Um arguido no caso 1143 acusou o deputado do Chega Rui Afonso de comprar votos a membros do grupo neonazi, desmantelado em 20 de janeiro pela Polícia Judiciária (PJ), avançou este sábado o jornal Público. Rui Afonso, deputado e líder da distrital do Porto, considera que se trata de um “anátema” sobre si.
Tirso Faria, coordenador do núcleo de Santo Tirso da organização neonazi, disse ao jornal Público que Rui Afonso “inscreveu dezenas de membros [do 1143] no partido, pagou-lhes meses de quotas e quantias para irem votar”. “Ao que sei, os valores envolvidos andarão entre 3.500 e 3.800 euros”, acrescentou Tirso Faria, militante do Chega e antigo vice-presidente da concelhia do partido em Santo Tirso.
“Terão entrado mais de cem membros desse [o 1143] e de outros grupos e ouvi falar em pagamentos acima de 3.500 euros”, disse ao diário Artur Carvalho, ex-adjunto da de Rui Afonso na distrital do Chega no Porto.
Rui Afonso: acusações são “anátema sobre a minha pessoa”
Rui Afonso, em declarações ao Observador, assegurou que a “notícia é um disparate, não tem qualquer cabimento” e revelou que já falou com André Ventura, frisando que também a direção nacional considera a “notícia escabrosa e ridícula”.
O deputado do Chega explicou que ganhou “as eleições com 173 votos” e que o adversário “ficou com 120 e tal votos” — “Tinha comigo as 18 concelhias, não faz sentido o que está a ser dito.” E ironizou sobre a quantidade de dinheiro necessária para pagar 3.500 euros para pagar votos, dizendo que não é Elon Musk.
Apesar de assumir que conhece Tirso Faria, enquanto militante do Chega, Rui Afonso assegurou que “não há nenhuma ligação” entre si e elementos dos 1143.
O deputado, como tinha feito anteriormente na SIC Notícias e na RTP Notícias, acusou a comunicação social de ter feito “notícia com quatro dissidentes do Chega, alguns deles já expulsos do partido”, justificando que o caso “tem a ver com uma trica intrapartidária de pessoas revoltadas com o partido e que querem prejudicar a minha imagem e a imagem do partido”. É uma “falsa notícia”, garantiu, acusando o jornalista que assina a notícia, Miguel Carvalho, de não ter falado com os alegados beneficiários deste pagamento. E concluiu: “Fizeram de uma trica interna uma notícia nacional.”
“Já conversei [com a direção], achamos a notícia escabrosa e ridícula, sem fundamento, veracidade e objeto consolidado”, refere André Ventura. “Vamos abrir um processo de averiguações junto do Conselho de Jurisdição para ver se houve ou não a entrada massiva de militantes para não haver quaisquer dúvidas a nível interno”, justificou, garantindo que foi o próprio a pedir esse esclarecimento. “A névoa não foi criada por mim, foi criada pela comunicação nacional.”
Questionado sobre as declarações de Israel Pontes ao Observador, Rui Afonso atirou-se ao ex-adversário: “Não podemos deixar que pessoas com problemas psicológicos digam o que querem e sejam considerados credíveis.”
Em declarações à SIC Notícias, Rui Afonso tinha assegurado que este é um “anátema” sobre a sua pessoa e um “assassinato de caráter”, ao justificar que o caso “não tem nada a ver com justiça ou política”.
“Na altura das eleições distritais nem sequer existia o grupo 1143”, disse na SIC Notícias, sendo desmentido pela jornalista em direto que a existência do grupo é anterior. “O grupo 1143, segundo tive oportunidade de pesquisar, existia em Lisboa”, justificou-se, “e não no Porto”.
https://observador.pt/programas/resposta-pronta/chega-falei-com-ventura-vamos-abrir-inquerito-interno/
Ex-candidato reportou a Ventura “má conduta”, não ligação a 1143
Israel Pontes, que encabeçou uma das listas candidatas à distrital do Porto contra Rui Afonso, assegurou que tem conhecimento de inscrições feitas pelo deputado do Chega na alturas das eleições internas.
“Estou no partido desde o dia um, que [conhecia] integralmente todos os militantes do partido Chega, na altura, atualmente já não, mas na altura conhecia toda a gente, e achei extremamente estranho e desagradável aparecerem lá pessoas vindas do nada, sem qualquer ligação ao partido, pessoas que nem sequer sabiam em que lista vinham votar, nem sequer conheciam o nome das pessoas, nem os programas, eram apenas e só pessoas que foram lá com um propósito único, que foi votar na lista de Rui Afonso”, revelou em declarações ao Observador.
O ex-candidato à liderança da distrital contou que acabou por “interpelar algumas” dessas pessoas e reparou que “as pessoas estavam super perdidas”: “Não vinham em grupos, vinham isoladas, e realmente achei aquilo demasiado estranho desde o primeiro dia. Tínhamos os cadernos eleitorais e acabámos por perceber que 32% de todas as pessoas que votaram eram militantes inscritos há dias.”
