(c) 2023 am|dev

(A) :: Continuamos fritos

Continuamos fritos

Os portugueses a falar da América são como italianos que não acertam na receita do esparguete. Admitamos: somos um embaraço, uma piada, um compacto de cringe

Tiago de Oliveira Cavaco
text

Uma vez mais voltamos a um dos nossos assuntos preferidos: a América. E quando falamos da América, falamos de um país apenas que são os Estados Unidos. Só este facto injusto deveria levar-nos a pensar: não existe nenhum outro caso, em que um país se confunda com o continente onde está. Isto demonstra que inevitavelmente vivemos fascinados pelos Estados Unidos, seja pela positiva, pela negativa, ou pela confusão das duas.

De um modo geral os portugueses não pescam nada do assunto, uma fatalidade ainda maior se lembrarmos que fomos plantados à beira mar. Os portugueses a falar da América são como italianos que não acertam na receita do esparguete. Admitamos: somos um embaraço, uma piada, um compacto de cringe. O fenómeno precipita-se sobretudo quando as personagens americanas nos desagradam: a repugnância é nossa mas o ridículo também.

Os portugueses não pescam nada dos Estados Unidos porque não compreendem que aquilo que deles faz país é uma religião que nos é estranha. Claro que penso no Protestantismo mas não penso só em Protestantismo. Como é óbvio, a tese não é minha (li-a ultimamente no teólogo Kevin Vanhoozer): a identidade norte-americana é escrita. A nossa e a dos países mais antigos, não. Sim, os Estados Unidos só podem ser compreendidos como um clube de leitura.

O big bang dos Estados Unidos da América é a Constituição (também não seria absurdo mencionar a anterior Declaração de Independência)—é lá que uma Constituição adquire a sua forma mais moderna. Para se ser americano o cidadão precisa de conhecer a Constituição. Declama-a, guarda-a no colo como um poema principal. Principal mesmo, no sentido de princípio: ouviram-se as palavras da Constituição e a nação passou a existir. A Constituição é para o americano o mais primordial “fiat lux”.

A Constituição nos Estados Unidos vira a fotografia mais antiga da família: é impressa em posters, é usada para defender preferências políticas, é invocada como um santo que nos livra de dissabores vários (“Santa Constituição, não me faças perder a arma”, “Santa Constituição, deixa-me dizer o que quero”, “Santa Constituição, deixa-me ficar calado quando me acusam”, e por aí fora). O verdadeiro americano é um leitor atento desta escritura. Em vez de “Pai Nosso”, ele reza “we, the people”.

O americano lida com a Constituição como assunto sempre religioso: nos pólos, há os originalistas, que crêem que ela deve ser preservada no seu significado original; e há os mais dinâmicos, que crêem que ela deve ser entendida no desenvolvimento da sua compreensão para os dias de hoje. Daqui nascem comunidades interpretativas que vão dos mais literatos ao povão. Sim, um juiz do Supremo Tribunal falará do assunto com outra desenvoltura, mas nunca o Zé da Esquina deverá ser excluído dele.

O que faz dos Estados Unidos os Estados Unidos é esta mentalidade de clube de leitura, típica de uma igrejinha evangélica pronta para sobreviver a partir do zelo da sua interpretação muito específica de uma passagem bíblica (até os católicos americanos são protestantes, neste sentido). Enquanto a escritura existir como princípio, o americano tem a mais descarada licença de porte de arma: são os seus olhos para ler.

Até quando é enganado, o americano é embrulhado a partir do texto. Terra de vigaristas inesquecíveis, os Estados Unidos promovem gamas várias de banha da cobra a partir de um dos versos preferidos, não da Constituição mas da Declaração de Independência: “the pursuit of happiness”. Pensem nisto: há no mundo um país que se declara livre, leve e solto a partir do desejo escrito de ser feliz. Com um ego assim tinha mesmo de virar continente.

Connosco, portugueses, a história é outra. Sim, também temos uma Constituição e, sim, também precisámos de uma bula papal para existir enquanto Reino. Mas os textos não nos libertam. Pelo contrário, as leis passam-nos por cima e tornam-se o pretexto perfeito para sermos dominados por advogados loquazes e oleosos, na versão mais acessível e barata, e constitucionalistas herméticos e envitrinados, na versão supostamente mais elevada. Apesar da beira-mar, continuamos fritos.