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Gisèle Pelicot volta a encontrar o amor e tenta unir a família em novo livro de memórias

Vítima de um escândalo de violência sexual engendrado pelo marido, e após um período de tempo fora dos holofotes, Gisèle Pelicot admite estar em paz e apaixonada.

Mariana Carvalho
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Findos os meses de silêncio e de isolamento na ilha francesa de Rè, na costa oeste do país, Gisèle Pelicot voltou a falar com os jornalistas, desta vez sobre o livro de memórias — que já chegou às livrarias portuguesas — Alegria de Viver. Em entrevista ao The Guardian, a francesa de 73 anos que se tornou num ícone feminista após tornar públicas as mais de 80 violações de que foi vítima durante uma década — e com a cumplicidade do marido —, reconheceu que “está melhor”. “Sou uma sobrevivente, é um milagre ter sobrevivido.”

Segundo o The Guardian, Gisèle já não tem problemas de memória, nem queda de cabelo e recuperou o peso perdido durante os anos de abuso e contínua administração de drogas sedativas pelo marido Dominique — condenado à pena máxima, de 20 anos, para crime sexual em França. Numa cirurgia recente, conseguiu curar o cancro do colo do útero desenvolvido em consequência das doenças sexuais transmitidas pelos violadores ao longo dos anos.

Neste fevereiro, liquidou a última dívida acumulada pelo ex-marido. Melhor ainda, e contra todas as expetativas, voltou a encontrar o amor: “Ele é uma pessoa muito bonita. Conhecemo-nos e apaixonámo-nos. Não podíamos antecipar isso.”

Gisèle conheceu Jean-Loup, viúvo com dois filhos e hospedeiro de bordo na Air France, através dos amigos que fez na Ilha de Rè — onde chegou com apenas duas malas e o buldogue da família, Lancôme, num estado de choque e desolação, após conhecer os abusos do ex-marido.

“Nenhum de nós alguma vez pensou voltar a apaixonar-se, porque o Jean-Loup viveu 30 anos com a mulher, que infelizmente morreu de doença neurológica”, afirmou ao The Guardian. Jean-Loup assistiu grande parte do julgamento que fez manchete em vários media internacionais a partir de 2023, sempre separado de Gisèle e da sua equipa, para evitar atrair atenção.

Previsivelmente, o julgamento não foi inócuo para os restantes membros da família Pelicot. “Não acreditem que a tragédia promove a união de uma família”, admitiu Gisèle ao The New York Times. A descoberta de fotos íntimas da filha, Caroline, no disco rígido do ex-marido Dominique, conduziu a novas suspeitas de violação, que nunca foram confirmadas.

Após o julgamento, Caroline cortou relações com a mãe, que não corroborou as acusações. “Sem evidência, sem uma confissão, não conseguia dizer que um ato irreparável tinha acontecido”, admitiu Gisèle. Entretanto, reatou as relações com Caroline, mas com o segundo de três filhos, David, não fala há mais de um ano.

Permanecem questões em aberto sobre as atividades desviantes de Dominique na década de 90. O ex-marido de Gisèle admitiu a violação de uma jovem agente imobiliária em 1999, mas negou o abuso sexual e assassinato de uma segunda, caso que a polícia francesa continua a investigar. Gisèle não sabe de nada, mas lembra-se de ver o marido chegar a casa marejado de lágrimas em duas ocasiões na mesma altura. Apesar disso, confessou:“nunca vi manchas de sangue no sr. Pelicot. Nunca vi sequer um arranhão.”

O livro que editou é uma tentativa de curar a família, através de revelações inéditas, que nunca admitiu aos filhos e netos. Alegria de Viver é um retrato íntimo da francesa cuja coragem foi aplaudida por mulheres e homens de todo o mundo. Na casa que partilha com Jean-Loup, em Avignon, ler as cartas que os “fãs” lhe enviam é um ritual. “De cada vez que as leio, as lágrimas correm, porque houve muito sofrimento”, reconhece na mesma entrevista. “Mas vou mantê-las para sempre.”

Entre confissões sobre a vida de casada, os problemas financeiros, a vida sexual com Dominique Pelicot e até a experiência do primeiro orgasmo com 30 anos, numa relação extraconjugal que manteve com um colega de trabalho, Gisèle deixa pouco para a imaginação. “Abordei esses assuntos [no livro]”, disse ao The New York Times, a quem manifestou o desejo de as leitoras a “conhecerem de verdade”.

A tournée de promoção de Alegria de Viver, editado esta semana em 22 línguas, deve passar por várias cidades do mundo, e termina em abril, com a atribuição do prémio “Freedom from Fear” (Liberdade do Medo), atribuído pela Fundação Roosevelt, ao lado do Presidente ucraniano, Volodymir Zelensky, galardoado com o “Prémio Internacional Four Freedoms”.

Sobre a violência sexual de que foi vítima, Gisèle admite ao The Guardian que não pode ser mitigada apenas através de mudanças legislativas: “Acho que, acima de tudo, é necessário mudar as mentalidades”, uma vez que abusos sexuais com uso de drogas derivam do facto de o agressor desejar sentir-se “todo poderoso”. Acrescenta que o seu “caso começou um [despertar coletivo], mas há um longo caminho a percorrer”.

“O que importa é a educação — o respeito e a bondade em relação aos outros. É simples assim”, concluiu.