A imigração tornou-se a medida-padrão para definir o certo e o errado em Portugal: a Segurança Social vai bem não porque se tenha feito a reforma que garanta a sua sustentabilidade mas sim porque “Estrangeiros já representam 14% das contribuições totais pagas à Segurança Social.” A criminalidade não preocupa (ou só preocupa) em função do papel que os imigrantes têm ou não têm nos crimes (enquanto escrevo nas caixas de comentário das notícias sobre a detenção do autor do atropelamento de cinco pessoas no Chiado, em Lisboa, pede-se insistentemente a sua nacionalidade enquanto se manifesta um quase total desinteresse pelas medidas que lhe serão impostas); o novo ministro da Administração Interna começa em estado de graça porque “numa intervenção na Conferência do Diário de Notícias em 2025 que se tornou viral, não hesitou em contrariar a escalada de discurso contra a imigração que estava a alimentar o ódio.” Até a inenarrável burocracia pátria só se torna motivo de preocupação e vergonha quando se sabe que: “queixas de imigrantes vão motivar ação contra Portugal no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Testemunhos de imigrantes estão a servir de base para uma ação no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH) contra Portugal, por não cumprir a própria legislação e impedir o acesso à documentação adequada.” Em resumo, o país venturizou: o líder do Chega trouxe a imigração para o centro do seu discurso e simultaneamente governantes, políticos, comentadores e jornalistas agarraram-se ao tema mas no campo oposto.
No estado em que estamos, um problema só é problema e um benefício só é benefício em função do que nele sobressai sobre a imigração. O resultado é invariavelmente o mesmo: engalfinhamo-nos por causa da imigração e esquecemos o país e quem nele vive, imigrantes incluídos.
Portugal como um todo desapareceu do discurso. O resultado é esse enorme vazio que se foi instalando na nossa relação com o país e com quem nos governa: ou fazemos parte do grupo a que no momento politica e mediaticamente se dá atenção ou tornamo-nos invisíveis.
O caso da Segurança Social é exemplar desta armadilha redutora. Levámos boa parte da semana a ser informados que imigrantes representam 14% dos contribuintes da Segurança Social E ainda que esses imigrantes descontaram mais de 4,1 mil milhões para a Segurança Social em 2025 Ou que imigrantes dão cinco vezes mais à Segurança Social do que recebem em apoios
Como é óbvio, sendo tudo isto verdade há que acrescentar que estes imigrantes que agora são contribuintes da Segurança Social se tornarão pensionistas (alguns já o são mas esses números não entram nestas contas dos apoios versus contribuições). Logo alguém (outros imigrantes?) terá de pagar as suas pensões cujo montante será comparativamente mais baixo que aquelas que as suas contribuições agora sustentam. Não duvido que isto seria um enorme escândalo (e muito justamente) caso resultasse duma qualquer xenofobia ou discriminação. Mas na verdade como é um facto transversal e que obriga a fazer reformas, aceita-se com fatalidade e hipocrisia. Sim, o nosso real problema com a Segurança Social é o facto do actual cálculo das pensões ser muito mais favorável que aquele que vai vigorar dentro de alguns anos, e que levará a que os trabalhadores que agora têm 40 anos e que estão a descontar para a Segurança Social irem receber pensões que terão um valor comparativamente muito inferior. Grosso modo pode dizer-se que actualmente quem ganha mil euros se reforma com 700 euros mas que em 2050, sem fazer contas à inflação, o mesmo trabalhador levará uma pensão que será de 400.
Esta espécie de pobreza na velhice mais que anunciada nos cenários futuros da Segurança Social tornou-se um assunto quase tabu, na prática o grande tabu da democracia e que se arrisca a ser o seu maior falhanço, o que ironicamente leva à multiplicação de declarações enfáticas sobre “o nosso estado social” e “a nossa Segurança Social”, cada vez mais percepcionados como uma obra pia gerida em função da bondade ou da falta dela do governo em funções. Nesta espécie de competição pela certificação da virtude a que está reduzida a discussão sobre a Segurança Social, as verbas que esta última movimenta tornaram-se uma espécie de terra dos sonhos para políticos na hora de provarem a sua bondade. A provável aprovação no parlamento pelo Chega, PS, BE, Livre e PCP do pagamento a 100 por cento aos trabalhadores que tenham ido para lay off na sequência das recentes tempestades é a última manifestação desse populismo fofinho pois não só a parte de leão desse pagamento sairá dos cofres da Segurança Social como não se percebe porque há-de ser neste caso pago o lay off a 100 por cento, quando noutros pontos do país os demais trabalhadores em lay off recebem apenas dois terços do seu salário.
Sofremos de imigratite, essa espécie de doença infantil dos estados sociais envelhecidos em que o todo foi substituído pelo grupo do momento.