A vitória de Takaichi no Japão com base numa plataforma explicitamente conservadora apareceu como mais um episódio da viragem à direita naquela parte do mundo que organiza eleições livres para escolher o seu governo. Nos últimos 12 meses, da América Latina à Tailândia, os partidos conservadores e a direita populista têm somado vitórias que não podem ser ignoradas. Evidentemente, esta contabilidade é sempre precária porque muitos resultados eleitorais dependem da prestação dos governos e de episódios idiossincráticos nacionais sem dar azo a qualquer leitura “global”. Mais, teremos eleições num horizonte próximo que podem contradizer esta tendência, como as presidenciais no Brasil (provavelmente) ou as legislativas na Suécia (muito pouco provavelmente). Seja como for, é patente que a esquerda se encontra numa crise profunda.
Essa crise é, sobretudo, intelectual. Podemos lamentar a escassez de lideranças, a esqualidez moral ou os azares nas contingências históricas, mas tudo isso é, de certa forma, acidental. Mais grave e difícil de ultrapassar está a aridez e as contradições das ideias da esquerda, aquelas que animam os partidos e os movimentos no quotidiano político. Inicialmente, a esquerda foi fundada nas suas versões mais democráticas e mais totalitárias como uma forma particular de crítica da religião (i.e., do cristianismo e nalguns casos do judaísmo) e de crítica da economia política. Por outras palavras, a revolução justificava-se para levar a cabo a emancipação da Humanidade dessas duas fontes de opressão: a teologia de um Deus omnipresente, assim como da autoridade dos padres; e as desigualdades produzidas pela exploração de um regime económico injusto.
A crise irreversível do marxismo nos anos 70 acabaria por se revelar mais trágica do que se supunha. Até os partidos da esquerda democrática estavam mais dependentes dos seus “corolários” menos ferozes do que os envolvidos estavam dispostos a reconhecer. A queda do Muro de Berlim aprofundou essa crise que não pôde ser disfarçada nem pela tentativa “comunicacional” da entretanto malograda – e vilipendiada – “Terceira Via”. Com vitórias eleitorais muito expressivas, é certo. Como mais tarde se reconheceria, porém, os triunfos nas urnas nos anos 90 serviram, mais do que qualquer outra coisa, para dar crédito a variantes do liberalismo nas quais o “verdadeiro” esquerdismo receava ser absorvido e, no final, desaparecer por completo.
A fuga a este desespero não foi fácil. Não era possível regressar ao marxismo falido; isso justificaria a sobrevivência de franjas lunáticas extremistas, mas não soluções de governo de sociedades ultracomplexas na tardo-modernidade. Não era possível retomar o liberalismo da “Terceira Via”. O plano económico-social tinha de ser confrontado com outros recursos e com outros horizontes. O desastre chegou por via do “identitarismo político”, proveniente de extremismos intelectuais académicos que assaltaram de surpresa os velhos partidos das classes trabalhadoras. Estas foram imediatamente abandonadas pela pseudo-sofisticação de uma crítica da história, do regresso das categorias raciais à organização da política, do uso da sexualidade com propósito de subversão institucional e de um abandono total do referencial do Estado nacional, da cidadania particular, em favor da “religião da humanidade” – para usar a expressão imorredoira de Auguste Comte. Incapaz de se libertar da camisa de forças em que se colocou, a esquerda passou a ser orientada nos seus valores fundamentais pelas franjas radicais com uma mundividência que implicava abandonar e detestar as populações que em tempos a esquerda democrática trabalhara arduamente para representar. Mais, até a crítica da religião foi abandonada e substituída por uma reverência moral absoluta por todos os obscurantismos e repressões desde que não sejam cristãos na sua origem.
As lutas contra os fascismos “imaginários”, os complexos do “colonialismo” forjados por má historiografia e uma ainda pior consciência moral, a emancipação através de uma ética “humanitária” que abole as fronteiras e proclama a dissolução da aventura histórica dos povos na sua particularidade, colocam a esquerda em guerra permanente com as populações a quem pedem o voto. E, como Filipe Gonzalez em Espanha recorda amiúde, em guerra contra os seus próprios princípios seculares.