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Se Teerão tremer ou colapsar

A parceria informal entre Moscovo, Teerão e Pequim assenta em trocas úteis, evasão a sanções, canais financeiros, material militar, partilha tecnológica. Uma crise em Teerão pressiona essa engrenagem.

José António Rodrigues do Carmo
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No momento em que escrevo, a hipótese de uma escalada militar entre o Irão e os Estados Unidos é um cenário plausível e não apenas o delírio do frenesim noticioso. Trata-se de um cenário carregado de consequências que não respeitam fronteiras.

O caminho pode ser curto e previsível. Ou Washington decide apertar o torniquete, largar umas bombas e forçar um acordo que, do ponto de vista dos aiatolas, equivale a capitulação; ou responde a um acto “preventivo” do regime iraniano, que tende demasiadas vezes a confundir sobrevivência com provocação e martírio com política externa.

Uma convulsão interna no Irão, por intriga palaciana, colapso económico, revolta popular ou guerra, não será um episódio doméstico. O Irão é um nó relevante de uma rede autoritária onde se cruzam a Rússia, a China e outros regimes que descobriram as vantagens da cooperação entre autocracias. Se esse nó se desfaz, a rede afrouxa. E quando as redes afrouxam, alguém cai.

Convém não reduzir a análise ao habitual catálogo do programa nuclear, mísseis balísticos, drones, milícias subsidiárias. Tudo isso existe e preocupa. Mas o essencial é que os sistemas autoritários vivem da aparência de inevitabilidade. Apresentam-se como destino. Endurecem, não dobram. E quando não dobram, partem. Uma fissura séria em Teerão não seria apenas um problema iraniano, mas também um precedente psicológico para Moscovo e uma variável incómoda para Pequim.

As sociedades movem-se tanto por crenças quanto por interesses. Um Irão que deixe de parecer inamovível altera o cálculo regional antes mesmo de alterar o regime. Se o poder central parecer frágil, os aliados hesitam, os adversários testam limites, os oportunistas avaliam a direcção dos ventos.

Dentro do Irão, ninguém espere transições ordeiras com discursos sobre reconciliação nacional. Em Estados multiétnicos, crises do poder central costumam produzir negociações febris entre elites, disputas internas e fragmentação do aparelho de segurança. Os vizinhos sabem que o contágio raramente se limita a ideias generosas, e costuma traduzir-se em refugiados, violência transfronteiriça e reivindicações identitárias reacendidas. Nas fronteiras, as identidades roçam-se. E quando roçam, inflamam.

Para Israel, Arábia Saudita, Jordânia, Iraque e os Estados do Golfo, a instabilidade iraniana é uma moeda com duas faces. É verdade que um regime ocupado a sobreviver tem menos recursos para sustentar “proxies” e exportar revoluções. Mas regimes acuados podem tornar-se mais imprudentes. O instinto de cerco, misturado com fervor ideológico, é receita para decisões irracionais. Israel terá de pesar a oportunidade estratégica contra o risco de uma escalada fora de controlo, que envolve consequências reais.

A Turquia, como sempre, verá uma oportunidade. Ancara receia o contágio, mas calcula ganhos. Um Irão instável pode abrir espaço a uma política turca mais assertiva nos corredores energéticos e nos equilíbrios regionais. A Turquia esforçar-se-á por permanecer indispensável. À NATO, como tampão; ao Médio Oriente, como mediadora; a si própria, como potência que também pretende a hegemonia regional.

O ponto decisivo, porém, reside no chamado eixo autoritário. A parceria informal entre Moscovo, Teerão e Pequim assenta em trocas úteis, evasão a sanções, canais financeiros alternativos, material militar, partilha tecnológica, apoio diplomático mútuo. Uma crise séria em Teerão pressiona essa engrenagem. Um regime a lutar pela sobrevivência vira-se para dentro; os recursos são sugados pela urgência doméstica; o aparelho de segurança fecha-se sobre o país; a projecção externa enfraquece.

Pequim prefere estabilidade comercial e expansão paciente. Age por cálculo, não por paixão ideológica. Se o Irão vacilar, a China protegerá interesses ou reduzirá exposição, conforme a conveniência. Provavelmente a segunda opção.

Moscovo, que prospera incentivando instabilidade alheia, teme-a quando ameaça a própria narrativa de solidez. Depois da Venezuela, mais um aliado a cambalear não é boa propaganda para um regime que precisa de parecer invulnerável enquanto prolonga a guerra na Ucrânia. Uma guerra de desgaste. De material, de homens, de recursos, mas também de confiança. A Rússia necessita da coesão das elites e da aquiescência pública.

 Enfim, se um dos pilares do eixo autoritário vacilar, a percepção de inevitabilidade enfraquece. E a política vive tanto de percepções quanto de divisões blindadas.

Se Washington tem uma estratégia para o problema iraniano, e tudo indica que sim, terá de tratar a eventual instabilidade iraniana como problema de segurança regional, não apenas como uma vitória. Planear contingências, coordenar aliados, reduzir erros de cálculo. E, sobretudo, compreender que a China reage a risco e oportunidade, não a sermões morais.

Em suma, um abalo em Teerão obriga a recálculos em Moscovo e em Pequim, e esses recálculos intersectam-se com a sobrevivência da Ucrânia, com a estabilidade do Médio Oriente e do Mediterrâneo, que toca a Europa e com os grandes planos da China. Se Teerão treme, Moscovo sente e a China esfria. E a prudência, neste contexto, chama-se inteligência estratégica.