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Preparados para a "diplomacia e para a guerra”: Irão diz estar aberto a acordo com os EUA, mas mantém a vontade nuclear

Na entrevista em que desfez rumores sobre suspensão de enriquecimento de urânio e ultimatos, Araghchi sinalizou abertura diplomática mas acenou com a guerra. "Mataram cientistas, não o programa".

Mariana Furtado
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O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, afirmou esta sexta-feira que Teerão está “preparado para a paz” e para avançar no caminho da diplomacia com os Estados Unidos, sugerindo que um eventual acordo entre os dois países poderá estar próximo. Ainda assim, além de desmentir rumores sobre um ultimato de Washington e a suspensão do enriquecimento de urânio, deixou claro que a abertura demonstrada não significa a renúncia a linhas vermelhas. “Estamos preparados para a diplomacia e para a negociação, assim como estamos preparados para a guerra”, frisou.

Ao programa Morning Joe, do canal MS NOW, o chefe da diplomacia iraniana sublinhou que o dossier nuclear iraniano não terá solução militar, evocando a sua longa experiência em negociações. “Estou nesse ramo há 20 anos e já negociei com diferentes partes. Sei que um acordo é possível, mas ele deve ser justo e baseado numa solução vantajosa para ambos os lados”, afirmou, antes de alertar para os riscos de uma escalada: “A opção militar só complicaria a situação, só traria consequências desastrosas – não apenas para nós, talvez para toda a região e para toda a comunidade internacional.”

Araghchi garantiu que o país está disposto a implementar “medidas de construção de confiança” para assegurar que o programa nuclear terá apenas “fins pacíficos”, sem especificar quaisquer exemplos concretos. Até porque, segundo explicou, a estratégia de confronto já foi “testada no passado”, sem efeitos: “Mataram os nossos cientistas, mas não conseguiram matar o nosso programa nuclear”.

Foi nesse contexto que aproveitou para criticar o reforço militar dos Estados Unidos no Médio Oriente, classificando-o como “desnecessário e inútil”, que faz pairar a ameaça de um ataque.

https://observador.pt/especiais/presenca-militar-reforcada-pressao-de-israel-e-um-impasse-nas-negociacoes-seis-respostas-sobre-o-possivel-ataque-dos-eua-ao-irao/

Questionado sobre os termos das negociações em curso, nomeadamente relatos de que Washington estaria a exigir a suspensão permanente do enriquecimento de urânio no Irão, Araghchi rejeitou essa informação, afirmando que o país não “ofereceu nenhuma suspensão, e os EUA não pediram o enriquecimento zero”. O ministro esclareceu também outra questão levantada recentemente: em relação ao prazo de 15 dias referido pelo Presidente norte-americano, garantiu que “nenhum ultimato” foi apresentado e que ambas as delegações estão focadas num “acordo rápido” que beneficie os dois países, para o qual não escondeu ser precisa alguma “criatividade”.

A pedido do entrevistado, o chefe da diplomacia deixou ainda um recado direto a Washington: “A mensagem é que as administrações americanas anteriores, e até mesmo a atual, tentaram quase tudo contra nós — guerra, sanções, o mecanismo de reversão automática de sanções, tudo — mas nada funcionou”.

Araghchi insistiu que a relação entre os dois países dependerá, acima de tudo, da forma como os Estados Unidos se dirigirem ao Irão. “Se falarem com o povo iraniano com a linguagem do respeito, responderemos com a mesma linguagem. Mas se nos falarem com a linguagem da força, responderemos com a mesma linguagem”, acrescentou.

“Acho que os iranianos provaram ser um povo muito orgulhoso. Só respondemos à linguagem do respeito e é assim que podem falar connosco, e verão o resultado.”

As declarações surgem depois de o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter afirmado, na quinta-feira, que uma decisão sobre uma eventual ação militar poderá ser tomada nas próximas duas semanas. “Talvez tenhamos de dar um passo adiante, ou talvez não”, disse Trump, na reunião inaugural do seu Conselho de Paz, em Washington.

https://observador.pt/2026/02/19/trump-da-10-dias-para-o-irao-chegar-a-acordo-sobre-programa-nuclear/

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