Na passada quarta-feira, dita das cinzas, porque as mesmas são impostas aos fiéis como sinal e convite à penitência, teve início o tempo litúrgico da Quaresma, que evoca, como o seu nome indica, os quarenta dias passados por Jesus de Nazaré no deserto, antes de dar início ao seu magistério público. Terminados esses dias de oração e de jejum, Cristo foi tentado pelo diabo.
A segunda das tentações não apenas pôs à prova a sua condição divina, mas também a sua razão humana. Na única pessoa de Jesus Cristo estão unidas as duas naturezas: a de Deus, recebida de seu único Pai, o do Céu (Lc 2,49); e a humana, que lhe foi transmitida imaculada por sua mãe (Lc 1, 34). Com efeito, segundo São Mateus, depois de malograda a primeira investida diabólica, “o demónio transportou-o à cidade santa, pô-lo sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: ‘Se és Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo, porque está escrito: ‘Mandou aos seus anjos em teu favor, eles te levarão nas suas mãos, para que o teu pé não tropece em alguma pedra.’ Jesus disse-lhe: ‘Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’.” (Mt 4, 5-7).
Tem o seu quê de enigmático que Jesus aceite uma boleia aérea do diabo e que este tenha o atrevimento de o tentar, citando a Sagrada Escritura. Também é de estranhar que queira experimentar Jesus, pois era do seu conhecimento a sua condição divina, a que é inerente a impecabilidade (Mt 8, 29; Mc 5, 7; etc.). Por outro lado, o que propunha era uma ofensa, não apenas a Deus, mas também à razão humana, porque ambas não se contrapõem, mas se complementam, como já dizia Santo Agostinho: “eu creio para compreender e compreendo para crer melhor” (Sermão 43, 7-7-; PL 38, 257 ss.; Catecismo da Igreja Católica, nº 158).
A propósito deste episódio bíblico e da série ininterrupta de tempestades que têm ultimamente assolado o nosso país, refira-se uma história que, como diriam os italianos, se non è vera, è ben trovata.
Uma pequena aldeia era banhada por um rio que, quando as chuvas eram torrenciais, galgava as margens e a inundava, assim como as demais povoações ribeirinhas, sobretudo quando às caudalosas águas do rio se somavam as descargas de uma barragem próxima. Num ano particularmente chuvoso, como o actual, foi mesmo necessário desalojar algumas casas, entre as quais a que ocupava o pároco local. Mas o zeloso sacerdote, sabendo que nunca lhe faltaria a protecção divina, recusou-se a abandonar a sua morada.
Quando o respectivo rés-do-chão já estava submerso, o piedoso clérigo subiu para o primeiro andar da residência paroquial. Passou então diante da sua janela uma lancha dos bombeiros, e o prior foi convidado a nela tomar lugar, pois poderia não ter outra ocasião de se pôr a salvo. Mas, por segunda vez, o presbítero recusou a gentil oferta, pretextando a sua inabalável fé em Deus.
Fé que, contudo, o não impediu de, pouco depois, ver-se obrigado a trepar para o telhado da moradia. Por sorte, um helicóptero da protecção civil, quando sobrevoava a povoação à procura de habitantes que precisassem de ser evacuados por via aérea, notou a presença do prior e lançou-lhe uma escada de corda, pois era iminente uma nova descarga da barragem. No entanto, pela terceira vez consecutiva, o eclesiástico desprezou aquela ajuda terrena, fiado como estava no auxílio divino, que não lhe iria faltar.
Pouco depois, quando as suas trémulas mãos enregeladas desgranavam as contas de um velho terço, uma onda mais forte varreu a cobertura do edifício, levando consigo o piedoso clérigo, que morreu afogado.
Quando o abade se viu na presença do Criador, com o filial atrevimento que a sua muita virtude consentia, não deixou de respeitosamente manifestar a sua indignação, pois tinha sido em vão que tão piedosamente tinha confiado na providência divina. Ao que Deus lhe respondeu: “Como te atreves a dizer que não te escutei se, precisamente para te socorrer e salvar, te enviei, por três vezes, mensageiros meus?! Primeiro, os que te alertaram para que deixasses a tua casa, mas a quem não deste ouvidos! Depois, os bombeiros que passaram ao lado da tua janela e te quiseram resgatar, mas que tu também rejeitaste! E, por último, para evitar que perecesses ante uma iminente descarga da barragem a montante, até enviei um meio aéreo!!”
Moral da história: não se devem pedir a Deus meios extraordinários, quando os habituais são suficientes. Deus pode, através de um milagre espantoso, curar um doente, mas geralmente quer fazê-lo através do trabalho de médicos e enfermeiros competentes. Deus pode conceder a alguém o dom da sabedoria, mas o mais provável é que a queira fazer sair da ignorância através do ensino e do estudo.
Para além da tentação propriamente dita, que é o diabólico convite para o pecado, também existe a hipótese humana de tentar a Deus, que não é seduzi-lo para o mal de que ele não é capaz, mas ofendê-lo por desprezar a razão. Foi este o pecado do padre afogado que, sem razão, deu prova de uma fé que não é, decididamente, cristã, pois esta necessariamente não só não contradiz, como pressupõe a razão humana.
A fé cristã, ao contrário da crendice e da superstição, crê no que a razão apresenta como crível, mesmo quando a essência do mistério revelado ultrapassa os limites da razão. Tanto a razão como a fé são a voz de Deus e, por isso, entre elas não pode haver contradição: se houver, é porque algo tido como sendo de fé, ou científico, o não é. Deus pode, mais por via de excepção, recorrer a meios extraordinários que, no entanto, nunca contradizem a razão, embora a transcendam (Lc 1, 30-33). Se Deus, pela razão, já fez saber que quem se atirar do pináculo do templo morrerá, não tem por que impedir um tão desastroso resultado, porque a razão humana basta para que se saiba, com absoluta certeza, que tal temeridade não deve ser feita. Tanto peca o que se opõe à razão sobrenatural como o que recusa a razão natural, pois ambas procedem de Deus e a Deus conduzem. Opor-se à razão, para provocar uma extraordinária intervenção divina, é não só tentar a Deus, como também um pecado contra a razão humana.
Peça-se a intervenção extraordinária de Deus para o que o nosso engenho e arte não logram alcançar, mas haja fé para ver, na inteligência e no trabalho humanos, a providencial e misericordiosa resposta de Deus às nossas necessidades normais. É também o melhor modo humano de dar glória a Deus e de contribuir para o bem da humanidade.