira
Elenco: Maria Emília Correia (Aurora), Fernando Rodrigues (Armindo), Beatriz Frazão (Aurora Jovem), António Van Zeller (Armindo Jovem), Simão Fumega (Rui), Tiago Negrão Pinheiro (Martim), Andreia Silva (Beatriz), Luís Miguel (Pedro)
“Salto de Fé”, temporada 3
Índice de expectativa: 6/10
“Nesta temporada, o desafio do padre Tiago é estratosférico: tem de recuperar uma aldeia raiana portuguesa, a pitoresca Ribeira Sonsa, que, por causa de manias históricas e fenómenos naturais estranhos (uma enxurrada mudou o curso de um rio e destruiu a centenária igreja), sente-se no direito de passar a ser espanhola.” Desde já, adoro o nome Ribeira Sonsa. Ganhou pontos. E a vontade de mudar de nacionalidade, enfim… Se não fosse o Tozé ter safado a coisa, se calhar tinha ido vender caramillos para Badajoz. A verdade é que nunca vi este Salto de Fé, não por nenhum motivo particular. É o chamado “não calhou”. Mas só o facto de já ir na terceira temporada, é um feito.

Tem uma equipa de respeito a cuidar do argumento, o que, surpreendam-se, faz muita diferença. O realizador Ricardo Inácio, com um CV com muitas novelas, várias séries e uma pérola que, se não viram, é irem à RTP Play imediatamente: “Aqui tão longe” da autoria do caleidoscópico Filipe Homem Fonseca. E o realizador Jorge Queiroga, enfim: uma pazada de novelas, Malucos do Riso, Fura-Vidas, Conta-me como foi, Vip Manicure and so on, and so on. Resumidamente, é tudo gente que sabe o que faz. Já apanhar o comboio com atraso não ajuda, mas queres ver que à terceira é de vez?
Ficha Técnica
Realização: Jorge Queiroga, Ricardo Inácio
Argumentistas: David Búzio, Gonçalo Pereira, Inês Gomes, José Pinto Carneiro, Marina Preguiça Ribeiro, Nuno Duarte, Susana Romana
Música original: Toy
Produtora: SP Televisão
Diretor de Fotografia: Hélder Loureiro
Diretor de Som: Hugo Leitão
Elenco: Diogo Valsassina (Padre Tiago), Frederico Amaral (Moisés), Sofia Sá da Bandeira (Isabel), Joaquim Nicolau (Bispo), Adriano Luz (António Brandão), Ângela Pinto (Antónia Brandão), Miguel Damião (Paulo Rebelo), Pedro Alves (Marco Fagundes), Sofia Arruda (Célia Piño), Manuel Marques (Sancho Assobio), Joana Duarte (Leila Leal), Diogo Martins (Amílcar Rodilhas), Cecília Henriques (Ofélia Lua-Nova)
“Felp 2”
Índice de expectativa: 100/10
“Os bonecos estão de volta, com mais pelo, mais problemas e menos amaciador.” Sim, quero. Agora e já. O Henrique Dias faz parte da creme de la creme da escrita nacional. Não só, mas particularmente se estivermos a falar de comédia. Deste amancebamento com o Manel Pureza já tinha nascido Pôr do Sol, um marco na história da comédia em Portugal. E desafio quem disser o contrário para um duelo de chapadas de robalo.

A primeira temporada de Felp não fica nem um pouco atrás e aposto um colar de São Cajó que a segunda também não. É que é tudo bom. Da realização à música, do guião aos atores, dos peludos aos depilados. Ergamos as nossas vozes e voltemos a cantar “O mundo a cuspir pêlo / De Massamá ao Restelo /Fazer a revolução / Pelo sim, pelo não”.
Ficha Técnica
Realizador: Manuel Pureza
Argumentista: Henrique Dias
Música Original: Artur Guimarães
Produtora: Coyote Vadio
“Adónis”
Índice de expectativa: 7/10
Tivemos direito ao primeiro episódio na íntegra em ante-estreia. Quando li a sinopse da série, pareceu-me um pouco pateta, mas pateta pode ser bom. O realizador Ruben do Valle tem um portfólio mais expressivo em publicidade e videoclips, mas isso também não tem mal nenhum. Mas o que mais me entusiasmou foi um elenco com um desfile de divas icónicas babilónicas: Custódia Gallego, Lídia Franco, Maria Emília Correia, Valerie Braddell e Paula Mora. Chocante, não é? Dá para ter mulheres 60 + num elenco, sem estarem de carrapito a cortar côdeas a torradas para os netos.

