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(A) :: Texugos acéfalos dos túneis e autoestradas

Texugos acéfalos dos túneis e autoestradas

O contribuinte português nunca tem lucro nem retorno pagando demasiado a gente vinda da política incompetente e inconsequente, num desperdício injustificável e círculo vicioso destrutivo da economia.

Pedro Caetano
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Alguém em Portugal ainda acredita que será mais um túnel ou mais uma autoestrada que nos vai transformar numa economia de alto valor acrescentando, finalmente com salários altos e PIB per capita a subir? As economias tecnologicamente mais avançadas do mundo, como a americana, investem em centros de dados, com circuitos eletrónicos e sistemas de energia altamente complexos, para desenvolver a nova economia da inteligência artificial e da robótica, com ganhos de produtividade e possibilidades de prosperidade infindáveis. Em 2025 os PIB dos EUA cresceu bastante mais do que o esperado, principalmente devido a estes investimentos e respetivos retornos em IA e computadores.

No entanto, nós em plena era da inteligência artificial continuamos a fazer estradas como o Sócrates e os amigos faziam. Entre 2026 e 2029 o governo vai gastar 27 milhões de euros em mais estudos para 16 projetos rodoviários (entre 30 que quer a mais). Só para estudar o túnel entre Algés e Trafaria são quase seis milhões, isto para termos uma quarta (!?) travessia do Tejo como se três não bastassem já (). E isto, claro é apenas a ponta de mais um iceberg. Quanto mais estudos de milhões posteriores depois destes vão ser precisos antes, durante e depois das obras? E quantos milhares de milhões de euros vão custar as obras? Não sabemos. Só sabemos que, como de costume, mesmo havendo PPPs, há meia dúzia de privados que vão lucrar muito (e já empregam ou vão empregar mais políticos no futuro) enquanto o público vai pagar a dobrar ou triplicar (em impostos e ainda por cima em mais rendas e portagens) sem ganhar nada a mais com isso.

Vivemos na área de Boston, onde o rendimento médio atinge os 100 000 euros anuais (se incluirmos os subúrbios ricos da área metropolitana). Por comparação, na área metropolitana de Lisboa, este fica abaixo dos 30 000 euros, mesmo incluindo Cascais. Aqui no estado americano do Massachusetts floresce uma economia de muito mais valor acrescentado que em Portugal (biotecnologia, robótica, inteligência artificial, computadores, financeiras, companhias farmacêuticas, etc.) sem precisarem de autoestradas e tuneis novos e redundantes por todo o lado como em Portugal onde o dinheiro é sistematicamente desbaratado nessa redundância (ou ganância de alguns).

Há umas décadas fizeram aqui o túnel do “big dig” e ficaram vacinados contra o despesismo. As principais autoestradas são apenas três (I-90, I-95, I-93) e nalguns casos fundem-se umas nas outras em vez de se tornarem paralelas como em Portugal onde à volta de Lisboa há muitíssimo mais autoestradas e redundantes. Ainda por cima aqui as autoestradas são gratuitas, exeto partes da I-90. Em Portugal são a pagar e nunca há vacina para o despesismo e desperdiça-se sempre mais.

Segundo algumas estimativas, Portugal tem gastado até 400% mais por ano que os EUA em autoestradas, em percentagem do PIB (0.8% versus 0.2% nos EUA). Aliás no passado já se discutiu que o minúsculo Portugal era o segundo país do mundo (!) com mais quilómetros de autoestrada por bilião de dólares do PIB, só ficando atrás do Canada que é um dos países mais extensos do mundo e onde cabem mais de 100 Portugais.

Há demasiadas décadas que os políticos portugueses por instinto automático que nunca questionam se entretém a mandar escavar tuneis e fazer autoestradas paralelas ou para nenhum lado, por todo o lado. Tem desperdiçado assim milhares de milhões de euros dos nossos impostos e de outros contribuintes europeus. Não só em obras já de si desnecessárias, mas em ainda mais desnecessários e inúteis estudos sem fim e pareceres legais infindáveis de escritórios de tudo e mais alguma coisa, incluindo de advogados políticos ou amigos de políticos. Não é à toa que num país pobre alguns políticos advogados recebem quase 1 milhão de euros por ano basicamente para nada de útil para a sociedade. O ciclo destrutivo perdura alimentando maus interesses. Assim qualquer minúsculo político português bem conectado ao poder, mas sem quaisquer qualificações técnicas que justifiquem isso, ganha mais que os melhores engenheiros do mundo das mais ricas companhias de tecnologia nos EUA. Essas pagam altos salários usando o seu próprio lucro privado porque sabem que quanto mais investirem em gente inteligente mais lucram num círculo virtuoso para a economia. Pelo contrário o contribuinte português nunca tem lucro nem retorno pagando demasiado a gente vinda da política incompetente e inconsequente, num desperdício injustificável e círculo vicioso destrutivo da economia que não nos leva a lado nenhum.

Para quando deixar de pagar estudos e obras, parando para pensar se vale a pena continuar a gastar tanto em estradas e túneis? É que nós os humanos, incluindo os humanos lusitanos claro, ao contrário dos texugos e outros animais escavadores, não nascemos só com instintos para tal, mas com a capacidade de questionar e corrigir as nossas ações. Valia muito mais que tantos milhares de milhões de euros deixassem de ser confiscados fiscalmente pelo Estado para autoestradas desnecessárias. Assim baixaríamos os impostos para que tantos milhões de euros regressassem ao bolso dos portugueses e das verdadeiras empresas produtivas (as não misturadas com política). Aqueles portugueses que pensamos, daríamos certamente todos muito melhor uso ao nosso dinheiro para desenvolver Portugal.