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Os vulcões de alto a baixo

O livro "Vulcões" volta a mostrar como a editora Araucária junta arte fotográfica com divulgação científica como forma de abordar a paisagem açoriana nos seus elementos essenciais.

Vasco Rosa
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Dois anos depois de ter produzido Nuvens, a editora Araucária, de São Miguel, lança Vulcões. Daniel Blaufuks toma o lugar que no outro livro havia sido de Alberto Plácido, e a escritora Judite Canha Fernandes apresenta-se com uma breve narrativa vívida que faz a passagem da monumentalidade geológica do portefólio imagético intitulado “Caminhos de lava” para as páginas textuais dos cientistas que, com a clareza do cristal, explicitam o fenómeno vulcânico e as suas diferentes configurações, que ilustrações de grande qualidade ajudam a enquadrar melhor (v. pp. 216-25). Este figurino já de si de perfeito recorte, concebido pela editora Blanca Martín-Calero, é levado a páginas impressas pela maestria arrojada de José Albergaria, tornando o objeto livro uma obra de arte que dá gosto folhear. A capa em laranja e prata é todo um exercício de radicalização estética, feito a partir do já inesperado negativo colorido com que Blaufuks exibe a montanha do Pico entre nuvens, nas pp. 68-69.

Escolhi-o como livro do ano 2025 precisamente para louvar a convergência de talentos na produção de um livro que dá ao tema número um ou dois (depende de onde se colocar o oceano…) do arquipélago uma qualificação editorial que a academia muito dificilmente daria por si, e reflete com brilho a qualificação emergente nos Açores, em contraste com muitos índices negativos e o ruído de profetas da desgraça em busca de protagonismo político. Mais: Blanca Martín-Calero faz tudo isso sem recorrer aos bons serviços de Victor Hugo Forjaz, incontestado decano da vulcanologia dos Açores e co-autor, aos 85 anos, do recente Vulcanologia para Jovens Exploradores (Letras Lavadas, Setembro de 2025, 304 pp.), preferindo dar voz a dois formados na Universidade dos Açores, Zilda França e Nuno Pereira.

Blaufuks é sobretudo um “turista acidental” nos Açores, sem trabalhos anteriores que se enquadrem com este, mas o facto de ser um “artista visual” (sic!) dedicado “à relação entre memória pública e memória privada” (biografia, p. 158) permite considerá-lo apto a cumprir o desafio que lhe foi proposto, o de abordar fotograficamente a presença antiquíssima dos vulcões naquelas ilhas e a ampla variedade dos panoramas por eles criados e sobre as quais o povoamento humano se estabeleceu — sugestionando deste modo os leitores sobre a memória geológica daquelas nove ilhas, de resto tão diversas entre si, no litoral e nos planaltos, na cobertura vegetal como no recôndito subterrâneo; por vezes, a ausente presença humana (o porto de abrigo, a escada metálica na ponta do cais, as pequenas pedras perfiladas que alguém foi recolhendo pelo caminho, o farol dos Capelinhos) também aparece, como evidente assinatura do fotógrafo urbano que ele sobretudo é.

Estas 35 imagens, quase todas mostradas em dupla página, não serão certamente o melhor do melhor que alguma vez se fez ou fará neste domínio — até pela inevitável brevidade do périplo ilhéu do seu autor —, mas a fama de Daniel Blaufuks tem créditos suficientes para satisfazer largamente a curiosidade de alguns e receber a complacência ocasional de outros, aqueles, por exemplo, para quem um olhar científico qualificado jamais pode faltar a um portefólio deste tipo. Mais do que por consenso — sempre um tanto ou quanto normativo —, um editor deve guiar-se pela originalidade das suas escolhas livres, e as de Araucária são em geral muito boas, mesmo quando nos pareça que poderiam ir ainda mais além ou em outra direção.