Miguel, o nosso Adónis, é um PT de resort que tem a capa d’ O Principezinho tatuado de lado e caracteres chineses no chamado carreirinho do pecado, logo ali abaixo do umbigo. Miguel (Renato Godinho) está sem namorada, foi despejado e encontra-se penhorado até aos bíceps. Por ideia de dois pés rapados amigos, colegas do resort, vai transformar-se num gigolô geriátrico, que é, sem dúvida, uma excelente expressão. O que dizer? Não amei a realização, achei que carrega um bocadinho na farinheira, quando o tom do série é já um bocadinho em over acting. Não me ri às gargalhadas, mas sorri bem nalguns momentos. E quero ver estas divas no ecrã a dar uma esfrega neste Adónis. Pelo menos, mais um par de episódios vão.
Ficha Técnica
Realização: Ruben do Valle
Argumentista: André Guerra dos Santos
Produtora: Santa Rita Filmes
Diretor de Fotografia: Duarte Domingos
Diretores de Som: Miguel Ângelo Moita, Bruno Sopa, Nuno Veiga
Elenco: Renato Godinho (Miguel), Hélder Agapito (Nécio), Marco Paiva (Wilson), Lídia Franco (Eva), Custódia Gallego (Didinha), Maria Emília Correia (Aurora), Valerie Braddell (Ruby), Paula Guedes (Dona Mimi), Paula Mora (Lorena), Cristina Cavalinhos (Natália), Paula Só (Anita), Joaquim Nicolau (Fernando), Paula Magalhães (Vanessa), Sílvia Rizzo (Olivia), Sara Norte (Jéssica), Fernando Rodrigues (Caetano), António Fonseca (Edgar)
“Millennial Mal”
Índice de expectativa: 3/10
“Judith, uma assistente de biblioteca na casa dos 40 anos, recebe inesperadamente uma bolsa a que se candidatou há vinte anos.” Aquelas coisas que parece que só acontecem em comédias, mas sendo o sistema bolseiro português, podia bem ser documental. A vida da Judith tem o entusiasmo de um velório. Para ajudar à festa, acabou de ser despedida e tem os credores a morder-lhe os calcanhares. Naquele espírito otimista do “pior que está não fica”, atira-se de novo para o mundo da universidade e consequente folia académica. É mais uma co-produção com os nuestros hermanos, abençoados. Realizada por duas mulheres, Lorena Iglesias e Andrea Jaurrieta, o que merece nota de destaque.

Lamentavelmente, a realização ainda é uma posição muito “Clube do Bolinha”, como se pode comprovar nas fichas técnicas aqui apresentadas. Visto o trailer, meio humor de cliché, meio non sense, parece-me que já vi esta história várias vezes e não me lembro de nenhuma particularmente estimulante. Os três nomes lusitanos do elenco, os que conheço, são dos bons: Helena Caldeira, a cabeça de algodão doce de Rabo de Peixe, Afonso Laginha de Causa Própria (que é das séries de produção nacional que mais gostei nos últimos tempos e está disponível na RTP Play) e Afonso Pimentel… Bom, Afonso Pimentel. Mesmo assim, não sei se chega.
Ficha Técnica
Realização: Lorena Iglesias, Andrea Jaurrieta
Argumentista: Lorena Iglesias
Produtora: Ukbar Filmes, Tornasol Media, Alcaraván Films, Millennial Mal
Diretor de Fotografia: Juli Carné Martorell , Paulo Are
Diretor de Som: Tomás Garzón, Leo Campetelli, Tiago Raposinho
Elenco: Lorena Iglesias, Paula Gala, Victoria Oliver, Fernando Nagore, Isa Calderón, Afonso Laginha, Afonso Pimentel, Helena Caldeira, Zóser
“Jones”
Índice de expectativa: 10/10
“Uma família poderosa e disfuncional reúne-se numa luxuosa propriedade em Sintra para celebrar um noivado, mas a festa termina em homicídio. O Inspetor Oliver Jones, capaz de comunicar com os mortos, alia-se a Júlia, a sarcástica e astuta vítima, para descobrir o assassino.” Fiquei logo curiosa para ver este Cluedo à portuguesa. Nunca vi nada de Bruno Gascon, mas ouvi falar bastante bem de Irreversível (passou na RTP1 em 2024, com a sempre perfeita Margarida Vila-Nova). Não conheço o trabalho do José Pimentão que interpreta o inspetor que dá nome à série, mas estou curiosa. É o segundo papel de relevo neste conjunto de séries, por isso alguma coisa os diretores de casting hão-de ter visto. No episódio de estreia está poucos minutos em cena, portanto, espero para ver. E vou ver com toda a certeza, porque este foi o melhor episódio do dia, com distância.

