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Irmão de Ghislaine Maxwell diz que cúmplice de Epstein "está do lado certo da história". E espera indulto de Trump

Ian Maxwell compara o caso da irmã ao de P. Diddy, diz que Epstein era "um tipo muito inteligente" e desvenda um possível futuro para Ghislaine fora da prisão: em França e com um livro publicado.

Sâmia Fiates
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Numa longa entrevista ao jornal britânico Telegraph publicada este sábado, o irmão mais velho de Ghislaine Maxwell, Ian Maxwell, que se afirma o “porta-voz de facto” da cúmplice de Jeffrey Epstein, diz que a irmã é “o bode expiatório” que “está do lado certo da história”, ao defender que a sua condenação é injusta.

O empresário britânico compara o caso Epstein ao do rapper Sean Diddy Combs, que também foi condenado por crimes de prostituição. O também filho do Robert Maxwell diz que Virginia Giuffre, uma alegada vítima de Epstein, mentiu sobre os abusos que diz ter sofrido e acrescenta que o patrão e cúmplice da sua irmã era “um tipo muito inteligente, com um certo carisma sombrio” e aponta para o futuro da irmã, com uma vida em França e um potencial livro.

A 9 de fevereiro Ghislaine Maxwell deveria responder perante os congressistas norte-americanos na Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes sobre a rede sexual montada por Jeffrey Epstein por décadas, e que terá envolvido casos de abuso de menores. Porém, a condenada a 20 anos de prisão por tráfico sexual, invocou a quinta emenda em todas as questões colocadas. Isto é, invocou o princípio da não auto-incriminação — um princípio que também existe na lei portuguesa — para não prestar declarações formais.

Mais tarde, o advogado David Oscar Markus disse que foi ele quem a aconselhou e adiantou que “a senhora Maxwell está preparada para falar total e honestamente, se lhe for dado um indulto pelo Presidente Trump”. Algo que foi visto pelos congressistas do Partido Democrata como uma tentativa de chantagem de Ghislaine Maxwell.

“Alguém tinha de pagar o preço pelo que Epstein fez e, por isso, o Governo e os media escolheram-na. Acredito sinceramente que, se Epstein estivesse vivo, estaria preso e ela estaria livre“, diz Ian Maxwell, que afirma que Ghislaine apresentou um requerimento para “anular a sua condenação, com base em novas provas substanciais e várias violações constitucionais”.

Ian Mawwell diz que “na última divulgação dos arquivos de Epstein, há alguns documentos excecionalmente importantes da perspetiva da sua irmã que corroboram plenamente a sua alegação de que não teve um julgamento justo. Mas ela não tem acesso a um computador na prisão, por isso não pode lê-los”, destaca o empresário britânico.

Os ficheiros divulgados pelo Departamento de Justiça [o equivalente à Procuradoria-Geral da República que tutela as procuradorias do Ministério Público Federal que existem nos 94 distritos judiciais federais dos Estados Unidos] incluem diversos depoimentos de alegadas vítimas da rede de Epstein que afirmam terem sido recrutadas pela mulher, agindo como uma espécie de “irmã mais velha” das raparigas bastante mais jovens – uma delas tinha 14 anos.

Irmão nega que Ghislaine Maxwell tenha “fugido” da polícia

A cúmplice de Jeffrey Epstein foi detida em julho de 2020 numa mansão isolada em New Hampshire, depois de ter tentado esconder-se das autoridades. O FBI encontrou Maxwell depois de rastrear os dados do seu telemóvel — mesmo assim, a mulher recusou-se a abrir a porta de casa e tentou fugir para uma divisão da casa quando os agentes de segurança entraram no imóvel. Ian Maxwell, entretanto, diz que ficou a saber da prisão da irmã pela televisão.

“Enviaram um helicóptero e 20 agentes armados, como se ela fosse uma ameaça para a sociedade”, diz o irmão de Maxwell. “Foi inacreditável, totalmente chocante”, afirma ainda o empresário britânico, que nega que a irmã tenha tentado fugir da polícia. “A minha irmã saiu de casa e foi para New Hampshire para escapar aos media, não à polícia”, diz.

“Depois de Epstein morrer, a imprensa perseguiu-a 24 horas por dia, 7 dias por semana, por isso fugiu para se afastar deles”, enfatizou.

