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(A) :: Último museu sobre os gulags da URSS será substituído por memorial das vítimas do nazismo

Último museu sobre os gulags da URSS será substituído por memorial das vítimas do nazismo

Encerrado há dois anos, o Museu de História do Gulag de Moscovo não voltará a reabrir. Deve ser substituído pelo Museu da Memória, que condena os crimes do nazismo, alvo principal do governo de Putin.

Mariana Carvalho
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O Museu da História do Gulag de Moscovo, que presta homenagem às vítimas dos campos de trabalhos forçados em funcionamento durante o Estalinismo, vai ser substituído pelo Museu da Memória, dedicado ao “genocídio do povo soviético”, segundo comunicado do Departamento de Cultura da capital russa, emitido na sexta-feira. O novo modelo expositivo deverá recordar “os crimes de guerra cometidos pelos nazis durante a Grande Guerra Patriótica”, nome que a Rússia e outros países da antiga União Soviética (URSS) dão à Segunda Guerra Mundial.

O museu sobre os gulags soviéticos — onde foram aprisionados dissidentes políticos e opositores da URSS — foi fundado em 2001. O único museu dedicado aos campos de trabalhos forçados, após os sucessivos desmantelamentos operados pela administração de Vladimir Putin, estava encerrado desde novembro de 2024, por alegadas violações das medidas de segurança contra incêndios. Em janeiro de 2025, o jornal independente Meduza revelou que o encerramento foi, na verdade, motivado pela resistência do diretor do museu, Roman Romanov — demitido no mesmo mês —, em censurar uma exposição sobre a repressão soviética.

A recente notícia da mudança de curadoria do museu alinha-se com a retórica adotada pela administração de Vladimir Putin. Segundo declarações do presidente russo à agência noticiosa Tass, a “operação militar” em curso na Ucrânia visa “desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia”, a fim de “proteger as pessoas sujeitas ao abuso e genocídio do regime de Kiev”.

Nos últimos anos, várias organizações dedicadas à memória das vítimas do regime soviético foram impossibilitadas de desenvolver atividade no país. Um exemplo é a organização Memorial, vencedora do Prémio Nobel da Paz em 2022, que foi encerrada um ano antes e cujos membros se exilaram no estrangeiro. O Museu do Gulag que existia na cidade de Perm, no centro da Rússia, mudou de escopo em 2015, e várias placas e memoriais dedicados às vítimas foram destruídos pelas autoridades.

Também o Dia de Recordação das Vítimas de Repressão Política, que se celebrava na Rússia desde 1991, foi banido por Vladimir Putin, quando começou a ofensiva à Ucrânia. Em declarações ao The New York Times, o historiador russo Nikita Sokolov afirmou que “qualquer recordação dos crimes provocados pelo Estado russo é muito inconveniente para as atuais autoridades”.

A coleção do museu encerrado compreendia objetos retirados dos campos de trabalhos forçados — como um diário clandestino escrito por Olga Ranitskaya, detida por nove anos no campo de Karlag, no Cazaquistão —, e pretendia evocar o ambiente opressivo das prisões, além de reunir testemunhos orais de sobreviventes. O novo museu, dirigido por Natalya Kalashnikova, deverá recriar a experiência do cerco de Leninegrado (atual São Petersburgo) pelo exército nazi, entre 1941 e 1944, a fim de “instalar na geração moderna uma forte rejeição do nazismo em todas as suas manifestações”, afirmou a nova diretora. A inauguração está prevista ainda para este ano.