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O "coelho da cartola" tirado por Montenegro: como o PM escolheu (e escondeu) o novo MAI

Primeiro-ministro guardou a escolha de Luís Neves quase até ao fim. Conhecimento das forças de segurança foi fator preponderante. Ligações do novo ministro ao universo PS não pesaram na decisão.

Miguel Santos Carrapatoso
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Uma escolha, no mínimo, surpreendente. Luís Neves, até aqui diretor nacional da Polícia Judiciária, vai ser o novo ministro da Administração Interna. A decisão, como é hábito em Luís Montenegro, foi mantida em segredo até ao momento em que foi anunciada, formalmente e no site da Presidência da República, apanhando muita gente, inclusive dentro do Governo, de surpresa. Poucos, além de Montenegro e do próprio Luís Neves, saberiam da nomeação.

“O primeiro-ministro tirou mais um coelho da cartola“, celebra-se a partir do Governo. O nome de Luís Neves nunca foi referenciado nos muitos artigos que foram sendo escritos sobre os possíveis sucessores de Maria Lúcia Amaral, no Observador e noutros órgãos de comunicação social, prova de que a informação estava mesmo blindada.

O perfil, apesar de tudo, era aquele que se perspetivava. A determinada altura tornou-se claro que Montenegro não iria fazer mexidas internas no Governo, promover secretários de Estado ou pescar junto de antigos autarcas — que teriam outro conhecimento do terreno e da componente da Proteção Civil, outra dor de cabeça para qualquer ministro da Administração Interna. A ideia foi sempre levar para o MAI alguém que fosse capaz de pôr as “polícias na ordem“.

Aliás, nesse aspeto, há uma relativa continuidade em relação às suas antecessoras, Margarida Blasco e Maria Lúcia Amaral. Luís Montenegro sempre privilegiou para o Ministério da Administração Interna figuras que conhecessem bem as forças de segurança em detrimento de um tipo de perfil mais político e ligado à Proteção Civil.

O Observador sabe que as alternativas a Luís Neves, que chegaram a ser estudadas e informalmente sondadas, também tinham características semelhantes. Com uma diferença: Luís Neves, ao contrário das antecessoras, fala a mesma língua daqueles que agora vai ter de liderar como ministro e saberá dar “um murro na mesa” quando tal for necessário.

Luís Neves é, naturalmente, alguém que conhece muito bem as forças de segurança. Estava na PJ desde 1995, sempre ligado ao combate à criminalidade violenta e organizada e chegou a estar à frente da Unidade Nacional Contra Terrorismo. Foi nomeado diretor daquela polícia por escolha do então primeiro-ministro António Costa.

Também este aspeto torna a opção por Luís Neves inesperada. Nos corredores da política, o até aqui diretor da PJ é tido como alguém próximo ou simpatizante do Partido Socialista, tendo merecido repetidamente a confiança de António Costa, que passou pela pastas da Administração Interna e da Justiça até chegar a primeiro-ministro.

Há um ano, aliás, as declarações de Luís Neves contra a ideia de que o país estava “sem rei e sem roque” no que à segurança dizia respeito chocaram de frente com o que o Governo ia tentando impor como narrativa política e mediática, e foram aproveitadas pelos socialistas para fazer oposição a Luís Montenegro.

Nessa ocasião, mais concretamente a 17 de janeiro de 2025, Neves lamentou a polarização em torno do debate sobre segurança. “Estamos a assistir a um momento de desinformação, ‘fake news’ e ameaças hibridas e é isso tudo que leva a fundamentar a perceção de insegurança“.

O então diretor da PJ, que falava numa conferência organizada pelo Diário de Notícias, aproveitou ainda para criticar aqueles que relacionavam a imigração ao aumento da criminalidade. “É preciso fazer a destrinça entre os criminosos estrangeiros que usam Portugal para a sua prática e os imigrantes”.

A escolha da expressão “perceção de insegurança”, utilizada várias vezes por Luís Montenegro e por outros elementos do Governo e do PSD, e a forma como abordou o binómio segurança-imigração não terão sido inocentes e foram utilizados pelo PS como arma de arremesso contra o Governo.

De resto, quando chegou ao poder, Luís Montenegro tentou fazer de Luís Neves secretário-geral do Sistema de Segurança Interna (SSI), mudando a liderança da PJ. Luís Neves terá recusado o convite e manteve-se à frente daquela polícia já depois de ter estado algum tempo em gestão corrente.

A forma como desafiou a vontade do primeiro-ministro — e o facto de isso se ter tornado público — não fazia antecipar que a relação entre ambos fosse sólida ao ponto de justificar este novo convite para ministro da Administração Interna. Sobretudo num momento em que Montenegro tem margem zero para errar.

Com a escolha de Luís Neves, Montenegro consegue uma peça que encaixa no perfil que tinha traçado para o sucessor de Maria Lúcia Amaral. O até aqui diretor da PJ conhece bem os agentes do setor e as idiossincrasias de um corporação exigente como é a das forças de seguranças.

Está habituado a falar em público, sabe lidar com a comunicação social e tem reconhecida capacidade de comando e de liderança — é conhecido na PJ por nunca esquecer uma cara e o respetivo nome. Saberá antecipar focos de contestação no setor.

É de esperar, por isso, que Luís Neves se rodeie de secretários de Estados com uma ligação mais íntima à Proteção Civil e com conhecimento profundo da rede de autarcas por todo o país — uma das maiores fragilidades apontadas a Maria Lúcia Amaral foi, precisamente, a falta de capacidade de se articular com os autarcas durante os incêndios de 2025 e, sobretudo, durante as tempestades que assolaram o país no arranque de fevereiro.