Israel Pontes considerou que Rui Afonso, por estar no grupo parlamentar do Chega, teve “acesso a ferramentas” que os outros adversários não tinham e que as usou para “boicotar o lado eleitoral”. E, no seguimento deste ato eleitoral, o ex-candidato à distrital assegura que reportou à direção e a um atual deputado, João Lopes Aleixo, mas realçou que “na altura não havia realmente forma de provar cabalmente o que tinha acontecido”, já que “eram tudo suposições”.
Relativamente a André Ventura, Israel Pontes garantiu que falou “pessoalmente” com o presidente do partido “sobre a situação do Porto, sobre esta metástase que estava aqui a acontecer no Porto”. “Isto é um problema oncológico grave e o André [Ventura] a única coisa que me disse, por duas vezes e com toda a razão, [foi perguntar] quem é que ganhou as eleições na distrital do Porto. ‘Não foi o Rui Afonso?’ E eu [disse] exatamente, foi. ‘Pronto, então, se [foi] ele, ele é que tem a legitimidade para operar e fazer o que achar bem pelo distrito’.”
“Para um presidente de um partido ele apenas quer saber quem foi o eleito. Se foi eleito com os votos de 1143, ou se foi eleito com os votos dos militantes”, acrescentou, garantindo que não falou com Ventura sobre o alegado pagamento de Rui Afonso a elementos do 1143, mas sim sobre a “má conduta” que alega existir na distrital do Porto.
Israel Pontes acusou a direção da distrital do Porto de ser o “sindicato do crime” e um “grupo de bandidos”, culpando-os pelos “resultados miseráveis” do partido no Porto: “É vergonhoso, é sempre o pior concelho nacional em termos de votações. Ainda agora nas presidenciais, o Porto, como concelho e também como distrito, são sempre os piores resultados. Foi tomado pelo sindicato do crime, é assim que eu os costumo apelidar, e era nesse sentido que eu preveni André Ventura.”
Rui Afonso pode ser acusado de “fraude eleitoral”
O advogado Miguel Matias, ouvido pelo Observador, considera que no cenário de Rui Afonso ter comprado votos a elementos do grupo 1143 para vencer as eleições da distrital do Porto pode haver “vários tipos de ilícito”.
Na opinião do advogado um deles tem a ver “com o próprio Chega” que “tem mecanismos para agir disciplinarmente, nomeadamente punindo os infratores”.
“Do ponto de vista penal pode-se colocar uma questão de fraude eleitoral, o que tornaria nulas essas eleições”, explica, notando que “teria de ser o próprio partido a apresentar a participação criminal junto do Ministério Público”.
Ainda assim, Miguel Matias diz que MP tem o “dever natural de investigar” e que “deve ser instaurado um procedimento de investigação”, porém nota que se trata de eleições internas, que são “diferentes” de umas nacionais.
https://observador.pt/programas/resposta-pronta/miguel-matias-pode-se-colocar-uma-questao-de-fraude-eleitoral/
Operação Irmandade levou à detenção de 37 pessoas
Em 20 de janeiro, a PJ deteve na operação “Irmandade” 37 pessoas e constituídas arguidas outras 15, por suspeita da prática dos crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, ameaça e coação agravadas, ofensa à integridade física qualificada e detenção de arma proibida.
O Ministério Público alega que o 1143 estaria a preparar-se para ter natureza paramilitar em antecipação a uma eventual “guerra racial” e a organizar, para 2026, duas ações com ofensas ao profeta Maomé para provocar reações negativas ou mesmo violentas por parte da comunidade muçulmana em Portugal.
O grupo seria liderado por Mário Machado, incluindo a partir da prisão, onde se encontra a cumprir pena desde maio de 2025 noutro processo, por discriminação e incitamento ao ódio e à violência.
Em 24 de janeiro, o Tribunal Central de Instrução Criminal decidiu que cinco dos 37 alegados membros do 1143 vão aguardar o desenrolar da investigação em prisão preventiva.
Os restantes 32 arguidos foram libertados, 29 dos quais obrigados a apresentar-se semanalmente na esquadra, e três somente com termo de identidade e residência, indicou o tribunal em comunicado.
Em 04 de fevereiro, o advogado António Garcia Pereira invocou ligações do Chega ao grupo neonazi 1143 e a sentença pela retirada de cartazes de André Ventura contra ciganos para reforçar o pedido de extinção do partido.
No final de outubro de 2025, Garcia Pereira apresentou uma queixa dirigida ao procurador-geral da República para que o Ministério Público acione mecanismos legais para extinguir o Chega, por considerar que o partido viola a Constituição.
No novo requerimento enviado ao Ministério Público, consultado pela Lusa, Garcia Pereira volta a defender a extinção do Chega pela sua “evidente natureza, sucessivamente reafirmada e reforçada, racista e fascista”.