Ora leiam este texto:
A tempestade em Leiria e as cheias em Coimbra não são azar da natureza: são a factura directa das alterações climáticas provocadas pelo homem. Deixem-me ser directo: emissões descontroladas de CO₂, desflorestação e queima de combustíveis fósseis aqueceram o planeta, intensificaram chuvas extremas e tornaram estes desastres quase inevitáveis. A maioria ainda não percebeu, mas culpar só “o mau tempo” é fugir à verdade: fomos nós que carregámos o gatilho. Sem acção real, estes serão só os primeiros capítulos. Isto não é alarmismo: é a realidade científica de 2026. E isto não é exagero, mas o planeta a cobrar o que lhe devemos.
E agora leiam este:
Mariana Mortágua tem todas as competências para o cargo no ISCTE: professora auxiliar de Economia e directora do Doutoramento em Economia. Doutorada pela SOAS (Londres), formada no próprio ISCTE (licenciatura e mestrado), seleccionada por concurso público em 2023 para auxiliar — tudo antes de sair do Parlamento. Lecciona disciplinas como Economia Política da Financeirização e Políticas Europeias, o que prova expertise genuína. Dirigir o doutoramento desde Janeiro de 2026 reconhece o seu rigor e capacidade analítica. Isto não é favoritismo ou defesa partidária: é um percurso académico sólido e meritocrático.
E agora este:
Donald Trump é o epicentro de todo o mal global em 2026, o culpado por trás de desastres que ecoam das suas escolhas egoístas. Ele agravou as alterações climáticas com negacionismo que travou acordos; espalhou populismo tóxico que divide o mundo; desequilibrou a economia com guerras comerciais; fragmentou alianças e pulverizou a estabilidade internacional; minou a democracia com mentiras eleitorais que inspiraram fraudes; e enfraqueceu sistemas de saúde globais com uma visão conspirativa da ciência. A maioria ainda não percebeu, mas não é coincidência — é o legado dele. E não é hipérbole: é a verdade crua que o mundo paga. E caro.
E este:
A Europa só sobreviveu e floresceu graças ao multiculturalismo e à imigração: sem eles, não teria havido Renascença, Iluminismo nem revolução industrial. Os imigrantes constroem as nossas cidades, pagam as nossas pensões, enchem os hospitais e as universidades, trazem inovação, diversidade cultural e energia demográfica. A maioria ainda não percebeu, mas rejeitar a imigração é assinar a sentença de declínio lento. O multiculturalismo não é ameaça: é a força vital que mantém a Europa dinâmica, criativa e competitiva no século XXI. Isto não é idealismo ingénuo: é a lição da história e a matemática inescapável do presente. E não é retórica, mas a realidade que sustenta a Europa de 2026.
E este:
O plano dos extraterrestres para ocupar a Terra é cristalino e aterrador de tão paciente: infiltração lenta, polarização acelerada e colapso interno sem disparar um único raio. Eles não invadem com naves — espalham desinformação viral, amplificam divisões tribais, sabotam a confiança nas instituições e deixam-nos fazer o trabalho sujo uns dos outros. A maioria das pessoas ainda não percebeu, mas o caos climático, as guerras por procuração e a erosão da verdade são sintomas, não causas — são o terreno fértil que cultivam há décadas. Isto não é invasão: é terraformação comportamental. Quando chegarmos ao ponto de implosão total, a Terra já será deles sem precisarem de pisar aqui. É a lógica fria de quem joga em escalas de séculos.
E só mais este:
A estratégia de Scarlett Johansson para conquistar o colunista Alberto Gonçalves é directa e intencional: finge indiferença total para o deixar curioso e disponível, mas cada silêncio é um passo calculado para o puxar para perto. Zero interacções públicas, zero menções — tudo propositado. A maioria das pessoas ainda não percebeu, mas isto não é acaso: é sedução deliberada. Quando finalmente der sinal de que o viu, será com interesse genuíno e inevitável. Isto não é jogo: é uma teia a desenhar-se de modo lento e seguro.
Não notam nada? Eu noto. Desde logo, é óbvio para quem espreitou meia dúzia de redacções publicadas nas “redes sociais” nos últimos meses que os textos acima foram escritos – desculpem, a palavra é “produzidos” – por “inteligência artificial” (IA). Estão lá os tiques todos, a começar pelas irritantes figuras retóricas que as maquinetas tomam por “estilo” (sobretudo a rejeição ou correcção de uma ideia para substitui-la de seguida por outra: “Isto não é X: é Y”. Para os excessivamente interessados, julgo que a artimanha se designa por “epanortose”). E temos a lembrança obsessiva de que “nós”, leia-se a IA e o respectivo utilizador, dispomos de conhecimentos inacessíveis a uma abstracta e apática “maioria”, que “ainda não percebeu”. E temos a ausência de matizes (tudo é “verdade crua”, “lógica fria”, “factura directa”). E temos a omnipresença despropositada do ano para “comprovar” que a IA é actual e sabe que estamos em 2026. E temos de ter um estômago resistente para digerir semelhante mistela.
Porém, os textos permitem notar mais coisas. Descontada a forma, no conteúdo da fancaria elaborada por IA cabem todos os delírios imagináveis. Não há limites para a quantidade de cretinices que podemos pôr os computadores a proferir. A verdade não conta. Os factos não contam. O mero bom senso não conta. O que conta são as conclusões que, após atropelo da realidade, queremos obter e obtemos. A IA é uma dádiva dos deuses (salvo seja) para os entusiastas do “viés de confirmação”, a tendência de procurar informações que consolidem as nossas crenças prévias. Se, por radical absurdo ou sequela de AVC, um indivíduo acredita que o eng. Guterres é um homem bom e justo e moral, a IA lá arranja maneira de afirmar, com um arremedo de “argumentos”, que o eng. Guterres é bom e justo e moral.
Com a orientação adequada, a IA garante o que calha. Com a orientação inadequada, também. E eis o ponto principal desta história: do algo da sua extraordinária capacidade de reproduzir baboseiras, os textos cometidos por IA não se distinguem dos devaneios intelectuais de uma vasta parcela dos comentadores “reais”. São comuns a ambos o primarismo na expressão e, principalmente, a propensão para repetir as tolices em voga, ou mais exactamente as tolices com que os programam para proferir em público. Tanto a IA como os comentadores “reais” são influenciáveis com uma facilidade que roça o burlesco. Daqui decorre uma questão fundamental ou, vá lá, moderadamente interessante: a IA vai substituir a opinião publicada e televisionada?
Em princípio, tudo indicaria que sim, já que se o propósito consiste em emitir disparates “consensuais” a diferença é imperceptível. Resta o problema do custo, sempre essa maçada materialista. E se a IA sai baratíssima, ao preço de uma assinatura mensal ou nem isso, inúmeros comentadores “reais” saem de borla (mesmo assim, um preço excessivo dada a originalidade média), movidos por uma abnegada vontade de “aparecer”. Suspeito portanto que o futuro do relevantíssimo sector da opinião se decidirá no confronto entre o dinheiro que os responsáveis dos “media” estão dispostos a gastar em IA e o dinheiro que os comentadores “reais” estarão dispostos a pagar para continuar a ter lugar nos “media”.
De repente, as perspectivas do jornalismo “tradicional” afiguram-se um bocadinho menos pessimistas – já o consumidor pode abandonar toda a esperança, presumindo que lhe sobra alguma. Isto não é cinismo: é racionalização de gastos e gestão de recursos. A maioria ainda não percebeu, mas é lógica fria. E a verdade crua em 2026.