Título: “Vulcões”
Textos: Judite Canha Fernandes; Nuno Pereira e Zilda França
Fotografia: Daniel Blaufuks e outros 
Design: José Albergaria
Editora: Araucária
Páginas: 160

A metade científica destes Vulcões é uma lição ao alcance de todos, quase um desenho linear. Está certíssimo que assim seja, para que açorianos de todas as idades tenham plena consciência do que representa viver em ilhas vulcânicas, e dos constrangimentos (há um capítulo “Perigos vulcânicos”) e benefícios daí resultantes (“os solos nas imediações dos vulcões são frequentemente férteis, permitindo desenvolver excelentes explorações agrícolas”, p. 76; “a energia geotérmica contribui com c. 42 % da produção de energia elétrica da ilha de São Miguel”, p. 104), bem como o facto de, desde a Antiguidade, os vulcões terem lugar assegurado na mitologia e na religião de todas as partes do mundo em que existem (“a adoração religiosa dos vulcões é generalizada mesmo em sociedades técnicas e altamente avançadas, como o Japão”, p. 80). A dita vulcanologia moderna, instituída no Ocidente nos séculos XVIII e XIX, tratou do estudo dos “processos do vulcanismo” para que a previsão de erupções pudesse vir a proteger vidas e bens humanos, graças à criação de observatórios permanentes em pontos-chave. Os Açores também foram um destacado campo de pesquisas nessa matéria, todavia Pereira e França evitaram historiar, mesmo que a traço rápido, os famosos vulcanólogos — como Ferdinand André Fouqué (1828-1904) — que ali passaram e ali escreveram (v. pp. 83-84).

Os autores descrevem os “produtos vulcânicos”, os “estilos eruptivos” e as “estruturas vulcânicas” apontando ocorrências concretas e diferenciadas em São Miguel, Pico, Flores e Terceira, entre outras — sem perder de vista referências globais como o Vesúvio italiano, Monte Pelée na Martinica, Krakatoa na Indonésia, Surtsey na Islândia e El Hierro nas Canárias —, e explicam que a monitorização dos fenómenos vulcânicos, apesar do progresso e da sincronia dos diagnósticos, carece ainda duma fina articulação dos instrumentos de proteção civil, porquanto é muito difícil antecipar o que pode surgir de repente. “Os tsunamis — lê-se na p. 112 — têm sido um dos perigos vulcânicos mais mortíferos, devido à sua elevada velocidade e amplo alcance. Estes eventos têm um enorme poder destruidor, arrasando propriedades e causando muitas fatalidades, mesmo em lugares distantes da erupção.”

Todavia, nem tudo é mau, até pelo contrário: “Embora em diversas ilhas dos Açores ocorram manifestações secundárias de vulcanismo, é indubitavelmente na ilha de São Miguel que existem mais campos fumarólicos e uma grande variedade de águas minerais e termais, concentradas principalmente nas Furnas, contribuindo para que esta localidade seja considerada uma verdadeira hidrópole” (p. 104), aliás “a mais importante das hidrópoles europeias” (p. 127). “A Água da Morangueira, com uma concentração de lítio de 319 mg/l e uma temperatura de 41 ºC, é indicada para doenças de fígado e rins”, lê-se na p. 126. A Ferraria micaelense, várias vezes referida, proporciona banhos termais numa piscina natural aberta ao mar, para júbilo de quem a aproveite e não a esquecerá.

Por temores que se tenham, o balanço aponta para o privilégio duma herança geológica de cariz vulcânico. Todos os cuidados são poucos, aceite-se, mas tão-pouco os benefícios são irrelevantes. E não me refiro às mutantes vistas do Pico desde o Faial, ou à visão conjugada das lagoas funda e rasa nas Flores, com mais ou menos neblina. Que algures sob os nossos pés persista um gigante magma dormente ou preguiçosamente desperto é condição humana excecional, o que merece ser estimado como tal. Este livro diz-nos exatamente isso.