O irmão de Ghislaine comentou ainda o caso de André Mountbatten-Windsor, detido na passada quinta-feira também alegadamente pelas suas ligações a Epstein. “É preciso notar que ele não foi acusado de qualquer tipo de crime sexual. E a polícia deve ter procurado muito por provas”, destacou Ian Maxwell.

“Ele é solteiro e o que fez ou deixou de fazer a várias mulheres foi sórdido, humilhante para ele e embaraçoso para a família real. Mas ali está ele, expulso de casa, completamente isolado e, ao contrário de Ghislaine, nem sequer tem uma família que o apoie. Até as suas filhas estão na dúvida sobre o que fazer”, afirmou Maxwell.

A comparação com P. Diddy e os elogios a Epstein

Ao falar sobre o caso da irmã, Ian Maxwell decide usar outro julgamento mediático para exemplificar o motivo de achar que Ghislaine foi injustamente condenada. “O julgamento dela não foi justo e a condenação não é segura. Ghislaine não fez nada de errado e a duração da pena é ultrajante. Temos uma situação em que alguém como P. Diddy comparece perante o mesmo tribunal federal, pela mesma acusação, e recebe quatro anos e meio por agressão física extrema, enquanto a minha irmã recebe 20 anos.” O rapper e produtor musical foi condenado a quatro anos e dois meses de prisão por dois crimes de ajuda à prostituição, sendo considerado inocente das acusações mais graves de crimes de conspiração para extorsão, de tráfico sexual da ex-namorada Casandra Ventura e de tráfico sexual da ex-namorada “Jane”, vítima sob pseudónimo.

O irmão da cúmplice de Jeffrey Epstein afirma que esteve apenas uma vez com o homem que foi acusado de tráfico sexual e suicidou-se na prisão em 2019. “A minha memória dele é que era claramente um tipo muito inteligente, com um certo carisma sombrio, mas não o descreveria como alguém sociável”, diz Maxwell. “Tinha muito dinheiro e era genuinamente interessado em ciência, tecnologia e no meio académico, um mundo muito familiar para Ghislaine. Consigo ver como ele poderia tê-la fisgado relativamente rápido, e quando se está neste tipo de mundo, não é assim tão fácil ir embora.”

Quando questionado sobre as alegadas vítimas da rede sexual de Epstein, Ian Maxwell admite que muitas jovens podem ter sido prejudicadas, mas destaca que “quase mil milhões de dólares” foram pagos às vítimas e aos seus advogados através do espólio de Epstein. Assinala ainda que a maioria tinha idade legal para consentir, falando sobre mulheres de “21, 22, 23 anos… terem poder de decisão” e que “esta não é uma via de sentido único”. Ao falar especificamente sobre Virgínia Giuffre, a mulher que veio a público em 2011 acusar o ex-príncipe André de abuso sexual e que num livro de memórias publicado após a sua morte, em 2025, escreveu que foi recrutada por Maxwell, o irmão da cúmplice de Epstein mostra um certo ressentimento. “Eu sei quem é o monstro aqui, e não é a minha irmã, é a Virginia Giuffre e as suas mentiras que tiveram consequências devastadoras para a Ghislaine. Não verti uma lágrima quando ela morreu.”

Ian Maxwell diz que agora Ghislaine está focada em sair da prisão, mas que mantém o bom-humor. “Não se pode passar por uma experiência destas e não a transformar em algo positivo”, diz o irmão da mulher, que desvenda o que o futuro pode reservar para Maxwell. “Para começar, isto daria um livro incrível. Ela não viveria nos Estados Unidos, claro, mas também tem passaporte britânico e francês. Aliás, se algum de nós pudesse prever o que iria acontecer, diríamos que ela teria voado para França desde o início, porque não extraditam os seus cidadãos.”

O irmão da cúmplice de Jeffrey Epstein destaca ainda que “as feministas devem apoiar Ghislaine porque é uma mulher que foi tratada de forma abominável pelo sistema”, afirmando que acredita que a irmã “está do lado certo da história. Acredito sinceramente que, se ela for libertada em resposta ao seu pedido – e ainda há uma hipótese de o Presidente Trump atender ao seu apelo por clemência – ela fará algo de útil“, concluiu.