Para já, ricos insuportáveis a passar as passas do Algarve é o meu tipo de entretenimento. E estes ricos são servidos por um elenco excecional. Um pai que é um all you can eat de toxicidade, entregue por Rui Morrison e a sua maravilhosa voz. Um filho mais velho que luta para respirar, porque teve o calcanhar do pai na garganta toda a vida e aprovação nem vê-la. Mais uma vez, todas as vénias do mundo a Ivo Canelas são poucas. A irmã mais nova: privilegiada, sarcástica e tão alfa quanto o pai. Em resumo, uma cabra mimada. Linda de morrer, o que é levado demasiado à letra. E Laura Dutra até morta na banheira é um espanto mas, mais que isso, temos atriz (vão ver Situações Delicadas, a segunda série com mais views da RTP Play). Se tiver oportunidade, cheira-me que vou limpar este Jones de forma compulsória e pouco saudável, como se quer.
Ficha Técnica
Realização: Bruno Gascon
Argumentista: Bruno Gascon
Música original: José de Castro
Produtora: Caracol Studios
Diretor de Fotografia: Hugo Azevedo
Diretor de Som: Bruno Garcez
Elenco: José Pimentão (Oliver Jones), Laura Dutra (Júlia Salvaterra), Rui Morisson (António Salvaterra), Ivo Canelas (Afonso Salvaterra), Raquel Rocha Vieira (Madalena Salvaterra), Rafael Morais (Rúben Salvaterra), Afonso Lagarto (Romeu Salvaterra), Paula de Magalhães (Jéssica), Margarida Moreira (Clara), Sílvia Chiola (Mia), João Cachola (Técnico de Perícia Técnica), Amanda Abbington (Eve Blake)
“Algodão a Frio”
Índice de expectativa: 8/10
“Sete desconhecidos ficam presos no interior de uma lavandaria self-service, por consequência de um violento atropelamento e fuga. A única testemunha é Sara, que esconde o paradeiro da vítima de Jorge, um homem misterioso que procura o atropelado por motivos sinistros.” Ricardo Leite é um jovem realizador ( A instalação do medo, Capitães do Açúcar) o que deve justificar a ousadia de desenvolver e filmar uma “single set production”. Que é como quem diz uma história gravada total ou maioritariamente num único cenário.

Gosto muito, muito do género e vêm-me à cabeça, assim de repente, Reservoir Dogs, Carnage e Funny Games… Sem pressão, Ricardo. Pode ser considerada uma opção orçamento-friendly, mas para além de não ser tão linear quando isso, é difícil de concretizar com sucesso. Elenco bastante sólido e aproveito para dizer que gostava de ver o Dinarte Branco e o Rodrigo Saraiva mais vezes em mais coisas. E temos Catarina Avelar, o que é sempre um acontecimento. Estreia já dia 23 de março, na RTP Play. Boas odds de visionamento.
Ficha Técnica
Realização: Ricardo Leite
Argumentistas: André Barbosa, Ricardo Leite
Música original: Sardinha Também É Peixe, Sono Colectivo
Produtora: SPi
Diretor de Fotografia: Fábio Mota
Diretor de Som: Pedro Adamastor
Elenco: Diana Sousa Lara (Sara), Vítor Silva Costa (Nuno), Paulo Calatré (Jorge), Catarina Avelar (Noémia), Dinarte Branco (Américo), Rodrigo Saraiva (Santos Milhões), Ana Marta Ferreira (Fafá)
“Novas Narrativas de Caça”
Índice de expectativa: 10/10
“Até que os leões contem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça. Novas Narrativas de Caça é uma antologia composta por sete histórias independentes ligadas pelo seu tema – a busca de identidade e pertença de personagens negros, portugueses afrodescendentes que lutam para fazer parte de uma sociedade que muitas vezes os ignora e oprime.” Achei a sinopse tão boa, que optei por transcrevê-la na totalidade.

O trailer está muitíssimo bem montado, elemento muitas vezes menosprezado por cá, erroneamente quanto a mim. Pode ser um turn-off gigante ou pôr-nos a salivar e, neste caso, fiquei com muita água na boca. Cláudia Semedo, atriz e realizadora de um dos episódios, atirou de cima do palco: “É impressionante como a parte colorida está toda aqui, não é? É importante colorir todos os espaços”. Drop mic. Novas Narrativas de Caça começará por estrear exclusivamente na RTP Play.
Ficha Técnica
Realizadores: Luís Almeida, Cláudia Semedo, Lara Mesquita, Fábio Silva, Dércio Tomás Ferreira, Diogo Carvalho
Argumentistas: Luís Almeida, Ana Lúcia Carvalho, Gisela Casimiro, Lara Mesquita, Fábio Silva, Dércio Tomás Ferreira, Diogo Carvalho, Cláudia Semedo
Produtoras: Galo Bravo, Many Takes
Diretor de Fotografia: Maurício Franco, Marco Bento, Johel Almeida
Diretor de Som: Ruben Santiago
“Se Me Deixasses Ser”
Índice de expectativa: 3/10
“Se Me Deixasses Ser é um projeto cinematográfico que transforma microcontos em filmes, promovendo a criação artística, a formação prática e a descentralização cultural. A partir de oito histórias selecionadas do livro E as palavras comeram o lobo, o projeto envolve finalistas universitários de Cinema e Audiovisual, comunidades locais e escolas secundárias na produção de filmes em diferentes territórios do país, com acompanhamento de profissionais experientes.”

Parece-me um propósito muito meritório, mas pelo pouco que vi, não fiquei propriamente entusiasmada. A não ser quando apareceu Natalina José no ecrã. A aparição da comedy buddy da enorme Marina Mota, que a acompanhava em tudo o que ela fazia para a televisão no século passado, deu-me um grande quentinho no coração. Se Me Deixasses Ser é uma obra póstuma da produtora de Almeno Gonçalves, que acompanhou o processo até onde lhe foi possível, o que mereceu uma comovida homenagem em palco de António Melo.
Ficha Técnica
Realizadores: Filipa Duarte, Sofia de Pina, Sérgio Brilha, Laura Andrade, Janai Reis, Daniel Borga, Miguel Magriço
Argumentistas: Filomena Costa, Alexandre Costa, Rui Xerez de Sousa, Laura Mateus Fonseca, Virgílio do Rosário, Nuno Guerra Santos, Anabela J. S. Ferreira, Helena Roldão, Florbela Fidalgo
Produtora: Recados do Mundo
Diretores de Fotografia: Luís Vila-Lobos, Miguel Malheiros, Fábio Mota, Diogo Rodrigues, Dinis Justino, Carlos Melo, João Carriço
Diretor de Som: Daniel Peneirol
Além do Silêncio
Índice de expectativa: 5/10
“Isabel liga para o 112 coberta de sangue. O marido jaz no chão. Foi ela. Mas o que aconteceu antes é o que importa. Isabel amava-o. Ele também disse que a amava. No início.” E isto passa-se em episódios de minuto e meio, na vertical, e tivemos direito à ante-estreia dos dois primeiros. E esta, hein? Resolvi citar o Fernando Pessa, que morreu com 100 anos, porque é assim que me estou a sentir. Centenária como a cheia. Mas diz que é tendência, que é um mercado de quinquilhões de dólares e que o attention span não sei quê.

Achei Além do Silêncio meio novela, meio Casos da Vida da TVI, que já vi muitas vezes, mas não é por bons motivos. Achei que a baddie da Paula de Magalhães merece um 4k na horizontal e não uma tira de telemóvel. Achei a narrativa, se é que posso falar disso com um par de capítulos de minuto e meio, meio previsível e cliché. Mas acho que para não me sentir um fóssil, vou dar uma oportunidade. No dia 2 de março estreia Além do Silêncio e outras 4 micro séries, com 20 episódios cada, na RTP Play.
Ficha Técnica
Realização: Manuel Amaro da Costa
Argumentistas: Pedro Lopes, Marina Preguiça Ribeiro
Produtora: SPi
Diretor de Fotografia: Pedro Ferreira
Diretor de Som: Nuno Veiga
Elenco: Paula de Magalhães, Diogo Lopes, Inês Curado, Ricardo de Sá, Marta Andrino, Carlos Sebastião, Pedro Granger
“Leonor, Marquesa de Alorna”
Índice de expectativa: 5/10
“Uma grande poetisa que viveu no final do século XVIII. Desde as suas origens num convento de Lisboa até à extravagante corte vienense, estas são as histórias secretas de uma Marquesa destemida que irá abalar a elite dominante.” Último episódio do dia, daquela que arrisco ser a série mais cara do certame. Esta é uma adaptação do livro de Maria João Lopo de Carvalho sobre a dita, que é interpretada por Sara Matos. Leonor Almeida de Portugal foi uma destemida, que recusou lhe cortassem as asas e lhe roubassem a pena, muito por ser neta dos Távoras mas, fundamentalmente, por ser mulher. A série está bonita, tem uma dimensão que impressiona e eu sei bem quando é que custa um fato daqueles ao dia.

Posso estar a ser muito injusta, mas senti uma piscadela de olho a Bridgerton, apesar desta ser uma personagem real, cuja história não caiu agora de paraquedas, mas sabemos que as tendências de mercado são um bom argumento de venda e está tudo certo com isso. Tanto que Pandora da Cunha Telles conseguiu um vendedor internacional na Berlinale há dias, o que é uma bela vitória. Pronto, mas isto não interessa nada ao espectador, não é? Vamos lá. Acho que vocês deviam ver. Mas acho que não vou ver, porque não é a minha praia, porque a música pop baddie contemporânea a pontuar cada ato de rebeldia de Leonor já me estava a dar nos nervos e porque eu também não posso ver tudo. Apesar de ter o Cristóvão Campos, o Miguel Borges e a Sandra Faleiro… Bom, vou pensar nisso.
Ficha Técnica
Realização: Tiago Alvarez Marques
Argumentistas: Pandora da Cunha Telles, Mário Cunha, Cláudia Clemente, Rafael do Carmo Afonso
Produtora: Ukbar Filmes
Diretor de Fotografia: Hugo Azevedo
Diretores de Som: Pedro Melo
Elenco: Sara Matos (Leonor), Cristóvão Campos (Carlos Augusto), Joana Solnado (Madame T), Rita Rocha Silva (Maria Rita), Soraia Chaves (D. Leonor de Lorena), Miguel Borges (D. João de Almeida Portugal), João Arrais (Pedro), Sandra Faleiro (Rainha D. Maria I), Cucha Carvalheiro (Madre Prioresa), Paula Lobo Antunes (Josefa), Ana Varela (Joana Forjaz),
“Ponto Nemo”, temporada 2
Índice de expectativa: 5/10
“Depois de uma explosão devastadora, os sobreviventes do naufrágio na enigmática ilha de Ponto Nemo enfrentam uma nova realidade marcada por perigos imprevisíveis, mutações físicas e dilemas morais. Isolados do mundo, cada passo é uma luta pela sobrevivência e, talvez, pelo regresso à vida tal como a conheciam.” Juro que não é nada contra a Sara Matos, mas também não me parece que vá a esta. Uma estupidez da minha parte? Mais uma de tantas. Quando vi a sinopse da primeira temporada, senti que isto não era série para uma pessoa de Letras. Sei que, na altura, tomei conhecimento que o Ponto Nemo, ou Polo Oceânico de Inacessibilidade, é o local no oceano Pacífico mais distante de qualquer terra firme. É o meio do nada mais meio do nada de sempre.

Só o conceito me deixou catatónica a olhar para o teto durante um bom bocado. Veem o quão de Letras eu sou? Esta é outra co-produção ibérica, com distribuição RTP e Prime e, além de Sara e o rosto esculpido por anjos de Margarida Corceiro, tem a Nairobi da Casa de Papel, Alba Flores, que é ótima. A realização muda de mãos nesta segunda temporada e é dividida entre Alex Rodrigo que, entre outras coisas, é um dos realizares da supra referida Casa de Papel, e António Botelho, que assinou Ruth, a longa sobre Eusébio. Tudo bons predicados… Mas ainda não estou certa. Fazemos assim: digam-me nos comentários se vale a pena. Ui, senti-me muito influencer agora. Vou tomar uma aspirina que isto passa.
Ficha Técnica
Realizador: Alex Rodrigo, António Botelho
Argumentistas: David Muñoz, Carlos Molinero, Paula Sánchez
Música original: Manuel Riveiro
Diretor de Fotografia: Isaac Vila Planas
Diretor de Som: Daniel Fernández
Produtora: Ficción Producciones, Ukbar Filmes
Elenco: Sara Matos (Sónia), Margarida Corceiro (Zoe), Óscar Jaenada (Máximo), Alba Flores (Nazareth), Nawja Nimri (Juana), Maxi Iglesias (Jota)